domingo, 8 de abril de 2018




É O TEMPO A FUGIR


Há já uns dias atrás, calhei ler um texto com diferentes atribuições de autoria. A versão que me veio parar à mão dizia-se de Mário de Andrade e abria assim:

 “Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma cesta de cerejas...
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói até o caroço.”

Ao resto do texto já não dei muita atenção, mas estas palavras tonitruaram, fizeram eco e encostaram-se a mim, ficaram a reverberar dentro e hoje, enquanto caminhava o som da água do rio, vieram de novo com mais ímpeto abrindo finos sulcos na pele.

Sem dar conta como, tanto tempo fugiu!

Olho o rio. Olho a ondulação e, uma após outra, pequenas ondinhas tecem-se na vida do rio, correm e desfalecem na margem. E, numa sucessão contínua, muitas outras vêm. Como se estivessem a correr para alguma coisa concreta, algo aonde há que chegar. E chegam. Tão demasiadamente rápido!

Pergunto-me se eu sou como estas ondas. Uma manifestação efémera, em louca corrida para um final inexorável. E lembro que um dos nomes que escolhi para mim , simboliza a beleza, o amor, a felicidade, a renovação, a esperança  e é ao mesmo tempo um recordatório da efemeridade e transitoriedade da vida e um convite a vivê-la sem medo e aproveitar intensamente cada momento.

E a frase “todos os seres humanos morrem, mas poucos vivem” acende-se em luzes de néon multicolor.
E vem um outro pensamento, este de Rumi, o poeta místico “Não fiques contente com histórias, coisas acontecidas com outros. Desdobra o teu próprio mito.”

E, no receio, de não me ter dado permissão a desdobrar todas as pregas da minha história, a dançar a minha dança, um sentir de urgência abre caminho a coisas por fazer, por viver, por conhecer, por sentir!

A um grupo de pessoas à beira da morte, pediram que refletissem sobre os maiores arrependimentos das suas vidas. Quase todos responderam que não se arrependiam pelo que tinham feito... mas pelo que deixaram de fazer. Os riscos que nunca correram. Os sonhos que nunca buscaram.

Decido que quero manter os meus sonhos vivos e que ganharei  a coragem necessária de virar páginas sempre que tal se impuser. Até porque cheguei à idade em que não preciso explicar o porquê. Quero aliar a assertividade com a gentileza e a suavidade que tantas vezes me faltam!
Decido que não vou adiar a escrita de novos capítulos sempre e quando tal estiver na minha mão. Quero ser fiel ao meu corpo, coração e espírito. Quero viver o paradoxo da serenidade apaixonada. Quero manter a mente curiosa e flexível e o coração sábio.

Não tendo porém ainda a sabedoria que o poeta revela no poema abaixo, neste ponto crucial da estrada, inevitavelmente, pergunto-me o que haverá para lá da curva.


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
 talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro