domingo, 18 de dezembro de 2011

Restless, ou a vida é muito curta para ser desperdiçada





Two of us riding nowhere
…………………………………..
We're on our way home
We're going home
……………………………………………
You and I have memories
Longer than the road that stretches out ahead




O filme começa assim com esta canção dos Beatles. Os ‘dois’ são dois adolescentes. Ele, Enoch, sobrevivente de um acidente que lhe levou os pais e o deixou a ele em coma por meses. Ela, Annabel, uma jovem com um cancro em fase terminal. Ele, um rebelde sem causa a não saber lidar com a perda e a viver uma depressão mórbida que o leva a frequentar velórios e funerais de desconhecidos. Ela, interessada em aves e insectos e admiradora de Darwin, preparada para tudo e disposta a viver com bom humor e inteligência até ao fim.
Conhecem-se num funeral. Ele como penetra. Ela como amiga do rapaz que morreu. Quase sem dar por isso, Enoch torna-se-lhe o parceiro da sua breve e última viagem e ambos vão viver uma intensa e delicada história de amor.
Morte não é tabu. Menos para ela do que para ele. Pelo caminho ele ainda cai na desesperança descontrolada,  como quando ‘ensaiam’ a morte dela numa glosa de Romeu e Julieta ou como quando quase é expulso do consultório do médico de Annabel.
Mais do que uma história sobre morrer, é uma história sobre viver. Sobre viver enquanto se pode e como se pode: com zangas, divertimento e sensibilidade. É um filme com silêncios. Silêncios não depressivos nem opressivos. Silêncios de olhares e gestos.
Simultaneamente é um filme sobre aprender a viver sem. Aprendizagem proposta a qualquer um de nós através da personagem Enoch. Nesse sentido pode-se dizer que Annabel é quem o salva porque o ensina como um mestre deve fazer: com a sua acção, com a sua atitude. Ela já sabe. Comenta a sua doença e a sua morte com desprendimento, não um desprendimento de fuga ou negação, mas antes com desapego salutar de alguém que, sem o saber, conhece o princípio e o fim.
Sabemos que ele aprendeu, quando no funeral dela vai a o microfone e o que lhe vemos não são palavras de elogio fúnebre mas um sorriso e um olhar deslumbrado. Lemos-lhe os pensamentos e vemos-lhe as imagens na cabeça de momentos com ela a amar e a rir, a fazer tudo o que os jovens fazem.

We're on our way home
We're going home

E cada um faz um regresso à sua casa.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A idade dos anos


