Caminho no asfalto com chuva miudinha a apressar-me o passo,
atravesso um pequeno jardim de plátanos e ...estas folhas mortas, sob os meus
pés, sobem-me aos olhos e estancam-me a pressa.
É o Outono, a estação da queda da folha, da queda dos
cabelos. Da queda, da queda, da queda...
Umas notas de piano e um tanger de guitarra assomam a
memória de sons guardados na alma.
Quando o Outono vem e, assim de mansinho, se anuncia vestindo
campos, jardins, parques e calçadas de tons de dourado velho, vermelho tinto e
castanho desbotado dou por mim num misto de contemplação reflexiva e
melancólica.
E constato como caem as folhas, como caem as ideias, sonhos/projectos,
amores. Como na Natureza, assim na vida. Porque tudo em final de ciclo. As folhas
já debilmente presas desprendem-se à mais leve brisa, as ideias velhas a morrerem
porque inúteis, os sonhos porque perderam o tempo, os amores por descaso,
desnutrição ou desadequação.
E porque a altura do ano é de adentrar, maturar e despegar tudo
se torna mais sentido, às vezes mais magoado.
E hoje cairam muitas lágrimas do céu!
Chego a casa, escrevo este texto e ouço infinitas vezes o
Eric Clapton no seu sublime canto “Autumn leaves”.
Entretanto o Inverno há-de chegar e a Primavera germinar...all
goes round, ever and ever again!