Há várias formas de voar: as aves voam, o avião voa, o tempo voa, a mente voa, a memória voa. Com asas, por meios mecânicos, correndo, desligando da realidade, esquecendo.
Ao longo do dia voamos constantemente desconectando-nos do real. É o voo dos distraídos, dos passeantes da lua, dos perdidos, dos lunáticos, dos poetas.
Há, porém, raros momentos na vida em que voamos de outra maneira. Quando, por instantes, habitamos um tempo e um lugar fora do tempo e do lugar. Quando experimentamos uma epifania, quando temos um prazer supremo, quando nos transcendemos.
Tendo já experimentado o voo aeronáutico, o do tempo, o da mente o da memória e este último, faltava-me voar como os pássaros.
E foi assim que, de capacete e amarrada a um cesto-cadeira, deixei um dia o chão, levantei voo, rasei a falésia e planei sobre um manto líquido de esmeraldas a gorgolejar vagas de espuma branca aos beijos na areia molhada.
Era o meu primeiro voo. Com uma asa que afinal não era a minha. Uma asa que se desenhava curvilínea e rosa na imensidão azul com fios quase invisíveis manobrados pelas mãos experientes de um ‘voador’ sentado num nível acima do meu.
Com o ar a tocar-me a cara fingi uma condição de pássaro e o infinito foi momentaneamente meu. Depois foi o céu, o mar, o ar e eu num murmúrio uníssono. Como o todo pode ser o um, como o um pode ser o todo.