UMA HISTÓRIA DE OUTONO
Lembro-me de quando as estações
do ano eram muito marcadas, sendo o Outono aquele período de transição para a
estação dramática do frio, das frieiras, dos gelos transformados em verdadeira
arte pendurada dos beirais dos telhados em intrincadas estalactites pingantes,
e do soberbo e surpreendido acordar em manhãs de brancura virginal.
Mas antes disso, o Outono trazia
a cor das vindimas e os ouriços nos castanheiros abriam-se sorridentes em
dádivas generosas aos sabores saudosos dos seus frutos. Isto tudo antes de as
aulas começarem. Se bem lembro, as escolas abriam então as portas nos inícios
de Outubro.
Depois, o tempo pintava as árvores, os
arbustos e as ervas de verde amarelado, castanho dourado e vermelho arroxeado e
o campo e os jardins eram uma aguarela de artistas reunidos.
O vento chegava e ajudava as
folhas no seu adeus. E, lentamente caíam e o chão era um tapete macio que em
breve se humedeceria e transformaria em húmus indispensável à germinação das
sementes que repousavam caídas e enterradas na terra.
E a escuridão alongava-se, o frio
adensava-se e as árvores, nuas, erguiam os braços e abençoavam a nova estação
que se avizinhava. E punham-se à espera. Resilientes, pacientes e confiantes no
ciclo da Vida.
Esta é uma introdução a uma linda
história escrita por Janice Van Cleve e por mim traduzida e que fala desta ciclicidade que o
Outono anuncia.
HISTÓRIA PARA O OUTONO
"Era uma uma pequena flor de
pétalas amarelas chamada Dente de Leão. O seu nome completo era Dente de Leão
232 porque partilhava a coroa da planta mãe com 231 irmãs. Dente de Leão era
muito feliz. Aquecia-se ao sol com as irmãs e deliciava-se com a sua vida confortável
e fácil. A mãe alimentava-a todos os dias e trazia -lhe água para beber. Todas
noites a mãe fechava as sépalas verdes, em volta das pétalas para as proteger.
Chegou um dia que trouxe um ar diferente
e frio e Dente de Leão notou que os dias começavam a ficar cada vez mais
curtos. Em breve sentiu que ela própria estava a mudar. A sua metade inferior tornava-se
semente, enquanto que as suas brilhantes pétalas amarelas se transformavam numa
haste com um pára-quedas branco no topo. Aquilo era muito estranho e ela não
sabia o que significava. No entanto, ainda sentia a segurança do lar. Ainda
partilhava a acolhedora coroa de flores com as suas irmãs e a mãe continuava a
fechar as sépalas em torno delas à noite.
Certa noite, a mãe não fechou as
sépalas. As pétalas distendidas, abriram o pára-quedas e, pela madrugada,
pareciam um grande e redondo balão. Algumas delas voaram com a brisa! "Eu
não te vou deixar mãe! "gritou Dente de Leão . A mãe tentou explicar à sua
filhinha o que estava a acontecer. Tentou dizer-lhe que isso fazia parte do
ciclo de todas as coisas. Dente de Leão não quis ouvir. Ela temia as mudanças
que estavam a acontecer. No dia seguinte, o vento soprou mais forte e mais das
suas irmãs esvoaçaram para longe. Aterrorizada, Dente de Leão implorou:
"Por favor, mãe, não me soltes! " Segurou-se com todas as suas forças,
mas sem sucesso. A planta mãe morreu, e não havia nada onde se segurar. Outra
rajada e Dente de Leão foi arrancada do lar seguro que ela sempre conhecera e
foi lançada ao vento.
Durante muitos dias Dente de Leão
andou a ser soprada, a cair aos trambolhões a colidir com todo o tipo de
obstáculos, até que finalmente o seu pára-quedas e o seu pé se romperam e
partiram. Ferida e dolorida, deitou-se no chão com muito medo. "Estou
perdida e sozinha ", lamentava-se ela: " ai de mim. Nada pode ficar
pior. "
Foi então que veio um pássaro.
