sábado, 23 de abril de 2011

FESTA DE FLORES



O dia apanhou-me com vontade de limpezas, daquelas que só acontecem duas a três vezes por ano. E foi no meio delas, que dispersas memórias da infância longínqua fizeram caminho.
Daqui a dois dias é domingo de Páscoa, vem-me à cabeça, enquanto lavo as pequenas lâminas do estore. 

 Esta era a altura, por excelência, das grandes limpezas, na casa dos meus pais. Esvaziavam-se armários, lavavam-se os pratos, as travessas e os copos. Polia-se o cobre e o bronze, nutriam-se as madeiras, não com óleo de cedro, mas com uma mistura artesanal. Baixavam-se os cortinados e voltavam a pendurar-se com cheirinho a lavado. A cera fresca perfumava e dava brilho ao soalho. 

A Páscoa deste ano acontece já com a Primavera adiantada. O arbusto, que me lembra  outro da minha infância, já floriu e derramou a sua brancura. Os melros correm atrevidos na relva aparada, pavoneando  a sua elegância, vestidos de preto com um toque laranja que os distingue sem os tornar vulgares. Os pardais saltitam de ramo em ramo numa alegria contagiante. Até já as andorinhas andam por aí em maratonas rasantes.  

Era assim também então. Quando se ouvia o cuco, sabia-se que a Primavera estava instalada. E que o Verão não tardaria. A grinalda no quintal purificava o seu verde com míriades de pequenos pontinhos brancos. Era o tempo das grandes certezas. Eu não conhecia ainda o conceito de impermanência. Parecia que tudo seria eterno e imutável. As pessoas e as coisas estariam lá, ano após ano. O pai e a mãe nunca nos iriam faltar. A cada bucólica Primavera, os campos enchiam-se de verdes ondulantes semeados de cores garridas. Depois, infalivelmente, viriam os calores do estio, as colheitas, os banhos no rio caprichoso que, em alturas de maior seca, se esgueirava para outras paragens. Os ouriços dos castanheiros, grávidos, abriam-se a partos prematuros, soltavam as primeiras castanhas  em camas de folhas e prenunciavam as primeiras chuvas e ventos. E, claro, o frio, as geadas, a neve e o gelo haveriam de trazer o Natal e convidar o menino Jesus, que haveria de crescer e depois morrer e ressuscitar.  Era sempre entre Março e Abril que isso acontecia. Esse, o dia em que ele ressuscitava, a par com o Natal, era para nós, garotos, um dos melhores dias do ano. Chamávamos-lhe, na minha aldeia, a Festa de Flores.  Os santos, tapados com panos roxos, durante toda a semana que antecedia esse dia, o reviver do sofrimento penoso da via sacra, as chagas de um Cristo crucificado que a Igreja ostensivamente mostrava, tudo isso servia apenas de pano de fundo ao encantamento de uma miúda enamorada com os sons e os cheiros da Primavera e no júbilo antecipado de estrear vestido e sapatos. Não era só na limpeza das casas que as pessoas punham o seu brio. Aprimoravam também a sua toilette numa garridice deliciosamente juvenil. Quezílias e mal-querenças, se as houvera, haviam-se purificado nas penitências quaresmais. O tom festivo da renovação pairava no ar acima de tudo. Era alegria pura que o meu pequeno eu recebia de vontade aberta. Sem o saber, abria-me a outras  influências que a festa tinha. Os símbolos mais conhecidos desta celebração religiosa são a união de arquétipos de várias culturas. Os ovos, símbolos oficiais da Páscoa desde o século XVIII, são o símbolo da vida. Representam o nascimento, a renovação e a criação cíclica. O coelho, o símbolo máximo da fertilidade inesgotável. Ambos vêm de Ostera ou Ostara, a Deusa da Primavera para os antigos pagãos da Europa. O chocolate, iguaria tão prodigamente usada, era um elemento considerado sagrado pelos maias e astecas. O cordeiro, além da simbologia cristã, carrega a secularidade sacrificial do povo hebreu.

A par com uma ressurreição, de que ouvíamos falar e vagamente compreendíamos, celebrávamos, na pujança da nossa vida, a chegada da Primavera e o renascimento da terra.
E, a cada Primavera, a cada Páscoa ou Festa de Flores, renovávamo-nos todos na esperança do existir.
E era com vozes triunfantes que uns, bem cedo na manhã do domingo pascal, punham fim a um  jogo iniciado logo após os desmandos carnavalescos, mandando os seus pares “rezar” e ganhando assim um punhado de amêndoas doces, normalmente do tipo francês. Nesse tempo, a indústria da doçaria pascal era modesta, não tentava o mercado com a enorme quantidade de variedades e sabores que nos fazem hoje ganhar quilos só de olhar os escaparates das lojas gourmet, pastelarias e supermercados. As amêndoas mais requintadas da época eram as francesas. Ah, e também as de licor, pequenas drageias de açúcar em forma de passarinhos, feijões, favas, bolotas, ninhos ou ervilhas, recheadas de suaves licores sem álcool. Por serem tão bonitas e delicadas eram as minhas preferidas.  

