Depois de uma corrida na noite estrelada da A5, o táxi parou à porta da tia Quininha na R. António Augusto de Aguiar. Arranjei uma desculpa para não a acompanhar a casa e continuei a minha viagem. Queria saber o que era andar de carro, sozinha e à noite, pelas ruas semidesertas da cidade, quase sem trânsito àquela hora tardia. Virámos à direita, contornámos o Marquês e descemos pela avenida.
A meio, mudei de ideias, pedi ao taxista para parar e saí.
Apetecia-me sentir o barulho silencioso da noite. Estava na Av. da Liberdade. Era liberdade o que eu precisava respirar. Sorvi o ar e comecei a caminhar pelo passeio que separa a faixa central da lateral direita de quem desce. Fiz a vontade aos pés, ensaiei uns passos desajeitados e senti-me uma miúda a contornar a geometria e os arabescos da calçada. Dei por mim a dançar, eu que sou pouco dada a expor-me, quanto mais assim publicamente. Atribuí esse meu inesperado à vontade ao facto de, naquele momento, não haver ninguém ali por perto. De repente sentia-me como calculo que alguém estrangeiro se deva sentir numa cidade desconhecida: sem ter contas que dar a ninguém, sem me importar com o que pensassem de mim, estando-me nas tintas para que aprovassem o meu comportamento. Apeteceu-me descontrair e ser eu por uma vez. Apeteceu-me gritar. Não um grito de dor ou de raiva. Antes um grito libertador de uma energia antiga que me apertava como se cintas de ferro me envolvessem todo o corpo. Um grito que expulsasse o que em mim se comedia, se acanhava, se acobertava. Mas o acanhamento foi maior que a vontade. O grito não saiu e um sufoco aterrou na palidez melancólica dos candeeiros da avenida. Sentei-me num banco que, tal como eu, tímido, se oferecia.
Já que não conseguia olhar para mim, varri devagar o espaço à volta.
Àquela hora, saídas de algum bar, cinema ou tertúlia, começaram a passar algumas espaçadas pessoas. Não eram todas iguais. Um grande grupo passou, mesmo diante de mim, a rir uma alegria desmesurada, logo seguido de um grupo mais pequeno que discutia acaloradamente. Talvez política. Um travesti bamboleava-se no passeio, também ele querendo pisar unicamente as pedras pretas da calçada, quando um casal parou ali a ganhar alento e a refazer-se de alguma zanga. Olhavam-se no que pareciam ser tréguas forçadas. Vi o medo entrar no olhar vazio dela. Senti o cheiro de mais uma vitória nele.
Comecei a correr. Quis fugir da rua. Quis fugir das pessoas. Quis fugir da noite. Quis fugir sem saber de quê.
Olhei para cima. As folhas das árvores coavam o brilho baço das estrelas que a noite clara das cidades esconde. O cheiro impessoal das paredes das casas comprimia-me o peito e eu corri mais e mais. À medida que corria, os prédios dos dois lados da avenida pareciam cobras ondulantes aos ziguezagues, ora afastando-se ora envolvendo-se numa aproximação perigosa em que cada um quase que juntava os últimos andares dos edifícios opostos. Pareciam bocas famintas, desesperadas, à procura de satisfação. E eu corria entre eles mais e mais para não ser engolida no momento do aperto. Entre bruscas quedas e equilíbrios instáveis sentia-me miraculosamente apoiada, no último segundo, por um exército invisível de elementais.
O imaginário da minha infância vinha em meu socorro. No momento em que estava a nu com os meus medos à solta, sem filtros nem crivos, no momento em que aquela parte de mim que sempre queria estar no controlo percebeu que nada podia controlar, o mais puro e primordial de mim, destapou-se.
E então o grito saiu. Um grito rouco, gutural que me limpou a garganta e que aos poucos foi descendo e percorrendo todo o meu corpo. Era um grito que me ligava a qualquer coisa nova, desconhecida, funda, sem tempo, ao mesmo tempo que flashes de imagens quase psicadélicas ocupavam um enorme ecrã virtual e percorriam a história do tempo.
Estática e extática vi-me de frente para o rio sem saber como ali tinha ido parar. A minha presença no local era avassaladora, parecia-me ocupar o espaço por inteiro, filha da Terra, do Céu e do Mar. Qual deusa ancestral, plena de valor, força e feminilidade.
O telefone tocou. Era a tia Quininha. Queria saber se já estava em casa.

