quinta-feira, 18 de outubro de 2018



UMA HISTÓRIA DE OUTONO

Lembro-me de quando as estações do ano eram muito marcadas, sendo o Outono aquele período de transição para a estação dramática do frio, das frieiras, dos gelos transformados em verdadeira arte pendurada dos beirais dos telhados em intrincadas estalactites pingantes, e do soberbo e surpreendido acordar em manhãs de brancura virginal.
Mas antes disso, o Outono trazia a cor das vindimas e os ouriços nos castanheiros abriam-se sorridentes em dádivas generosas aos sabores saudosos dos seus frutos. Isto tudo antes de as aulas começarem. Se bem lembro, as escolas abriam então as portas nos inícios de Outubro.
 Depois, o tempo pintava as árvores, os arbustos e as ervas de verde amarelado, castanho dourado e vermelho arroxeado e o campo e os jardins eram uma aguarela de artistas reunidos.
O vento chegava e ajudava as folhas no seu adeus. E, lentamente caíam e o chão era um tapete macio que em breve se humedeceria e transformaria em húmus indispensável à germinação das sementes que repousavam caídas e enterradas na terra.
E a escuridão alongava-se, o frio adensava-se e as árvores, nuas, erguiam os braços e abençoavam a nova estação que se avizinhava. E punham-se à espera. Resilientes, pacientes e confiantes no ciclo da Vida.
Esta é uma introdução a uma linda história  escrita por Janice Van Cleve e por mim traduzida e que fala desta ciclicidade que o Outono anuncia.



HISTÓRIA PARA O OUTONO

"Era uma uma pequena flor de pétalas amarelas chamada Dente de Leão. O seu nome completo era Dente de Leão 232 porque partilhava a coroa da planta mãe com 231 irmãs. Dente de Leão era muito feliz. Aquecia-se ao sol com as irmãs e deliciava-se com a sua vida confortável e fácil. A mãe alimentava-a todos os dias e trazia -lhe água para beber. Todas noites a mãe fechava as sépalas verdes, em volta das pétalas para as proteger.
Chegou um dia que trouxe um ar diferente e frio e Dente de Leão notou que os dias começavam a ficar cada vez mais curtos. Em breve sentiu que ela própria estava a mudar. A sua metade inferior tornava-se semente, enquanto que as suas brilhantes pétalas amarelas se transformavam numa haste com um pára-quedas branco no topo. Aquilo era muito estranho e ela não sabia o que significava. No entanto, ainda sentia a segurança do lar. Ainda partilhava a acolhedora coroa de flores com as suas irmãs e a mãe continuava a fechar as sépalas em torno delas à noite.
Certa noite, a mãe não fechou as sépalas. As pétalas distendidas, abriram o pára-quedas e, pela madrugada, pareciam um grande e redondo balão. Algumas delas voaram com a brisa! "Eu não te vou deixar mãe! "gritou Dente de Leão . A mãe tentou explicar à sua filhinha o que estava a acontecer. Tentou dizer-lhe que isso fazia parte do ciclo de todas as coisas. Dente de Leão não quis ouvir. Ela temia as mudanças que estavam a acontecer. No dia seguinte, o vento soprou mais forte e mais das suas irmãs esvoaçaram para longe. Aterrorizada, Dente de Leão implorou: "Por favor, mãe, não me soltes! " Segurou-se com todas as suas forças, mas sem sucesso. A planta mãe morreu, e não havia nada onde se segurar. Outra rajada e Dente de Leão foi arrancada do lar seguro que ela sempre conhecera e foi lançada ao vento.
Durante muitos dias Dente de Leão andou a ser soprada, a cair aos trambolhões a colidir com todo o tipo de obstáculos, até que finalmente o seu pára-quedas e o seu pé se romperam e partiram. Ferida e dolorida, deitou-se no chão com muito medo. "Estou perdida e sozinha ", lamentava-se ela: " ai de mim. Nada pode ficar pior. " 
Foi então que veio um pássaro.
A ave estava com fome. Viu Dente de Leão e pensou que devia ser saborosa. Antes de Dente de Leão saber o que se estava a passar, foi engolida. " Oh, não! " gritou Dente de Leão “isto é muito pior. Pelo menos no chão eu ainda podia ver a luz. Aqui está muito escuro. "Várias horas depois, a ave aligeirou a sua carga e Dente de Leão achou-se enterrada num depósito de pássaros. "Isto é o pior que pode haver", suspirou Dente de Leão. "Eu fui arrancada de minha casa, abandonada pela minha mãe, maltratada, espancada e mordida, e agora aqui estou eu, sozinha neste lugar estranho e neste monte de esterco! " Nesse momento, Dente de Leão pôs de parte tudo o que tinha conhecido e considerado querido. Resignou-se à realidade do que é e renunciou ao que desejava que fosse. Libertou-se do controle sobre a vida como a conhecia até então e permitiu que se mostrasse como viria a ser.
O tempo passou. Vários meses depois, o sol voltou para aquecer a terra novamente. O depósito dos pássaros tinha secado e estalado e decompunha-se para se tornar nutriente para o solo. Em vez de ser o pior dos destinos, tinha sido uma protecção da dureza do inverno. Dente de Leão conseguia ver a luz novamente. Então, sentiu algo a mexer dentro dela. A sua semente inchou e abriu-se. Uma longa gavinha nasceu e cresceu para debaixo dela, na sujidade. Outra estendeu -se para o ar e dela brotaram folhas. À medida que os dias aqueciam, Dente de Leão crescia mais e mais e, em breve, era uma planta forte e saudável, com uma raiz principal profunda e muitas folhas verdes exuberantes.
O verão chegou e Dente de Leão começou a sentir uma nova agitação. Acima do seu centro cresceu uma haste e nessa haste cresceu uma coroa com sépalas e pétalas muito pequenas. Ela abriu as sépalas e descobriu, para sua alegria, uma coroa de centenas de pequenas pétalas amarelas aquecendo-se ao sol. Alimentava -as todos os dias e trazia-lhes água para beber. Mantinha-as lá no alto, para que pudessem receber o máximo de sol possível. Cresceram e encheram-se de orgulho nas suas melhores roupagens de amarelo brilhante. Todas as noites Dente de Leão fechava as sépalas em torno das suas filhas num abraço protector. Era muito feliz.
Um dia, o ar ficou frio e Dente de Leão notou que os dias iam ficando mais curtos. Ela sabia o que estava para vir. Libertou a hormona especial que desencadeou a formação de sementes e de pára-quedas e alimentou as suas filhas. Continuou a protegê-las, enquanto foi capaz mas, por fim, as suas sépalas deixaram de responder. Lembrou-se de como uma vez ela deixara a casa e a mãe e tudo o que tinha amado. E agora sabia que era hora de deixar ir de novo. Recordou as últimas palavras da mãe sobre o ciclo de todas as coisas e sentiu-se preparada para a próxima viragem do ciclo.
O vento começou a soprar. Uma a uma, sentiu as suas filhas serem arrancadas da sua coroa. Ela sabia o que iriam enfrentar, mas também estava confiante no futuro e sabia que iriam renascer e tornar-se mães por direito próprio. Sabia que iriam ter as suas próprias pétalas e que o ciclo de todas as coisas se renovaria como sempre tinha sido e como sempre seria. Uma das suas filhas, no entanto, ainda estava tenazmente a segurar-se à coroa e repetia: "Eu não te deixo, mãe! Eu não te deixo."