Era uma conquista admirável sair-se vencedor nessa disputa. Aquela noite arrastava-se sempre lenta, entre estremecimentos e sobressaltos. Cada qual queria ser o primeiro a levantar-se e a procurar um esconderijo estratégico para surpreender o rival ensonado. As amêndoas ganhas eram um prémio secundário. A verdadeira vitória saboreava-se quando o inesperado grito “reza!” punha na cara abismada do outro a decepção irremediável da perda. Depois, chegava  a hora da missa. E, lá em cima no coro, juntavam-se as crianças com cestinhas cheias de pétalas de flores, para quando a procissão saísse à rua as deitarem, em chuva, sobre o pálio e sobre os fiéis. Era a única vez no ano que nos era permitido lá estar e eu desfrutava dessa liberdade com o ar compenetrado de quem cumpre uma missão sagrada.

Estamos outra vez nas vésperas da Páscoa.
Em casa, afinal grande para um só ocupante, os únicos símbolos da época, (direi Páscoa? Primavera?) são as flores com que a enfentei. Não há ovos, coelhos, amêndoas ou folares. Amanhã o almoço, em família, será cordeiro. Simplesmente porque sim. Apesar de conhecer a origem da tradição.
Procuro, cada vez mais, os símbolos dentro e não fora de mim.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Poesia


Trata-se da poesia do filme Poesia  do coreano  Lee Chang-dong, há já bastante tempo em cartaz num dos cinemas de Lisboa.
Entre estupefacta e emocionada fiquei ontem, no final da fita, pregada à cadeira a ver uma ficha técnica a passar lenta, expressa em caracteres que não entendia, mas que prolongavam o espelhar das águas escuras e inquietas de um rio, repositório de vergonha e indignação silenciada e testemunha de  aconteceres banais e significativos.
É o rio que abre e encerra o filme. No meio ficam as emoções de uma história contida, com um enredo escondido, ou pelo menos não mostrado, para o espectador descobrir nas pistas que vão sendo deixadas.
À personagem central do filme, Mija (Yun Jung-hee), é dada a incumbência  de fazer determinadas escolhas éticas. E a beleza do filme, sem qualquer banda sonora, está em acompanhar o olhar contemplativo e as opções que essa mulher, de mente inquieta e perto dos setenta, vai fazendo.
Na decisão tardia de recuperar uma paixão da tenra idade, inscreve-se num curso de poesia. Logo na primeira aula, ouve o professor dizer que o difícil não é escrever poesia; o difícil é encontrá-la no coração e que o caminho para alguém encontrar a sua voz está em ver e sentir verdadeiramente as coisas. E ela começa a procurar beleza em todo o lado, nas roupas que veste, nos pássaros, nas flores,  nas árvores, ao mesmo tempo que a realidade  a vai confrontando com a sua dureza e fealdade. Toma conhecimento da responsabilidade moral do neto a seu cargo,no suicídio no rio, de uma jovem estudante, a quem ele e mais cinco rapazes repetidamente haviam violado. Toma ainda conhecimento da sua doença em processo irreversível. E Mija vai aprender que tal como existe luz e escuridão, a beleza também anda a par com a sujidade e com o sofrimento. E que escrever poemas será isso mesmo. Na busca estéril de escrever o seu primeiro poema, objectivo final do curso, vai anotando as suas observações num caderno, ao mesmo tempo que o Alzheimer lhe força o esquecimento das palavras do seu quotidiano.
Na sua incapacidade para lidar com a hipocrisia que a rodeia, Mija parece querer fugir  a tomar uma posição mas, ao mesmo tempo que matura o seu poema, nela vai amadurecendo também a decisão ética de não pactuar com  a impunidade. Com pequenos gestos simbólicos, em silêncio, prepara o neto para a expiação.
 E, como se transferisse para si o destino da jovem suicida, escreve uma confissão de amor e despedida no poema que deixa para ser lido na última aula do curso:

