sábado, 4 de fevereiro de 2023

 


O NASCER DA LUZ

 

Desde o solstício do Inverno  que a luz começou  a tremeluzir e a iniciar a lenta e tímida  saída  da escuridão das noites longas. E, apesar de o calendário ocidental continuar a assinalar o Inverno, o Imbolc vem reafirmar  que a luz engravida pausadamente tornando os dias um pouco mais longos. E mais alegres.

A longa hibernação que a caída da folha iniciou e que o Samain adensou convidando-me, diria mesmo obrigando-me, a recolher o movimento, a encolher o corpo, a esconder o frio debaixo de mantas, às vezes a não saber o que fazer com tantas horas de escuridão, começa agora a dar sinais de querer ceder.

E se tudo parecia parado e me obriguei a uma paciente, às vezes não tão paciente assim, espera de que as energias cósmicas dessem uma trégua nos seus aparentes retrocederes e o calendário desse a volta, percebo agora  a colher a mexer e remexer as águas retidas no caldeirão mágico que guardou, aqueceu e cozinhou sementes, galhos, anseios, flores, ideias, folhas, sonhos, raízes, criações, desejos, intenções.

Olho para as primeiras flores nos campos e congratulo-me com o verde que a geada não queimou.

Olho para dentro de mim, para constatar uma vez mais que o que está fora está dentro. E, como tal, no jardim interno a natureza espelha-se e quiçá no final do arco-íris esteja um tesouro com um pote cheio de  moedas de ouro convertidas na manifestação daquilo que o caldeirão invernal cozinhou.

 

 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022


 


Verão invencível

 

Hoje caem lágrimas do céu e longe vão já os dias secos e cálidos do verão. Talvez por ter nascido no verão, essa sempre foi a estação do ano da minha eleição. Os dias estendidos, o sol na pele, a areia e a relva nos pés, os passeios, a liberdade no vestir e no calçar,  ajudavam a sentir-me mais plena, expressiva, bonita, expansiva, criativa!

Era como se fosse o tempo de todas as possibilidades. Por tudo isso, era com melancolia que via cada verão partir.

Parecia que alguma parte de mim ficava esquecida quando o outono, de mansinho, se anunciava vestindo campos, jardins, parques e calçadas de tons de dourado velho, vermelho tinto e castanho desbotado. Então, dava por mim num misto de contemplação reflexiva e melancólica do cair das ideias velhas a morrerem porque inúteis, dos sonhos que tinham perdido o tempo, dos amores que findavam por descaso, desnutrição ou desadequação, à semelhança das  folhas que se soltavam à mais leve brisa.

Infinitas vezes, dava por mim a emocionar-me com Eric Clapton no seu sublime canto “Autumn leaves”.

No momento em que escrevo, o título é o mesmo mas a voz é a de Chet Baker.

O tempo (o atmosférico e o cronos) muda, nós mudamos, eu mudei. Com um olhar mais abrangente das estações na natureza e das estações da vida, percebo que os sorrisos se sobrepõem às lágrimas, que o sol sempre encontra um jeito de espreitar atrás das nuvens mais densas, que amores podem suceder aos desamores, que os sonhos não têm época e que o inverno é o necessário período gestante de todas as glórias estivais, seja na Natureza seja na natureza humana.

E é a consciência desse verão, que vive dentro do inverno, que nos torna mais livres, mais aceitantes de nós, mais despojad@s de preconceitos e podemos, se assim nos permitirmos, ficar mais radiantes do que nunca, porque a nossa luz interior brilha mais forte com o passar do tempo.

Este verão vem do âmago do nosso ser – da nossa essência.

terça-feira, 14 de setembro de 2021



SETEMBRO A DESFOLHAR-SE


Eu gostava que não fosse assim. Eu gostava de já ter integrado todo o saber que a roda do ano encerra no seu ciclo de eterno fim e recomeço. Eu gostava de me despedir de vez da melancolia que o Setembro sempre me trouxe e que este particular Setembro reaviva em memórias de carne exposta. Eu gostava de não vibrar nesta sensação de perda quando o verão se aproxima do fim, se não no calendário, quase sempre na Natureza e na minha natureza também. Às vezes penso que terá sido por ter nascido no Verão e se não será um desejo atávico de não perder o útero, o ninho, o colo, o cuidado de alguém.

Nos anos da minha adolescência ouvi uma belíssima canção/poema ao mês de Setembro que tocou as franjas do meu ser interno e que sempre retornava a mim nos dias que ditavam o aproximar do fim de tudo que simbolizava a partida do verão. Muitas vezes cantarolei os seus versos estranha e visceralmente sentindo-os meus e sempre a arrancarem-me saudades infinitas e indefinidas que o decorrer dos anos adensaria numa perplexidade sem compreensão nem nome.