E a mãe suspirou e disse: "Dente de Leão, deixa-me contar-te uma história. "




domingo, 8 de abril de 2018




É O TEMPO A FUGIR


Há já uns dias atrás, calhei ler um texto com diferentes atribuições de autoria. A versão que me veio parar à mão dizia-se de Mário de Andrade e abria assim:

 “Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora. Tenho muito mais passado do que futuro. Sinto-me como aquele menino que recebeu uma cesta de cerejas...
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói até o caroço.”

Ao resto do texto já não dei muita atenção, mas estas palavras tonitruaram, fizeram eco e encostaram-se a mim, ficaram a reverberar dentro e hoje, enquanto caminhava o som da água do rio, vieram de novo com mais ímpeto abrindo finos sulcos na pele.

Sem dar conta como, tanto tempo fugiu!

Olho o rio. Olho a ondulação e, uma após outra, pequenas ondinhas tecem-se na vida do rio, correm e desfalecem na margem. E, numa sucessão contínua, muitas outras vêm. Como se estivessem a correr para alguma coisa concreta, algo aonde há que chegar. E chegam. Tão demasiadamente rápido!

Pergunto-me se eu sou como estas ondas. Uma manifestação efémera, em louca corrida para um final inexorável. E lembro que um dos nomes que escolhi para mim , simboliza a beleza, o amor, a felicidade, a renovação, a esperança  e é ao mesmo tempo um recordatório da efemeridade e transitoriedade da vida e um convite a vivê-la sem medo e aproveitar intensamente cada momento.

E a frase “todos os seres humanos morrem, mas poucos vivem” acende-se em luzes de néon multicolor.
E vem um outro pensamento, este de Rumi, o poeta místico “Não fiques contente com histórias, coisas acontecidas com outros. Desdobra o teu próprio mito.”

