Pergunto ao vento
Pergunto ao vento, à chuva, às nuvens, às gaivotas, aos
melros, às estrelas, às ondas, ao sol e à lua. Pergunto a tudo que rola e cai,
que silva e geme, que canta ri e fala. Pergunto a tudo que flui.
Pergunto que tempo é este. Que hora é esta.
Mas eu não ouço resposta nenhuma. E neste silêncio de veludo
cabe uma melancolia indefinida. Dói no peito a contracção da pele. Este tempo
em que o relógio cósmico aprisiona no útero telúrico a semente da vida para a
engravidar das infinitas possibilidades requer uma espera que desespera.
….e o vento
respondeu
Chegou de mansinho,
riscou as águas, tocou nas penas e abrandou-me os passos para vir pousar-me na
face. Depois, senhor de todos os lugares, volteou, ficou suspenso no ar
e foi dizendo…
que a primavera chegará mesmo que o seu nome fique esquecido
e que já ninguém acredite nos dias do calendário
que chegará mesmo que não haja jardins para a receber
que nenhum inverno foi longo demais para morrer
que tudo precisa de um ritual de compasso de espera, de
embelezamento, de gravidez do sortilégio, do feitiço
e que os rituais são necessários. Se não existissem as
quintas-feiras, como poderia a raposa sentir-se livre para correr os campos e
namorar os galinheiros?
que se tudo fosse sempre igual, nossos olhos desmaiariam de
cansaço
e que o frio, as chuvas e o orvalho preparam o brilho e a
cintilação da estação nascitura tal como o lapidador dá vida ao cascalho de
carbono adormecido.
DEPOIS empurrou-me, empurrou-me. Empurrou-me e levou-me com
ele, girou e rodopiou, encostou-se e não falou.
Fui eu que vi.
Uma copa folhosa muito verde e muito amarela. Uma vontade
expressa de quem está para partir e de quem ainda vai ficar. Uma união perfeita
e extrema.
Uma fonte e o improvável casamento semicircular de todas as
cores, toda a substância e toda a essência. Efémero é claro. Mas perfeito.
O sapal, a garça na pedra, no lodo, na água. Imperturbável e
segura. Branca e com graça.
A orla do parque onde as árvores repousam ainda das cores
quentes da terra. Com silêncio e sabedoria.
Nada a faltar. A vida em toda a plenitude.
I.C.
I.C.