Não sei o que foi que me lembrou dela. Mas com a lembrança veio o sentir dos tantos anos que passaram depois que a ouvi, teria eu para aí uns seis anos, responder à filha com uma comoção subitamente esperançada no olhar: já lá não vais? Ora não, não vais, acrescentava meio desconfiada do sortilégio das palavras ‘já lá não vou’. O seu desconhecimento das diferentes geografias e de que os rigores do clima se manifestavam mais cedo no continente longínquo onde o genro esperava a filha, misturado a uma patética esperança, confundiu-lhe as palavras espantadas que a sua Lídia lhe gritou numa pausa da leitura da carta que acabara de receber: ‘já lá nevou’. No meio das explicações, como se lhes entendesse o sentido mas não lhes quisesse a realidade, lembro, como se fosse hoje, os seus braços encurvados a caírem-lhe ao longo do avental preto de viúva como se à procura do conforto nos bolsos e o seu olhar outra vez conformado com a inevitabilidade da separação. Acho que ela nunca recuperou do afastamento de tantos milhares de quilómetros e nunca perdoou ao oceano, que nunca viu, não ter obrigado a filha a cumprir o que prometera. Daqui a um ou dois anos venho cá, dissera-lhe ela nas lágrimas da despedida e num abraço que a tolheu de fragilidade. Mas os anos a passarem e a vida a fazer-se lá longe, longe. Sem pontas a unir as duas vidas a não ser as ocasionais cartas que o carteiro lhe trazia. Quando vinham gordas traziam fotografias de uma casa muito diferente da dela, de meninas com vestidos de rendas e tules e laçarotes na cabeça. Mostrava-as, orgulhosa, às vizinhas e amigas: são as filhas da minha Lídia, qualquer dia vêm cá. Nos dias do estio quando dava conta de um ruído nas alturas, lá em cima no azul do céu, a desenhar estradas fininhas que se punham largas à medida que se desfaziam e diluíam no branco esfiapado das nuvens, erguia o olhar pedinte. Como a querer decifrar ou unir caminhos. À minha avó restou-lhe o filho mais velho, que esse nunca a abandonaria. E também os netos e netas, filhos e filhas dele e da nora, que a cuidava como se sua mãe fosse. Um dia acreditou que já não era necessária, julgou que não prestava, que era uma velha inútil. Foi quando a escusaram de ajuda na cozinha por ela já confundir os alhos com as cebolas e só aproveitar meia batata porque lhe tirava grossa a casca. Mas para mim ela não era uma velha. Era a avó que sorria, que me dava ternuras de rebuçados escondidos e que me chamava pelo nome próprio inteiro.
Gostava de gatos e de plantas e os gatos e as plantas gostavam dela. Na sua sala grande, entre os poucos móveis reinavam altivas colunas de madeira coroadas com vasos de viçosas begónias, espargos quase a chegar ao chão e avencas de um verde tão verde como nunca vi outro. No jardim atrás da casa eram realeza os goivos, as cravinetas, as hortenses, os crisântemos e os brincos de princesa.
Foi ela quem me ensinou a gostar de figos com pão nos lanches que fazíamos debaixo da figueira no quintal. Depois ensinou-me que as uvas das latadas eram as primeiras a pintar e a ficarem boas para comer. Incentivou-me a subir às cerejeiras. A fazer colares, pulseiras, brincos e anéis com os pés de cerejas entrelaçados de vermelho vivo, escuro ou amarelado a que nós chamávamos de branco. Também me quis ensinar que nem todas as partes do corpo são inocentes, que de algumas as meninas devem ter vergonha. Baixa o vestido, olha que nas pequenas os homens vêem as grandes, dizia-me ela quando eu, deitada no chão, fazia o pino junto a uma parede. Reproduzia o que ouviu à mãe dela ou talvez à avó, quem sabe. Confinada ao pequeno mundo de duas aldeias nunca questionou a verdade do que lhe foi dito. Tomava café fraco de cevada e, de manhã preparava-me uma tigela de leite pingado com sopas de pão. Era no tempo em que dormia na casa dela para lhe fazer companhia. Nessa altura ela ainda não precisava de ir tomar todas as refeições a casa do filho. A sua cabeça funcionava perfeita nas conexões que estabelecia e não tinha brancas na memória. Ainda não regressara ao tempo da infância. Ainda não se escapava e nos deixava aflitos. Quando isso começou a acontecer e a encontrávamos, sorria-nos, cândida, e dizia que andava à procura dos irmãos pequenos, que a mãe assim lho pedira. Nessa altura também ainda não perguntava ao filho: viu por aí o meu filho, há dias que não sei nada dele. Com voz calma de paciência sofrida eu ouvia-o responder: sou eu mãe, o seu filho. Fui, no seu tempo final, uma espécie de dama de companhia. Dava-lhe o lanche e ficava com ela na sombra da tarde não fosse ela perder-se nas lembranças dos irmãos, da casa e da terra onde se criou e viveu até casar. Essas horas eram roubadas à brincadeira e eu ressentia-me com isso. Parecia-me que estava a viver o mundo ao contrário.
Foi no Inverno. Sem os estertores a que a minha imaginação de garota associava o momento da morte, ela deixou de respirar. Só isso. Como um passarinho comentaram depois as pessoas da aldeia. Foi perdendo as forças, já sem se levantar da cama, já só a tomar alimentos líquidos que tantas vezes lhe fiz chegar à boca pelo bico de um copo. E no último dia, um dia particularmente frio de Novembro ou Dezembro, já não lembro bem, o meu pai antes de ir para o trabalho encheu duas botijas com água quente, colocou-as amorosamente na cama dela e virando-se para o meu irmão e para mim entregou-nos a sua responsabilidade: mantenham-na quente, tomem bem conta dela.
Na hora que separa a tarde da noite, vi o que não poderia ter visto. O filho dela a soluçar desamparado como fazem as crianças.
Tantos anos. E a vida aconteceu. Tantos dias de esquecimento. E hoje sinto todos os anos que passaram. Talvez pela aproximação do Natal e a forma como ela me acordava, me estendia um sorriso e me levava a espreitar os presentes que o menino me deixara junto à lareira.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A cerimónia






Não me lembro bem quando ambos decidimos que seria assim. Talvez tenha sido quando ela veio aqui parar e foi ficando até já não ser possível regressar. Regressar a nada depois de te conhecer, costumava ela dizer-me.

 Aquilo ali era quase um deserto de tanto que o calor tinha queimado a pouca vida vegetal do estio. Havia dias, por sorte poucos, em que o ar pesado e suspenso parecia não ter forças para se mexer. E o tempo parava também. O relógio segurava os ponteiros e nenhum homem, mulher, cão, gato ou bicho respirava. Momentaneamente todos entravam em estado de estivação.

Pelo canto rouco de secura do galo, adivinhei as horas. Horas de me levantar que hoje tudo tem que ser feito com tempo. O tempo que os rituais pedem. Ontem retirei do fundo escasso do poço, água suficiente para o banho de ambos. À conta disso as couves ficaram sem rega, mas também não é todos os dias que um homem se casa. E quero que ela volte a perder-se no meu corpo. Quero embriagá-la de cheiro e de saudade.