Depois houve um tempo em que me julguei imune à melancolia do Setembro e me julguei pacificada com as diferentes manifestações, ofertas e colheitas externas e internas que a roda do ano me oferecia.

Só que não.

Hoje quis de novo relembrar esse poema. E não, não veio sincronicamente ter comigo. Procurei-o. A net é boa nisto.

Setembro desfolhou-se

Numa agonia lenta

Com o seu fato de troncos

Entre os dedos do vento

Tons vermelhos dispersos

Na calma dos poentes

Eram lábios perdidos

Que sugeriam beijos

 

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

Para voltar a dar-te

Os sonhos que eram nossos

Vestida de esperança

E de alma enamorada

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

 

Setembro chegou

Vestindo flores silvestres

Com as frutas maduras

Nos braços nus agrestes

 

Por todos os caminhos

Te procurei sem ver-te

Os meus passos errantes

Na terra perfumada

Eu esperava Setembro

Para voltar a ver-te

Mas tanto procurei

Que dei por mim sozinha

 

Setembro desfolhou-se

No silêncio das tardes

Entre os dedos do vento

O meu amor desfeito

 

Percebi, talvez, o que a mágoa do Setembro representa. É simultaneamente literal e simbólico.
 É a luz a esvair-se-se nos pores do sol gradual e inexoravelmente mais temporões. 
É o recordatório da sombra dos dias. É a consciência dos mergulhos nos quartos sombrios. São as  procuras desencontradas. Os sonhos que falharam o cruzar-se com a realidade e também os que se esboroaram em caminhos mal desenhados. É uma procura de tudo o que sei mas não vi.

É o contacto com a consciência de que quiçá tenha vindo para não viver o que era suposto viver que me apanha a cada Setembro e que o rodar dos  meses que se lhe seguem acaba por diluir nas franjas de outras consciências.  

IC 14 Setembro 2021

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 




A “Peta”do Inverno neste dia primeiro de Abril   

 

 

Esquecid@s que parecemos do costume brincalhão de pregar mentirinhas no dia 1 de Abril, a meteorologia, armada em guardiã desta tradição secular, tomou o assunto entre mãos.

E hoje amanhecemos abismad@s com o esquecimento da Primavera em acordar e com o Inverno a lançar pelas emissões meteorológicas televisas e radiofónicas a ideia de que ele, Inverno, nunca tinha ido embora. Estava aqui. De volta. E queria ficar. A Primavera? Ah, a Primavera que se contentasse com o curto reinado de 11 dias que já tivera!

Mas, entretanto, pela janela, olho para as árvores engalanadas de vestidos de verde lustroso estreados há pouco, e penso que não pode ser. É uma partida. Uma peta do Inverno, armado em Orson Welles.

Só que agora já estamos habituados a fake news, a eventuais invasões de  ET´s e similares a passear entre nós, e não panicamos facilmente. Nessa altura era o ano de 1938 e não havia os Facebooks, os Instagrams ou os Whatsapps da vida para os “alertarem” de que era falsa a invasão e a Guerra dos Mundos.

Então dou comigo a ir a estas redes sociais e...nada! Nada de “alertas”! Concluo que a primavera ainda está cá.

Foi grande o embuste do Inverno, mas não passa disso mesmo.

Mais tranquila, cheiro a chuva e acho bonito vê-la cair, ora suave ora tempestuosa, a regar os jardins, a lavar as árvores e as ruas que andavam já com tanto pó! E depois reparo que o SOL está por detrás das nuvens mais negras. O malandro do Sol entrou na brincadeira e não quer desmanchar-se em gargalhadas para não descobrir a careca ao Inverno.

Pois bem também eu vou entrar nesta brincadeira. Vou fingir que acredito pois, porque sou de Fé e na Fé, sei que a Primavera É  e que amanhã o Sol amanhecerá outro dia!

E agora dou comigo a imaginar se aparecerá por aí hoje uma notícia a dizer que o ano de 2020 e este 2021 a decorrer não passaram de um pesadelo colectivo orquestrado por um mago sucessor do genial Orson Welles.

quarta-feira, 8 de abril de 2020



Em tempo de quarentena...


O SILÊNCIO DO CORAÇÃO


“Passamos muito tempo a tentar pôr em palavras o que sentimos no coração, para comunicar aos outros as nossas paixões, emoções e amor. Frequentemente, estamos tão ocupados a tentar traduzir o rugido do coração em  linguagem que perdemos a experiência mais profunda que o coração tem a oferecer, que é o silêncio. Todos os poemas nascem desse silêncio e voltam a ele. Depois das músicas  cantadas, dos solilóquios proferidos, das emoções expressas, o silêncio é o que resta. À medida que cada onda de sentimento sobe e volta ao silêncio, temos a oportunidade de nos conectar com a vasta, aberta e poderosa sabedoria de cura no centro silencioso dos nossos corações.”

