terça-feira, 14 de setembro de 2021



SETEMBRO A DESFOLHAR-SE


Eu gostava que não fosse assim. Eu gostava de já ter integrado todo o saber que a roda do ano encerra no seu ciclo de eterno fim e recomeço. Eu gostava de me despedir de vez da melancolia que o Setembro sempre me trouxe e que este particular Setembro reaviva em memórias de carne exposta. Eu gostava de não vibrar nesta sensação de perda quando o verão se aproxima do fim, se não no calendário, quase sempre na Natureza e na minha natureza também. Às vezes penso que terá sido por ter nascido no Verão e se não será um desejo atávico de não perder o útero, o ninho, o colo, o cuidado de alguém.

Nos anos da minha adolescência ouvi uma belíssima canção/poema ao mês de Setembro que tocou as franjas do meu ser interno e que sempre retornava a mim nos dias que ditavam o aproximar do fim de tudo que simbolizava a partida do verão. Muitas vezes cantarolei os seus versos estranha e visceralmente sentindo-os meus e sempre a arrancarem-me saudades infinitas e indefinidas que o decorrer dos anos adensaria numa perplexidade sem compreensão nem nome.

Depois houve um tempo em que me julguei imune à melancolia do Setembro e me julguei pacificada com as diferentes manifestações, ofertas e colheitas externas e internas que a roda do ano me oferecia.

Só que não.

Hoje quis de novo relembrar esse poema. E não, não veio sincronicamente ter comigo. Procurei-o. A net é boa nisto.

Setembro desfolhou-se

Numa agonia lenta

Com o seu fato de troncos

Entre os dedos do vento

Tons vermelhos dispersos

Na calma dos poentes

Eram lábios perdidos

Que sugeriam beijos

 

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

Para voltar a dar-te

Os sonhos que eram nossos

Vestida de esperança

E de alma enamorada

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

 

Setembro chegou

Vestindo flores silvestres

Com as frutas maduras

Nos braços nus agrestes

 

Por todos os caminhos

Te procurei sem ver-te

Os meus passos errantes

Na terra perfumada

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

Mas tanto procurei

Que dei por mim sozinha

 

Setembro desfolhou-se

No silêncio das tardes

Entre os dedos do vento

O meu amor desfeito

 

Percebi, talvez, o que a mágoa do Setembro representa. É simultaneamente literal e simbólico.
 É a luz a esvair-se-se nos pores do sol gradual e inexoravelmente mais temporões. 
É o recordatório da sombra dos dias. É a consciência dos mergulhos nos quartos sombrios. São as  procuras desencontradas. Os sonhos que falharam o cruzar-se com a realidade e também os que se esboroaram em caminhos mal desenhados. É uma procura de tudo o que sei mas não vi.

É o contacto com a consciência de que quiçá tenha vindo para não viver o que era suposto viver que me apanha a cada Setembro e que o rodar dos  meses que se lhe seguem acaba por diluir nas franjas de outras consciências.  

IC 14 Setembro 2021

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 




A “Peta”do Inverno neste dia primeiro de Abril   

 

 

Esquecid@s que parecemos do costume brincalhão de pregar mentirinhas no dia 1 de Abril, a meteorologia, armada em guardiã desta tradição secular, tomou o assunto entre mãos.

E hoje amanhecemos abismad@s com o esquecimento da Primavera em acordar e com o Inverno a lançar pelas emissões meteorológicas televisas e radiofónicas a ideia de que ele, Inverno, nunca tinha ido embora. Estava aqui. De volta. E queria ficar. A Primavera? Ah, a Primavera que se contentasse com o curto reinado de 11 dias que já tivera!

Mas, entretanto, pela janela, olho para as árvores engalanadas de vestidos de verde lustroso estreados há pouco, e penso que não pode ser. É uma partida. Uma peta do Inverno, armado em Orson Welles.

Só que agora já estamos habituados a fake news, a eventuais invasões de  ET´s e similares a passear entre nós, e não panicamos facilmente. Nessa altura era o ano de 1938 e não havia os Facebooks, os Instagrams ou os Whatsapps da vida para os “alertarem” de que era falsa a invasão e a Guerra dos Mundos.

Então dou comigo a ir a estas redes sociais e...nada! Nada de “alertas”! Concluo que a primavera ainda está cá.

Foi grande o embuste do Inverno, mas não passa disso mesmo.

Mais tranquila, cheiro a chuva e acho bonito vê-la cair, ora suave ora tempestuosa, a regar os jardins, a lavar as árvores e as ruas que andavam já com tanto pó! E depois reparo que o SOL está por detrás das nuvens mais negras. O malandro do Sol entrou na brincadeira e não quer desmanchar-se em gargalhadas para não descobrir a careca ao Inverno.

Pois bem também eu vou entrar nesta brincadeira. Vou fingir que acredito pois, porque sou de Fé e na Fé, sei que a Primavera É  e que amanhã o Sol amanhecerá outro dia!

E agora dou comigo a imaginar se aparecerá por aí hoje uma notícia a dizer que o ano de 2020 e este 2021 a decorrer não passaram de um pesadelo colectivo orquestrado por um mago sucessor do genial Orson Welles.