terça-feira, 31 de maio de 2011

Não chega a ser despedida



Hoje é o meu último dia de trinta e seis anos no ensino official.
Alguns colegas, aqueles  que durante  muitos anos fizeram de escolas a sua segunda casa e a quem a pouca esperança num futuro digno já tirou o brilho e o fulgor, dizem-me  que gostariam de estar na minha posição. Estão cansados, algo desiludidos e pouco crentes de que o reconhecimento do seu trabalho se reflicta na  sua carreira. Conjecturam sobre a qualidade e volume da poeira  que os ventos de Junho poderão levantar.

Perguntam-me alguns como me sinto, à espera talvez do alívio exuberante de quem deixa para trás chatices e obrigações quantas vezes indesejadas e inúteis, ou de uma nostalgia nascente de quem escreve o último sumário e se despede do último aluno.

Nem alívio nem nostalgia. Sinto-me tranquila a viver mais um dia. Que, por acaso é o último de uma carreira de professora. Despedi-me dos  alunos conduzindo um momento de relaxamento levando-os para um espaço imaginário de beleza, segurança e harmonia. E disse-lhes que era dali que nos apartávamos para outros encontros. 

Sinceramente nem sequer sinto que fecho uma porta. Estou a encostá-la e a sair para um passeio no jardim. Se tenho planos? Sempre os tive. Ele há tantas janelas...

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Fins e começos

Em Outubro passado tomei a decisão de me disponibilizar, por inteiro, para acolher mudanças. Em concordância com essa decisão precipitei acções e depois, aliviada, escrevi e partilhei com alguns amigos este texto:

Eureka! Eureka! terá exclamado Arquimedes, há mais de dois mil anos, quando descobriu que dois corpos não podiam ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo.
É evidência científica que duas coisas não podem ocupar em simultâneo o mesmo espaço.
Quer isto dizer que, quando queremos que algo diferente surja na nossa vida, a sua materialização necessita ocupar o espaço de algo que já existe. Assim sendo, se não libertarmos o que já existe, como podemos criar  lugar para o novo?
Libertar e deixar ir algo é fácil de fazer quando já não nos importamos com ele. Mas quando o lastro que deixa para trás ainda é crucial para nós, o seu fim, um testemunho de quem somos, pode tornar-se um sinal de que fracassámos ou perdemos. Esse fim pode significar que uma parte de nós termina também e deixá-lo ir pode ser muito perturbador e doloroso.
Vem isto a propósito de que eu decidi abrir as portas à novidade absoluta, sem reservas.
 E, lembrando-me do princípio de Arquimedes, comecei a largar os lastros da única profissão que tive e que já não me serve.  
Tantos anos a ensinar crianças e adolescentes. Tantos anos a ensinar a comunicar e a pensar. Tantos anos a passar conhecimentos e a contribuir para modelar atitudes. Tantos anos a importar-me com a atenção, com a disciplina, com o interesse pelo aprender. E pelo saber. E pela cidadania. E pelo respeito do outro e, sobretudo, do próprio. Tantas vezes a frustação a tomar conta: fosse pela falta de correspondência minha ou daqueles a quem me dirigia.
Sou professora, ouvi-me muitas vezes dizer. Erroneamente identifiquei-me com a que era só uma pequena parte do meu eu.
A certeza de que era muitas coisas mais foi-se insinuando, instalando, ocupando um espaço cada vez maior e finalmente permiti-me que as muitas vozes dentro de mim se tornassem conscientes.
E, naturalmente, percebi que havia um ciclo ao qual queria pôr fim. Pedi a aposentação antecipada. Sem mágoa, sem desconforto, sem medo do vazio aparente que um final sempre configura. Em paz, percebi  que a única coisa dolorosa seria se eu não me permitisse que aquele fim ocorresse.
E percebi que são os finais que tornam os começos possíveis.

o fim e o começo têm data marcada para 31 de Maio...