Esta é uma tradução livre do excerto de um texto de Madisyn Taylor que me suscitou a seguinte reflexão:

Coração é amor. Amor é consciência. A consciência amorosa, a inteligência amorosa, mergulhamos nela no silêncio do vazio que nos preenche. Dizem os cientistas que 90% dos átomos é composto por espaço vazio. Nós, constituímo-nos em aglomerados de átomos, logo 90% de nós é vazio. É silêncio. É consciência. É amor. Só precisamos de nos sintonizar com esse campo. Só precisamos de nos dar um pouco de tempo e espaço para nos conectarmos com o sentimento de paz e completude que reside nesse campo quântico de inteligência amorosa e possibilidas infinitas.

Tem sido o silêncio dentro de mim que mais tenho observado neste tempo de reclusão induzida. E o que dele levo para o mundo pequeno da casa que me resguarda e para o mundo maior das pessoas com quem vou  interagindo, seja por via telefónica, mensagens ou em encontros em  salas virtuais.

Sim, a tecnologia também me tem servido. Para me manter em contacto com aqueles que me são queridos, para me inspirar com o conhecimento e sabedoria de pessoas várias de mente intuitivamente inteligente e coração sensível, para dar e receber aulas, para trazer a casa coisas que não não posso ir buscar lá fora e aqui se inclui música ao vivo, filmes e...até teatro!

Tenho é procurado que o seu ruído não me abafe o silêncio. Raramente tenho visitado o FB, o Instagram ainda menos e, quando o faço, são incursões cirúrgicas.
Hoje vim aqui e deixo este texto.
Deixo também a quem eventualmente o leia o desafio, se assim sentir, de respirar para o campo do coração. E, se sentir alegria ou tristeza, um aperto ou um acesso de ternura, envolva esses sentimentos e sensações com a respiração, reconhecendo-os e deixando-os diluir na inefável e imensurável consciência do ser silencioso.


sábado, 19 de outubro de 2019







Caminho no asfalto com chuva miudinha a apressar-me o passo, atravesso um pequeno jardim de plátanos e ...estas folhas mortas, sob os meus pés, sobem-me aos olhos e estancam-me a pressa.
É o Outono, a estação da queda da folha, da queda dos cabelos. Da queda, da queda, da queda...
Umas notas de piano e um tanger de guitarra assomam a memória de sons guardados na alma.
Quando o Outono vem e, assim de mansinho, se anuncia vestindo campos, jardins, parques e calçadas de tons de dourado velho, vermelho tinto e castanho desbotado dou por mim num misto de contemplação reflexiva e melancólica.
E constato como caem as folhas, como caem as ideias, sonhos/projectos, amores. Como na Natureza, assim na vida. Porque tudo em final de ciclo. As folhas já debilmente presas desprendem-se à mais leve brisa, as ideias velhas a morrerem porque inúteis, os sonhos porque perderam o tempo, os amores por descaso, desnutrição ou desadequação.
E porque a altura do ano é de adentrar, maturar e despegar tudo se torna mais sentido, às vezes mais magoado.
E hoje cairam muitas lágrimas do céu!
Chego a casa, escrevo este texto e ouço infinitas vezes o Eric Clapton no seu sublime canto “Autumn leaves”.
Entretanto o Inverno há-de chegar e a Primavera germinar...all goes round, ever and ever again!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018



UMA HISTÓRIA DE OUTONO

Lembro-me de quando as estações do ano eram muito marcadas, sendo o Outono aquele período de transição para a estação dramática do frio, das frieiras, dos gelos transformados em verdadeira arte pendurada dos beirais dos telhados em intrincadas estalactites pingantes, e do soberbo e surpreendido acordar em manhãs de brancura virginal.
Mas antes disso, o Outono trazia a cor das vindimas e os ouriços nos castanheiros abriam-se sorridentes em dádivas generosas aos sabores saudosos dos seus frutos. Isto tudo antes de as aulas começarem. Se bem lembro, as escolas abriam então as portas nos inícios de Outubro.
 Depois, o tempo pintava as árvores, os arbustos e as ervas de verde amarelado, castanho dourado e vermelho arroxeado e o campo e os jardins eram uma aguarela de artistas reunidos.
O vento chegava e ajudava as folhas no seu adeus. E, lentamente caíam e o chão era um tapete macio que em breve se humedeceria e transformaria em húmus indispensável à germinação das sementes que repousavam caídas e enterradas na terra.
E a escuridão alongava-se, o frio adensava-se e as árvores, nuas, erguiam os braços e abençoavam a nova estação que se avizinhava. E punham-se à espera. Resilientes, pacientes e confiantes no ciclo da Vida.
Esta é uma introdução a uma linda história  escrita por Janice Van Cleve e por mim traduzida e que fala desta ciclicidade que o Outono anuncia.



