terça-feira, 22 de abril de 2014

Sobressalta-me
Um rumor de espuma no ar
Talvez seja a manhã
A querer voar
A procurar no céu
Um sonho que ainda vive

Talvez seja nada
Talvez seja só um olhar
Ou o meu corpo a acordar
Numa dança com o teu
Com o sol a assomar

Dá-me mar, dá-me rio
Dá-me um barco sem fio
E peixes verdes no olhar
Dá-me palavras espessas de segredos
Dá-me flores abertas nos meus dedos

Mas se a tarde fechar
E se o corpo esquecer
Os caminhos do teu
E se o frio na noite descer
E o desejo encolher

Dá-me mar, dá-me rio
Dá-me palavras sem tino
De lava a escorrer
De mares a congelar
Dá-me flores de jasmim
E jardins de luar

É preciso ousar.

É o preço de amar.
As coisas que mais necessitamos são as coisas de que temos mais medo como a intimidade e a comunicação autêntica. É comum ficarmos desconfortáveis com a intimidade e com a conexão. Até mesmo com a intimidade connosco própri@s. Acanhamo-nos de nos explorar e sentir no corpo e na psique. No entanto, a intimidade e a comunhão/conexão estão entre as nossas maiores necessidades não atendidas. Ser realmente vist@ e ouvid@, ser verdadeiramente conhecid@ e reconhecid@, é uma necessidade profundamente humana. A nossa fome disso é tão grande, que procuramos consolo e amparo nos substitutos que temos à mão como a televisão, comida, compras, pornografia, consumismo - qualquer coisa para aliviar a dor e para nos fazer sentir, ainda que aparentemente, conectad@s. Intimidade não tem só uma conotação sexual. É muito mais que isso, inclui todas as diferentes dimensões da nossa vida – sim, inclui o físico, mas também o emocional, o mental e o espiritual. Intimidade significa realmente compartilhar e, o que comumente fazemos nas nossas interacções, é evitarmos os olhos nos olhos e atermo-nos a temas que não gerem desconforto e que não revelem as nossas fragilidades. Temos medo da proximidade. Temos medo de amar porque quanto mais próximo se chega de alguém, maior é o risco de haver dor. É o medo da dor que sempre nos impede de encontrar a intimidade verdadeira connosco e com @s outr@s. A grande maioria das pessoas já se magoou num relacionamento. A questão é: como lidar com essa mágoa? Ao construirmos uma muralha em volta de nós para nos protegermos de que alguém tente entrar e nos magoar, essa mesma muralha que mantém as pessoas afastadas, mantém-nos trancad@s dentro.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A PRIMAVERA CHEGOU

A Primavera chegou. Ela sempre chega. Chega para nos lembrar a ciclicidade da vida: na natureza e em nós. Chega para nos lembrar o incómodo, a dor e a paciência que à semente se fez necessária lá no fundo, bem no âmago da terra. A semente que para poder germinar, para poder libertar o seu real poder, aguentou firme a escuridão e o peso da terra num abraço silencioso e húmido até sentir a sua casca dura estalar e o embrião, guardado dentro, irromper e começar a subir até emergir do solo em busca de luz e oxigénio para viver. Lembra-nos também o nosso tempo de espera inquieta na escuridão a cada dia mais longa das noites da nossa psique. Num treino de paciência, entrega e confiança. E de esperança. Nós que nos atrevemos a descer ao submundo, a mexer o caldeirão, onde colocámos o que precisava ser abandonado para ser transformado. Nós que acompanhámos a morte da natureza, que respeitámos o seu silêncio com o nosso, nós que buscámos a regeneração do corpo e da alma. A Primavera chegou. Não tinha porque ser diferente. Nos parques e nas ruas as árvores parecem jovens púberes a tapar a sua nudez invernal com vestidos ainda de rendas transparentes e esburacadas. E é linda a inocência com que desfilam essa vontade de se porem belas, de florirem e frutificarem de novo. Sabendo que o Outono lhes roubará a realeza da sua cor dourada, que as flores e os frutos as abandonarão, que as suas folhas cairão e que irão servir de húmus num eterno ciclo de morte e renascimento. Espanto-me com a sabedoria das árvores. Com a sua presença testemunhal de ciclos, estações, vidas. Assim, simplesmente sendo. No dia, hora, minuto e segundo. Sem passado nem futuro. Apenas o presente. Sem expectativas. Hoje sentei-me no parque a olhá-las e a contemplá-las. E lá estavam elas. Olhos que as viram na primavera passada, uns antecipando, outros não, a sua data de validade, já não as vêem nesta glória recuperada. Mas ali estavam altivas e soberanas. Sábias, amorosas. E uma vez mais pensei que é a vida que se experiencia em nós e não o contrário.