Como é lá?
Quão solitário é?
Ainda é vermelho ao pôr do sol?
Os pássaros continuam o seu canto no caminho para a floresta?
Podes receber  a carta que não ousei  enviar?
Posso transmitir a confissão que não ousei fazer?
O tempo passará e as rosas desaparecerão.
Agora é hora de dizer adeus.
Como o vento que permanece e depois vai,
exactamente como as sombras.
Para as promessas
nunca cumpridas,
para o amor
mantido até ao fim.
Para a relva que beija
os meus tornozelos cansados
E para os pequenos passos  que me seguem.
É hora de dizer adeus.
Quando a escuridão cair
Será que uma vela será acesa?
Aqui eu rezo
para que ninguém chore
e para que saibas o quanto te amei.
A longa espera no meio de um dia quente de verão
um velho pensamento
lembra-me o rosto do meu pai.
Até a solitária flor selvagem se afasta.
Quão profundamente amei.
Como o meu coração acelerou ao ouvir a sua débil canção!
Eu te abençôo.
Antes de cruzar o rio negro
com o último suspiro da minha alma
começo a sonhar com um manhã de sol brilhante.
desperto outra vez
ofuscada pela luz e o encontro...
esperando por mim.

domingo, 17 de abril de 2011

Perdoa


“Perdoa-me, não por te deixar, mas por ter ficado tempo demais” Marguerite Yourcenar


Sentiu na tristeza fria da madrugada uma suave companhia. Os tons rosa pálido davam cor ao branco esmaecido do céu. Era o dia a vencer a noite. A tranquilidade a fazer esquecer os pesadelos nocturnos. A claridade a encher o vazio das  sombras. A dualidade a justificar a sua existência.
Ia já na quinta camisa. Ele gostava delas bem engomadas, à antiga.  Mas já há muito que ela não punha nessa tarefa a sua atenção e ele queixava-se, não raras vezes, de um colarinho com rugas ou de um punho mal vincado. 

Entretanto fizera-se um silêncio desusado. Nenhum duche a correr, nenhuma porta a bater, nem os usuais passos nas escadas. Lá fora, o rosa desaparecera do céu e castelos de nuvens brancas mudavam de cor e acotovelavam-se na vontade escura de existir. Elsa desejou que as pingas de chuva que pairavam no ar, sem no entanto conseguirem cair, se derramassem e lhe lavassem a inquietação. Enquanto, distraída, tirava os vincos que o calor excessivo da máquina de secar deixara nas mangas da camisa, um salpico, que tanto podia provir de um descuido seu com o borrifador como de uma providencial gota caída das nuvens, atingiu-a e uma decisão clareou-lhe a consciência. Com a vastidão do deserto no olhar, pousou o ferro, pendurou a camisa num cabide e guardou-a no armário. Seria  a última vez que fecharia alguma coisa num armário, pensou.  

Olhou-se ao espelho. Uma vez que  tomara aquela decisão achou que alguma coisa em si deveria ter mudado. Mas não. Aparentemente o espelho devolvia-lhe uma imagem igual. O mesmo corpo delgado, ainda a mesma expressão de cansaço no rosto, as mesmas mãos desamparadas. No entanto, o seu olhar, esse sim, estava diferente. Embora de  forma subtil, o espelho devolvia-lhe o olhar de quem sabe que o seu ser autêntico queria começar a existir por completo. Fora daquela ilusão, dele e daquela casa. Na sua solidão.

Lembrou-se dos últimos anos. A ansiedade que precedeu o seu casamento com o Jorge em quem depositara todas as expectativas da comunhão que os primeiros amores  lhe tinham negado. As suas esperanças e esforços para ser feliz com ele já que não lhe passava pela cabeça que o pudesse ser de outra maneira. As primeiras desilusões. Os pequenos segredos. As zangas e discussões. As pretensas inocências. O desalento. Os silêncios embaraçosos que nenhum sabia já como preencher ou evitar. A incomunicabilidade crescente. As desistências e cansaços.
A certeza de que tinham sido ilhas que se tocaram mas que não se entenderam,  era sua há um bom tempo. No entanto, faltara-lhe  a coragem e determinação para destruir a última ponte.

Hoje, a crueza fria da manhã, apenas aquecida pelo vapor saído do ferro de engomar, clareara-lhe o inexorável caminho. O seu caminho. E, decidida a encontrar o sentido das coisas pôs-se ao caminho, sabendo que não há caminho. Que se faz caminho ao andar.
Já na rua, quis deixar-lhe uma mensagem. Numa folha do seu bloco de notas escreveu:

“Perdoa-me, não por te deixar, mas por ter ficado tempo demais” Marguerite Yourcenar

Enfiou-a por debaixo da porta da rua e imaginou-se a encontrar o fio que a ligaria de volta a si e à vida.