HISTÓRIA PARA O OUTONO

"Era uma uma pequena flor de pétalas amarelas chamada Dente de Leão. O seu nome completo era Dente de Leão 232 porque partilhava a coroa da planta mãe com 231 irmãs. Dente de Leão era muito feliz. Aquecia-se ao sol com as irmãs e deliciava-se com a sua vida confortável e fácil. A mãe alimentava-a todos os dias e trazia -lhe água para beber. Todas noites a mãe fechava as sépalas verdes, em volta das pétalas para as proteger.
Chegou um dia que trouxe um ar diferente e frio e Dente de Leão notou que os dias começavam a ficar cada vez mais curtos. Em breve sentiu que ela própria estava a mudar. A sua metade inferior tornava-se semente, enquanto que as suas brilhantes pétalas amarelas se transformavam numa haste com um pára-quedas branco no topo. Aquilo era muito estranho e ela não sabia o que significava. No entanto, ainda sentia a segurança do lar. Ainda partilhava a acolhedora coroa de flores com as suas irmãs e a mãe continuava a fechar as sépalas em torno delas à noite.
Certa noite, a mãe não fechou as sépalas. As pétalas distendidas, abriram o pára-quedas e, pela madrugada, pareciam um grande e redondo balão. Algumas delas voaram com a brisa! "Eu não te vou deixar mãe! "gritou Dente de Leão . A mãe tentou explicar à sua filhinha o que estava a acontecer. Tentou dizer-lhe que isso fazia parte do ciclo de todas as coisas. Dente de Leão não quis ouvir. Ela temia as mudanças que estavam a acontecer. No dia seguinte, o vento soprou mais forte e mais das suas irmãs esvoaçaram para longe. Aterrorizada, Dente de Leão implorou: "Por favor, mãe, não me soltes! " Segurou-se com todas as suas forças, mas sem sucesso. A planta mãe morreu, e não havia nada onde se segurar. Outra rajada e Dente de Leão foi arrancada do lar seguro que ela sempre conhecera e foi lançada ao vento.
Durante muitos dias Dente de Leão andou a ser soprada, a cair aos trambolhões a colidir com todo o tipo de obstáculos, até que finalmente o seu pára-quedas e o seu pé se romperam e partiram. Ferida e dolorida, deitou-se no chão com muito medo. "Estou perdida e sozinha ", lamentava-se ela: " ai de mim. Nada pode ficar pior. " 
Foi então que veio um pássaro.
A ave estava com fome. Viu Dente de Leão e pensou que devia ser saborosa. Antes de Dente de Leão saber o que se estava a passar, foi engolida. " Oh, não! " gritou Dente de Leão “isto é muito pior. Pelo menos no chão eu ainda podia ver a luz. Aqui está muito escuro. "Várias horas depois, a ave aligeirou a sua carga e Dente de Leão achou-se enterrada num depósito de pássaros. "Isto é o pior que pode haver", suspirou Dente de Leão. "Eu fui arrancada de minha casa, abandonada pela minha mãe, maltratada, espancada e mordida, e agora aqui estou eu, sozinha neste lugar estranho e neste monte de esterco! " Nesse momento, Dente de Leão pôs de parte tudo o que tinha conhecido e considerado querido. Resignou-se à realidade do que é e renunciou ao que desejava que fosse. Libertou-se do controle sobre a vida como a conhecia até então e permitiu que se mostrasse como viria a ser.
O tempo passou. Vários meses depois, o sol voltou para aquecer a terra novamente. O depósito dos pássaros tinha secado e estalado e decompunha-se para se tornar nutriente para o solo. Em vez de ser o pior dos destinos, tinha sido uma protecção da dureza do inverno. Dente de Leão conseguia ver a luz novamente. Então, sentiu algo a mexer dentro dela. A sua semente inchou e abriu-se. Uma longa gavinha nasceu e cresceu para debaixo dela, na sujidade. Outra estendeu -se para o ar e dela brotaram folhas. À medida que os dias aqueciam, Dente de Leão crescia mais e mais e, em breve, era uma planta forte e saudável, com uma raiz principal profunda e muitas folhas verdes exuberantes.
O verão chegou e Dente de Leão começou a sentir uma nova agitação. Acima do seu centro cresceu uma haste e nessa haste cresceu uma coroa com sépalas e pétalas muito pequenas. Ela abriu as sépalas e descobriu, para sua alegria, uma coroa de centenas de pequenas pétalas amarelas aquecendo-se ao sol. Alimentava -as todos os dias e trazia-lhes água para beber. Mantinha-as lá no alto, para que pudessem receber o máximo de sol possível. Cresceram e encheram-se de orgulho nas suas melhores roupagens de amarelo brilhante. Todas as noites Dente de Leão fechava as sépalas em torno das suas filhas num abraço protector. Era muito feliz.
Um dia, o ar ficou frio e Dente de Leão notou que os dias iam ficando mais curtos. Ela sabia o que estava para vir. Libertou a hormona especial que desencadeou a formação de sementes e de pára-quedas e alimentou as suas filhas. Continuou a protegê-las, enquanto foi capaz mas, por fim, as suas sépalas deixaram de responder. Lembrou-se de como uma vez ela deixara a casa e a mãe e tudo o que tinha amado. E agora sabia que era hora de deixar ir de novo. Recordou as últimas palavras da mãe sobre o ciclo de todas as coisas e sentiu-se preparada para a próxima viragem do ciclo.
O vento começou a soprar. Uma a uma, sentiu as suas filhas serem arrancadas da sua coroa. Ela sabia o que iriam enfrentar, mas também estava confiante no futuro e sabia que iriam renascer e tornar-se mães por direito próprio. Sabia que iriam ter as suas próprias pétalas e que o ciclo de todas as coisas se renovaria como sempre tinha sido e como sempre seria. Uma das suas filhas, no entanto, ainda estava tenazmente a segurar-se à coroa e repetia: "Eu não te deixo, mãe! Eu não te deixo."