E, no receio, de não me ter dado permissão a desdobrar todas as pregas da minha história, a dançar a minha dança, um sentir de urgência abre caminho a coisas por fazer, por viver, por conhecer, por sentir!

A um grupo de pessoas à beira da morte, pediram que refletissem sobre os maiores arrependimentos das suas vidas. Quase todos responderam que não se arrependiam pelo que tinham feito... mas pelo que deixaram de fazer. Os riscos que nunca correram. Os sonhos que nunca buscaram.

Decido que quero manter os meus sonhos vivos e que ganharei  a coragem necessária de virar páginas sempre que tal se impuser. Até porque cheguei à idade em que não preciso explicar o porquê. Quero aliar a assertividade com a gentileza e a suavidade que tantas vezes me faltam!
Decido que não vou adiar a escrita de novos capítulos sempre e quando tal estiver na minha mão. Quero ser fiel ao meu corpo, coração e espírito. Quero viver o paradoxo da serenidade apaixonada. Quero manter a mente curiosa e flexível e o coração sábio.

Não tendo porém ainda a sabedoria que o poeta revela no poema abaixo, neste ponto crucial da estrada, inevitavelmente, pergunto-me o que haverá para lá da curva.


Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
 talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma.

Alberto Caeiro



sábado, 17 de março de 2018



Pergunto ao vento

Pergunto ao vento, à chuva, às nuvens, às gaivotas, aos melros, às estrelas, às ondas, ao sol e à lua. Pergunto a tudo que rola e cai, que silva e geme, que canta ri e fala. Pergunto a tudo que flui.
Pergunto que tempo é este. Que hora é esta.

Mas eu não ouço resposta nenhuma. E neste silêncio de veludo cabe uma melancolia indefinida. Dói no peito a contracção da pele. Este tempo em que o relógio cósmico aprisiona no útero telúrico a semente da vida para a engravidar das infinitas possibilidades requer uma espera que desespera.

….e o vento respondeu

 Chegou de mansinho, riscou as águas, tocou nas penas e abrandou-me os passos para vir pousar-me na face. Depois, senhor de todos os lugares, volteou, ficou suspenso no ar

e foi dizendo…
que a primavera chegará mesmo que o seu nome fique esquecido e que já ninguém acredite nos dias do calendário
que chegará mesmo que não haja jardins para a receber
que nenhum inverno foi longo demais para morrer
que tudo precisa de um ritual de compasso de espera, de embelezamento, de gravidez do sortilégio, do feitiço
e que os rituais são necessários. Se não existissem as quintas-feiras, como poderia a raposa sentir-se livre para correr os campos e namorar os galinheiros?
que se tudo fosse sempre igual, nossos olhos desmaiariam de cansaço
e que o frio, as chuvas e o orvalho preparam o brilho e a cintilação da estação nascitura tal como o lapidador dá vida ao cascalho de carbono adormecido.

DEPOIS empurrou-me, empurrou-me. Empurrou-me e levou-me com ele, girou e rodopiou, encostou-se e não falou.

Fui eu que vi.
Uma copa folhosa muito verde e muito amarela. Uma vontade expressa de quem está para partir e de quem ainda vai ficar. Uma união perfeita e extrema.
Uma fonte e o improvável casamento semicircular de todas as cores, toda a substância e toda a essência. Efémero é claro. Mas perfeito.
O sapal, a garça na pedra, no lodo, na água. Imperturbável e segura. Branca e com graça.
A orla do parque onde as árvores repousam ainda das cores quentes da terra. Com silêncio e sabedoria.
Nada a faltar. A vida em toda a plenitude.

I.C.





domingo, 7 de janeiro de 2018






Tempo suspenso

De corpo inteiro e cabelo em flor
olhos grávidos de 
encantamentos e luar
a boca ao vento 
a sorrir sortilégios de amor
assim passeava 
o impensado deslumbramento
nos corredores  do tempo 
tecida em promessas
parecia sua a vida
em tempo suspenso

Corria o sol na alma
tinha vasos na janela
dizia alto e cantava ainda 
que desafinasse nas notas
a melodia
folhas de todas as cores 
até mesmo as mais belas
competiam com 
a sua alegria

Um dia
inusitado romper ciclónico
derrubou o riso
ceifou o sonho

E o sol não se mostrou
e o luar esqueceu-se da noite
roubadas as flores, 
o perfume, o mel 
num repente 
o deserto em frente
do nascente ao poente

A nudez horizontal
a fixar morada no vazio
da saudade e
do  fogo  frio.


I C  em Setembro 2017