A ave estava com fome. Viu Dente
de Leão e pensou que devia ser saborosa. Antes de Dente de Leão saber o que se
estava a passar, foi engolida. " Oh, não! " gritou Dente de Leão
“isto é muito pior. Pelo menos no chão eu ainda podia ver a luz. Aqui está
muito escuro. "Várias horas depois, a ave aligeirou a sua carga e Dente de
Leão achou-se enterrada num depósito de pássaros. "Isto é o pior que pode
haver", suspirou Dente de Leão. "Eu fui arrancada de minha casa,
abandonada pela minha mãe, maltratada, espancada e mordida, e agora aqui estou
eu, sozinha neste lugar estranho e neste monte de esterco! " Nesse
momento, Dente de Leão pôs de parte tudo o que tinha conhecido e considerado
querido. Resignou-se à realidade do que é e renunciou ao que desejava que fosse.
Libertou-se do controle sobre a vida como a conhecia até então e permitiu que
se mostrasse como viria a ser.
O tempo passou. Vários meses
depois, o sol voltou para aquecer a terra novamente. O depósito dos pássaros
tinha secado e estalado e decompunha-se para se tornar nutriente para o solo.
Em vez de ser o pior dos destinos, tinha sido uma protecção da dureza do
inverno. Dente de Leão conseguia ver a luz novamente. Então, sentiu algo a mexer
dentro dela. A sua semente inchou e abriu-se. Uma longa gavinha nasceu e
cresceu para debaixo dela, na sujidade. Outra estendeu -se para o ar e dela
brotaram folhas. À medida que os dias aqueciam, Dente de Leão crescia mais e
mais e, em breve, era uma planta forte e saudável, com uma raiz principal
profunda e muitas folhas verdes exuberantes.
O verão chegou e Dente de Leão começou
a sentir uma nova agitação. Acima do seu centro cresceu uma haste e nessa haste
cresceu uma coroa com sépalas e pétalas muito pequenas. Ela abriu as sépalas e
descobriu, para sua alegria, uma coroa de centenas de pequenas pétalas amarelas
aquecendo-se ao sol. Alimentava -as todos os dias e trazia-lhes água para
beber. Mantinha-as lá no alto, para que pudessem receber o máximo de sol
possível. Cresceram e encheram-se de orgulho nas suas melhores roupagens de amarelo
brilhante. Todas as noites Dente de Leão fechava as sépalas em torno das suas
filhas num abraço protector. Era muito feliz.
Um dia, o ar ficou frio e Dente
de Leão notou que os dias iam ficando mais curtos. Ela sabia o que estava para
vir. Libertou a hormona especial que desencadeou a formação de sementes e de
pára-quedas e alimentou as suas filhas. Continuou a protegê-las, enquanto foi
capaz mas, por fim, as suas sépalas deixaram de responder. Lembrou-se de como
uma vez ela deixara a casa e a mãe e tudo o que tinha amado. E agora sabia que
era hora de deixar ir de novo. Recordou as últimas palavras da mãe sobre o
ciclo de todas as coisas e sentiu-se preparada para a próxima viragem do ciclo.
O vento começou a soprar. Uma a
uma, sentiu as suas filhas serem arrancadas da sua coroa. Ela sabia o que iriam
enfrentar, mas também estava confiante no futuro e sabia que iriam renascer e
tornar-se mães por direito próprio. Sabia que iriam ter as suas próprias
pétalas e que o ciclo de todas as coisas se renovaria como sempre tinha sido e
como sempre seria. Uma das suas filhas, no entanto, ainda estava tenazmente a
segurar-se à coroa e repetia: "Eu não te deixo, mãe! Eu não te deixo."
E a mãe suspirou e disse:
"Dente de Leão, deixa-me contar-te uma história. "