E a mãe suspirou e disse: "Dente de Leão, deixa-me contar-te uma história. "




domingo, 8 de abril de 2018




É O TEMPO A FUGIR


Há já uns dias atrás, calhei ler um texto com diferentes atribuições de autoria. A versão que me veio parar à mão dizia-se de Mário de Andrade e abria assim:

 “Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma cesta de cerejas...
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói até o caroço.”

Ao resto do texto já não dei muita atenção, mas estas palavras tonitruaram, fizeram eco e encostaram-se a mim, ficaram a reverberar dentro e hoje, enquanto caminhava o som da água do rio, vieram de novo com mais ímpeto abrindo finos sulcos na pele.

Sem dar conta como, tanto tempo fugiu!

Olho o rio. Olho a ondulação e, uma após outra, pequenas ondinhas tecem-se na vida do rio, correm e desfalecem na margem. E, numa sucessão contínua, muitas outras vêm. Como se estivessem a correr para alguma coisa concreta, algo aonde há que chegar. E chegam. Tão demasiadamente rápido!

Pergunto-me se eu sou como estas ondas. Uma manifestação efémera, em louca corrida para um final inexorável. E lembro que um dos nomes que escolhi para mim , simboliza a beleza, o amor, a felicidade, a renovação, a esperança  e é ao mesmo tempo um recordatório da efemeridade e transitoriedade da vida e um convite a vivê-la sem medo e aproveitar intensamente cada momento.

E a frase “todos os seres humanos morrem, mas poucos vivem” acende-se em luzes de néon multicolor.
E vem um outro pensamento, este de Rumi, o poeta místico “Não fiques contente com histórias, coisas acontecidas com outros. Desdobra o teu próprio mito.”

E, no receio, de não me ter dado permissão a desdobrar todas as pregas da minha história, a dançar a minha dança, um sentir de urgência abre caminho a coisas por fazer, por viver, por conhecer, por sentir!

A um grupo de pessoas à beira da morte, pediram que refletissem sobre os maiores arrependimentos das suas vidas. Quase todos responderam que não se arrependiam pelo que tinham feito... mas pelo que deixaram de fazer. Os riscos que nunca correram. Os sonhos que nunca buscaram.

Decido que quero manter os meus sonhos vivos e que ganharei  a coragem necessária de virar páginas sempre que tal se impuser. Até porque cheguei à idade em que não preciso explicar o porquê. Quero aliar a assertividade com a gentileza e a suavidade que tantas vezes me faltam!
Decido que não vou adiar a escrita de novos capítulos sempre e quando tal estiver na minha mão. Quero ser fiel ao meu corpo, coração e espírito. Quero viver o paradoxo da serenidade apaixonada. Quero manter a mente curiosa e flexível e o coração sábio.

Não tendo porém ainda a sabedoria que o poeta revela no poema abaixo, neste ponto crucial da estrada, inevitavelmente, pergunto-me o que haverá para lá da curva.


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
 talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro



sábado, 17 de março de 2018



Pergunto ao vento

Pergunto ao vento, à chuva, às nuvens, às gaivotas, aos melros, às estrelas, às ondas, ao sol e à lua. Pergunto a tudo que rola e cai, que silva e geme, que canta ri e fala. Pergunto a tudo que flui.
Pergunto que tempo é este. Que hora é esta.

Mas eu não ouço resposta nenhuma. E neste silêncio de veludo cabe uma melancolia indefinida. Dói no peito a contracção da pele. Este tempo em que o relógio cósmico aprisiona no útero telúrico a semente da vida para a engravidar das infinitas possibilidades requer uma espera que desespera.

