sexta-feira, 27 de abril de 2012

Talvez até ao próximo sinal




                                                             http://www.youtube.com/watch?v=G8-6pZxJ4yc


A partir de Sinal Fechado de Paulinho da Viola


 Olá, viva, como estás
  Que bom, és tu 
 Há quanto tempo não nos víamos
 Sim, há muito, muito tempo
 Corro na vida à procura da felicidade
Eu procuro vivê-la
Não tenho tempo para nada
Nem para seres feliz?
Estás igual
Com algumas rugas mais
Mas conheces os benefícios da estética
Gosto das minhas marcas. Não quero esquecer porque as tenho
Tenho tanto a contar
Eu também, mas o sinal
Telefona-me. Vai abrir
Não sei para onde
Ligo eu
Mudei de telefone
Já abriu
Já abriu





quinta-feira, 26 de abril de 2012

E olhas através da janela


Quando olhas pelos vidros da tua janela, as folhas das árvores, dançando na brisa, sussurram-te segredos. Antigos. E outros de agora. Trazem-te memórias de um tempo que não sabes a que tempo se refere. Talvez te lembrem uma dor, uma falta de coragem, um amor não vivido, uma alegria esquecida, algum abandono ou uma desistência tua. Quando o teu olhar pousa tranquilo nos frágeis pássaros imaginas a vida que foi a tua.

Não, o telefone não está a tocar. Não, o correio não veio hoje. Olha, chegou uma carta para ti. E parece o eco da voz da tua mãe.

A brisa lá fora agita-se e faz balouçar as hastes dos pequenos bambus que decoram a tua parede. Os colibris, assustados, levantam voo e beliscam a tua indolência. Levantas-te da cadeira, abres o armário, procuras o teu caderno e relês coisas que há pouco escreveste sobre outras que se passaram há muito tempo.
Ele gosta de ti, disse-te uma amiga tua a meio de uma aula que já não recordas de quê. Como sabes? perguntaste tu fingindo desinteresse. Porque ele até estremece quando ouve o teu nome, respondeu ela num sorriso a exigir uma cumplicidade que não devolveste. Naquele momento uma luz acendia-se dentro de ti, mas tu, querendo escondê-la a todo o custo, olhaste para a tua amiga imitando uma segurança que não sentias e asseguraste que não querias saber.
À noite, na solidão que só a cama te permitia ter porque não tinhas um quarto só teu, acendeste de novo aquela luz e deixaste que te inundasse de calor. E os teus dias passaram a ser de sol mesmo quando não tinhas coragem de o olhar e continuavas a fingir indiferença. Mesmo quando esperavas impaciente e já ias perdendo a esperança que os passos dele atravessassem a distância que vos separava.
 Quando terminaram as aulas do primeiro período e todos se iam apartar para as férias do Natal nas suas casas, nas suas vilas ou aldeias, lá bem em baixo, ao fundo da escadaria do liceu, despediste-te dele. Naquela altura não havia intimidades. Nas pequenas cidades de província os rapazes e as raparigas só começaram a cumprimentar-se com um beijo mais tarde. E tu ali, a querer senti-lo e sem saber como. Ocorreu-te tirar a luva e deixar a mão nua e livre. Com o coração muito contraído, apertaste-lhe a mão num gesto de despedida e, no frio gélido do dia, os teus dedos escaldaram-se perdidos no lume aceso da palma dele.
O carteiro não trouxe a carta. O tempo passou.

Alguns meses depois viste. Ele de mão dada com outra. Faltou-te literalmente o chão. Uma brecha enorme engoliu-te a esperança. Com a respiração suspensa seguraste-te à tua superioridade fingida e ao teu improvisado ar seguro. Olá disseste tu. E já não ouviste mais nada porque camadas de desilusão te envolveram toda.

Tu sabes que o tempo passa. Que o tempo passou muito depressa por ti. Já não há a voz da mãe. E olhas através da janela a sondar os segredos do agora.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma árvore é um livro



mãe
filho
árvore
livro
morte e nascimento 
ou não, talvez só alquimia
 folhas da árvore, folhas do livro
 árvore com copa, livro com capa
árvore sábia na serena imobilidade
simbólico eixo a ligar o físico e o divino
de ramos estendidos na busca da luz ergue o olhar ao Pai
enquanto com raízes fortes procura o alimento escondido
e se funda na Mãe
livro refúgio
inspiração simbólica
 ligação ao inominável
prelúdio de viagens aventureiras
fonte de alucinações
árvore barco
livro alado
árvore livro
livro árvore
Um


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Despertares…




Era um relâmpago contínuo, o Mustang vermelho, a riscar o quase anoitecer. Porém, o acender de um semáforo inesperado obrigou-o a uma travagem brusca, que aqueceu de cheiro negro o asfalto. Nessa altura, do meu tímido Fiat 600, pude observar com nitidez aquela impressionante e curvilínea máquina. Enchiam o seu habitáculo dois corpos: um deles, o do condutor, quase abafando o outro. Homem corpulento, adivinhava-se-lhe a altura desmesurada na cabeça lisa e nua que rasava o tejadilho numa ameaça de perfuração eminente. Aproveitou a paragem para fazer recuar o tejadilho. Fez isso com gestos exuberantes e falando sem parar. Sons de autoridade inquestionável desenhavam-se-lhe nos lábios grossos de lascívia. Droga de semáforo. Ainda me passou pela cabeça continuar, mas a lembrança da chatice da semana passada com a brigada de trânsito, fez-me logo mudar de ideia. Entretanto, já que aqui estamos parados, vamos lá aproveitar o empo, oh pequena. Olhando-o agora fixamente, pude apreciar melhor os seus olhos proeminentes num rosto largo e suado e o tronco anafado coroado por uma protuberante barriga que subia e descia ao ritmo da respiração descompassada. As mãos, rudes e grossas, estendiam-se autoritárias para o lado direito ocupado por uma presença feminina que, não fora a cara morena vincada por duas insistentes rugas, pareceria uma criança franzina a entrar na adolescência. Cabelos longos e rectilíneos emolduravam-lhe o mutismo na cara baça de esperança. Cruzava os braços e enterrava as mãos nas costelas que assomavam por debaixo da blusa justa. Os olhos, cor de cinza molhada, semicerrava-os numa linha estreita com que repelia a confusão de pensamentos desencontrados e com que chegava a uma decisão. Inabalável. Não vou aturar mais isto, pareciam eles querer dizer. Se ele pensa que me usa a seu belo prazer, engana-se. Ele que se atreva a aproximar-se de mim e eu mostro-lhe como se pode tornar feroz a fragilidade. Como se pode transfigurar a amorosa e gentil parceira na leoa selvagem que reivindica a sua pose radiante e verdadeira. Aí sim, ele irá aguar-se no vislumbre da totalidade que verá em mim. Eu, que sou filha do Amor. Lia-se-lhe uma quase alegria nos olhos rasgados de escuridão. Com um gesto certeiro e o ar triunfante de quem se desembaraça de pesado lastro, repeliu-lhe o avanço e deixou-o lá, agachado e gemente. Abriu a porta do carro e caminhou com a promessa das lezírias na primavera. 
Que inacreditável visão, de força, magnetismo e poder a agigantar-se numa forma imensa que crescia na minha direcção. Uma voz firme mas serena, arranque antes do verde, roçou-me a pele e liquefez-me a vontade.