….e o vento respondeu

 Chegou de mansinho, riscou as águas, tocou nas penas e abrandou-me os passos para vir pousar-me na face. Depois, senhor de todos os lugares, volteou, ficou suspenso no ar

e foi dizendo…
que a primavera chegará mesmo que o seu nome fique esquecido e que já ninguém acredite nos dias do calendário
que chegará mesmo que não haja jardins para a receber
que nenhum inverno foi longo demais para morrer
que tudo precisa de um ritual de compasso de espera, de embelezamento, de gravidez do sortilégio, do feitiço
e que os rituais são necessários. Se não existissem as quintas-feiras, como poderia a raposa sentir-se livre para correr os campos e namorar os galinheiros?
que se tudo fosse sempre igual, nossos olhos desmaiariam de cansaço
e que o frio, as chuvas e o orvalho preparam o brilho e a cintilação da estação nascitura tal como o lapidador dá vida ao cascalho de carbono adormecido.

DEPOIS empurrou-me, empurrou-me. Empurrou-me e levou-me com ele, girou e rodopiou, encostou-se e não falou.

Fui eu que vi.
Uma copa folhosa muito verde e muito amarela. Uma vontade expressa de quem está para partir e de quem ainda vai ficar. Uma união perfeita e extrema.
Uma fonte e o improvável casamento semicircular de todas as cores, toda a substância e toda a essência. Efémero é claro. Mas perfeito.
O sapal, a garça na pedra, no lodo, na água. Imperturbável e segura. Branca e com graça.
A orla do parque onde as árvores repousam ainda das cores quentes da terra. Com silêncio e sabedoria.
Nada a faltar. A vida em toda a plenitude.

I.C.





domingo, 7 de janeiro de 2018






Tempo suspenso

De corpo inteiro e cabelo em flor
olhos grávidos de 
encantamentos e luar
a boca ao vento 
a sorrir sortilégios de amor
assim passeava 
o impensado deslumbramento
nos corredores  do tempo 
tecida em promessas
parecia sua a vida
em tempo suspenso

Corria o sol na alma
tinha vasos na janela
dizia alto e cantava ainda 
que desafinasse nas notas
a melodia
folhas de todas as cores 
até mesmo as mais belas
competiam com 
a sua alegria

Um dia
inusitado romper ciclónico
derrubou o riso
ceifou o sonho

E o sol não se mostrou
e o luar esqueceu-se da noite
roubadas as flores, 
o perfume, o mel 
num repente 
o deserto em frente
do nascente ao poente

A nudez horizontal
a fixar morada no vazio
da saudade e
do  fogo  frio.


I C  em Setembro 2017

segunda-feira, 30 de outubro de 2017



I AM THAT WOMAN

Seja por escolhas ou circunstâncias, às vezes  confundimo-nos e detemo-nos no caminho; algumas andamos mesmo para trás; outras ainda perdemo-nos.
Porém, com mais ou menos percalços, hesitações, paragens ou dúvidas, acabamos quase sempre por retomar o caminho, e por inimaginável que possa parecer, o ponto do recomeço não fica lá atrás. Não se evapora o que a cabeça e o coração aprenderam; a chama não destrói o que se conquistou em árduas batalhas ou suaves silêncios; a água não arrasta consigo diluindo tudo que se viveu, sentiu, alegrou, doeu; a terra não engole o labor de toda a nossa construção.Pode  acontecer é tudo isso permanecer imerso em mistérios de neblina interior e, simplesmente, ficarmos temporariamente incapazes de o contactar.

Mas mesmo que no esforço de lá chegar se faça necessário algum tactear, momento virá em que será real de novo o que um dia senti ao escrever:

I am that woman
To whom aging has taught 
To face the emptiness
And fill the void
To give light to the shadows
To boldly love life
Never giving up the fight
To pull herself together
Restarting in each defeat
Not judging herself or others
Rather owning and overcoming mistakes
To live accordingly to her own values
Never compromising her dignity
To never say yes when it is no
Being clear about boundaries
To try and see the blessings
In either bad or good
I am that woman
Who believes in an immanent force
Binding her humanity
With a divine transcendence
I am that woman
Who´s learning to honor the ancient wisdom
Who opens her heart to the newness
Who, although scared,
Ventures herself into the unknown
Who´s willing to be young in her mind
And wise in her heart
I am that woman
Who welcomes and cherishes LOVE

 IC


sexta-feira, 6 de outubro de 2017


É TEMPO DE MUDAR

O Outono que este ano em mim, começou demasiado cedo, arrancando-me, rasgando-me, desfazendo-me, no calendário, só começou  há pouco mais de duas semanas. Se considerarmos a meteorologia, então direi que ainda não começou, antes prolonga-se o estio numa insistência de dias verdes, radiantes e espantosamente quentes. As árvores já começaram , ainda que timidamente, a deixar cair parte das suas folhas e notam-se umas pinceladas de castanho amarelado nas suas ramagens como se um pintor preguiçoso se tivesse limitado a dar uma sacudidela brusca no pincel.

É no entanto visível que, apesar do calor inusitado, apesar do azul e do verde,  a natureza se começa a preparar lentamente para uma despedida. Despedida do que foi: ramagens folhosas, frutos maduros, trinados matutinos, tempo comprido, gargalhares porque sim, rubores porque também. Pelo chão uma brisa morna vai espalhando folhas que ali hão-de ficar à espera de alguma humidade que as grude à terra.

Vai-se dando lugar à morte. A morte que antecede nova vida. Daqui a nada, algum tempo até ao Inverno, os ramos, ainda  folhosos, mais não serão que esculturas nuas e suplicantes. Nessa altura, já o putrefacto das folhas e dos galhos mais miúdos e menos resistentes às inclemências do tempo fortalecerá o solo e servirá de alimento a novas germinações.

No outono, a natureza ensina a despedida, o largar do que, tendo ou não cumprido propósitos, já não serve, não cabe, não encaixa. A natureza é mestra. As árvores são sábias. Gostava de ser uma, ou pelo menos aprender a ser consistente e paciente como elas.

É tempo de mudar.

Despedir. Largar. Soltar. Libertar.

Porém, supera-se um desafio, um obstáculo mas não o que passou. Simplesmente não se pode voltar atrás e remendar o roto, remediar estragos. O que passou está para além do nosso controlo.

Como soltar? Como libertar?

Quiçá aceitando em nós, tal como a natureza, os ciclos de vida-morte-vida.
Ir para além do que já não se quer, abrir o coração e aceitar, idealmente amar, aquelas coisas que desejaríamos não tivessem acontecido. E acreditar que elas podem ser o húmus para novas sementeiras e colheitas. E, por isso, abrir ainda mais o coração e preparar o corpo e a alma para novos quereres.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017


A ausência do pio das aves  ressaltava
a cadência silenciosa do ruído que, lá fora,
morria na espuma a liquefazer-se  no agora
de uma imensa planície de brancura eslava.
A manta nos céus desdobrada
afagava nos galhos pedintes a tristeza fria
da árvore nua, quieta e desolada
que um assomo breve do astro rei pedia.
Luz intercalada.
Tão breve. Tão breve.
Eram,
São os dias do inverno.

I C

domingo, 6 de novembro de 2016



O dia morre na noite
Pássaros são arrancados às árvores
Num infanticídio obscuro
De guarda-sóis pelo ar
O escuro vence o claro numa batallha sem igual
Manchas compactas de ramos sem identidade
Buscam inocentes nuvens magoadas
E tombam em caldeirão fervente e rubro
Derretem ossos
Destilam medos

Esperam um novo acordar

domingo, 4 de outubro de 2015


Dia 4 de Outubro 2015

Fui votar. Quis ir de manhã. Quis certificar-me que nenhum percalço se interporia entre a minha vontade e o acto de cumprir este meu, em primeiro lugar, direito e o dever de quem não quer depositar o futuro em mãos alheias. Todas as assembleias de voto por onde passei tinham fila. E a minha também. Alegrei-me por isso e desejei que assim permanecesse ao longo do dia e por todo o país. Desejei que este sinal tivesse o poder de contrariar os vaticínios de profunda abstenção e as “sondagens” que mais não fizeram que bombardear e confundir cabeças.

Fiz o regresso a casa dando um passeio pelo parque. Não, não era o da imagem que ilustra este texto. Mas podia ser. A Natureza, em revolução silenciosa, a preparar-se para novos cenários. Árvores a amarelecerem a roupagem, folhas que se desprendiam em descidas bamboleantes e a formarem camadas fofas de um castanho acobreado que me atapetavam o caminho. Sentei-me um pouco a desfrutar da beleza inteligente e sensível de mais um ciclo a cumprir-se na eterna Roda do Ano. Quanta sabedoria guardada na Natureza!

Quando chega o momento, as árvores começam a despir-se, a desnudar-se, a libertar-se do que já não lhes serve. Sabem que para dar as boas-vindas ao renascer, para voltar a florir e a frutificar é preciso dar novo húmus à terra e deixar que novas sementes germinem.

A cada ciclo inteiro há uma morte e um renascimento. É assim a nossa vida também. Feita de começos, meios e fins. E, às vezes, não queremos dar fim ao que já está estiolado e seco. Mas, para que haja novos começos, é preciso largar rastros, é preciso saber deixar ir embora as cascas velhas e sem vida.

Desejei, desejo que a metáfora do parque se aplique hoje neste país que é o nosso, feito de tantas pessoas a precisarem de esperança. De segurança. De dignidade.
Desejo essa revolução silenciosa, feita nas urnas, que faça cair as folhas sem préstimo. Desejo que novas sementes germinem um potencial de esperança. E de respeito.


sábado, 13 de junho de 2015








No jardim da Deusa


Tarde adiantada no relógio das horas mas ainda criança no desejo pueril de sentir a natureza. Os pés a adivinharem caminho no meio de campos ainda de chão verde semeado de pedras, alfarrobeiras, árvores outras e arbustos vários. O ar quente mas não demasiado.

Algum caminho feito e os pés, inequivocamente, transmitiram a todo o corpo que algo tinha mudado. Uma diferença no acolhimento que a terra me fazia. A macieza do chão, acolchoado por camadas sobrepostas de folhas de várias gerações, literalmente comunicou um convite a “enterrar-me”, a deixar-me ir, a aprofundar as minhas raízes (que as tenho) nela. E foi o que fiz. Imaginei filamentos de raízes a saírem de mim, dos meus genitais, das plantas dos meus pés a adentrarem-se pelo chão, a aprofundarem-se, a percorrerem caminhos subterrâneos de terra, jazidas e lençóis de água até se unirem a algo magnético que me aguardava e segurava e nutria.

Continuei nesse caminhar íntimo de ligação e o corpo ia-se enchendo de um reconhecimento conhecido. E à minha frente, trás, esquerda e direita oliveiras e mais oliveiras. Olhava-as e reconhecia-as de um tempo tão lá para trás. Olhava-as e nelas afiguravam-se-me figuras femininas. Penteadas e desgrenhadas. Nuas e vestidas. Ásperas e macias. Seios túrgidos e seios descaídos. Expondo-se. Expondo a sua beleza, as suas feridas, as suas mutilações, a sua história, a sua vulnerabilidade. Tantos úteros maduros, tantas vulvas abertas. Tantas marcas de uma feminilidade sagrada.
Mulheres jovens, mulheres mães mas, sobretudo, velhas sábias.

Foi quando uma azinheira de porte alto e majestoso me encarou e me forçou também o olhar.
Via-a como um Ent guardião, capaz de se arrancar das suas raízes, de arrastar a sua imensidão, de revolver a terra, de sacudir os ramos e de agitar as folhas num remoinho guerreiro para proteger o que guardava.
Viro-me e, frente a ela, uma pequena e velhíssima oliveira. Humilde na estatura frágil, grandiosa no porte sábio. Símbolo da polaridade esquecida do Divino. E soube o que estava ali para ser protegido: o feminino ancestral, eterno e sagrado. A Mãe. A Grande Mãe. A Deusa.

E lembrei-me de quando, segundo a tradição, Jesus subiu o Monte das Oliveiras para meditar e orar depois da ceia em que anunciara a sua morte iminente. O local eleito para meditar foi exactamente junto dessas árvores sagradas onde procurou paz e conforto.
 E o pensamento que me veio foi que ele sabia onde encontrar o conforto e o amor da Mãe. Da Grande Mãe. Porque era o que lhe faltava naquela hora de aflição.


terça-feira, 13 de maio de 2014

SAKURA ou a magia de um nome



Recordo a criança de então e revejo o meu imaginário prender-se com cerejeiras em flor e em fruto. A flor das cerejeiras, promessas daqueles frutos belos e saborosos que eu apanhava e transformava em deleitosos colares, pulseiras, anéis e brincos usados como enfeites sensuais, femininos, já então me encantavam.
Mas seria depois, bastante depois, que a beleza rara, intemporal e perfeita da flor de cerejeira, a Sakura, me enfeitiçaria. Tanto que lhe pedi emprestado o nome.
Sakura, significa a beleza feminina e simboliza o amor, a felicidade, a renovação, a esperança. É a flor nacional do Japão, onde desde há muito, as cerejeiras são plantadas e cultivadas pela sua beleza.
O início da floração das cerejeiras marca o fim do inverno e a chegada da primavera. São aguardadas com ansiedade pelos japoneses, que organizam em todo o país diversas festividades em torno do “Hanami” (acto de contemplação das cerejeiras em flor).
Sakura é também uma metáfora da natureza efémera da vida. A sua extrema beleza e rápido desaparecimento, conferem-lhe um rico simbolismo. Desde o tempo dos samurais, guerreiros japoneses e grandes apreciadores da flor de cerejeira, que passou a estar associada à efemeridade da existência humana e ao lema dos próprios samurais: viver o presente sem medo. Assim, a flor de cerejeira está também, de alguma forma, associada ao código do samurais, o Bushido.
A sua grande lição é uma alusão à fugacidade da vida e um convite a aproveitar intensamente cada momento. Tal como a flor da cerejeira é levada pelo vento em pouco tempo, a nossa vida também passa veloz.
O fruto da cerejeira, a cereja, é considerado o maior símbolo de sensualidade, erotismo e sexualidade, principalmente pela cor vermelha intensa.






Princesa Konohana Sakuya Hime

Reza a lenda que a palavra "Sakura" vem do nome da princesa Konohana Sakuya Hime. Tal princesa teria caído do céu nas proximidades do Monte Fuji e transformou-se numa flor.
Desde há muitos séculos que o Monte Fuji está relacionado com personagens e divindades femininas.