Enquanto se ensaboava com o sabonete de sândalo que ela lhe oferecera, sentiu em cada centímetro do seu corpo a longa espera pelo corpo dela. Desde que se tinham decidido pelo casamento, ela resguardara-se, mudara-se para o quarto pequeno dos fundos e negara-lhe qualquer avanço exigindo-lhe um afastamento do seu corpo que ele não compreendia. Tudo lhe dera e tudo lhe negava. Consentia-lhe apenas uns beijos fugidos. Ficaria assim mais sacralizado, justificava-se ela.

O sol derrete-se-me na pele. De tão escanhoada, parece que me rebenta de lisura. Está macia como ela gosta. Sem nenhum atrito passeará pela dela, num afago que durará a nossa eternidade.

A fogueira do sol começava a colar-lhe ao corpo a camisa de linho branco que ele acabara de vestir há pouco. Esticara-a com o ferro de brasas durante uma boa parte da manhã. Ficara um brinco, lisa e sem qualquer vinco. Pôs a gravata que o pai lhe deixara e cujo nó mantinha sempre feito pois receava não ser capaz de o refazer. Por cima, o casaco que comprara na feira, havia uns três anos, a pensar numa ocasião especial. Já vestido, uma súbita inquietação segurou-lhe a voz e desajeitou-lhe os movimentos. E num momento o dia foi a vida. E sentiu que era já um homem.

Uma mistura de sensações anunciam-ma. Consigo cheirar a suavidade com que vem, ver o sabor de que é feita e ouvir a cor com que se enfeita. Viro-me e ei-la. Em pé, como se sempre ali tivesse estado. À minha espera. Como a Terra. Ela parece, ela é o espírito deste lugar. Queimada de fogo, ostenta as curvas redondas da Terra, guarda no oceano do corpo os mistérios da lua e oferece-se numa dádiva de vapores raros. E eu numa ânsia de poder cuidá-la e fecundá-la.


Quando calcularam ser meio-dia, deram-se as mãos e, de pés descalços, mergulharam na terra barrenta e fervente e sentiram nas pernas o restolhar das ervas secas. Ainda ouviram o mugir longínquo da manada. Com o sol a pique, olharam-se e perderam-se no olhar. Era o momento de sombra zero. Uma brisa cálida festejou com eles aquela sublime união. Ambos juraram e fizeram ali o amor que sabiam, enquanto mil sóis explodiam uma trovoada de luz.

domingo, 27 de novembro de 2011

Quatro estações



A surpresa deste outono a lembrar a claridade e o afago dos dias antes dele faz-me sentar e adiar os passos do exercício. Ali, no rumorejar das agulhas dos pinheiros que a brisa leve sacode, deixo-me pensar que é como quem diz não penso. As ideias assim como surgem vão num baile desprevenido. Os momentos pequenos a tornarem-se maiores. Há nas nossas vidas instantes de minutos ou horas que são como uma vida. Que podem envelhecer-nos. Ou mostrar um caminho de sabedoria. Lembro-me de desejar ter papel e caneta à mão. Mas não, e tudo fica mais simples. Restringido ao silêncio sem registo. E ali, de olhos suavemente escancarados, tomo-me do ar, da companhia ruidosamente silenciosa dos melros e dos pardais, quietos nas copas altas, também eles naquele momento. Os carros nas ruas lá fora ressoam num mundo adiado. Como que distante. Como que longínquo. Há música nos meus ouvidos. Milagres da tecnologia.

E é um ano inteiro a acontecer.

Deitada em suspenso, o céu parece mais azul, mais envolvente. Como se me rodeasse por todo o lado. O acima e o abaixo tornam-se relativos e lembro-me ‘em cima como em baixo’.
Reparo na mansidão destes pinheiros. Redondas copas como guarda-chuvas protectores. E nas agulhas verdes de um verde tão claro e jovem lá em cima quase a tocar o infinito. Também nas de menos vigor e cor a prepararem os últimos tempos, por baixo na parte inferior da copa, para que tudo aconteça com o mínimo de esforço e com o máximo de naturalidade. Um dia caem. Porque sim e assim.
 Um pequeno grupo de pinhas, umas pardas outras de cor castanho-avermelhado, espreitam o sol numa nesga improvisada. Noto-lhes o avançado estado de amadurecimento. Lá para o ano que vem devem dar à luz. Abrir-se-ão e o primeiro acto de amor será um acto de liberdade e responsabilidade. Não há mãe como elas a dar uma asa aos filhos para se soltarem e voarem no puro instante de vida.

Os acordes, esses são cheios, intensos, a crescer e depois mais langorosos. Depois é como se o sol abrasador tudo atingisse no crepitar de um fogo criativo e criador. E a dança. A dança da colheita e da caçada enquanto o assobio do vento não chega. O anúncio da alvura pura e traiçoeira da alegria temerária do sincelo e do calor do fogo.

Mas é só uma linda manhã de sol e de afagos. Sem ter nada porque. E contudo porque. E há momentos menores que se tornam em maiores.


sexta-feira, 11 de novembro de 2011

….e o vento respondeu





Chegou de mansinho, riscou as águas, tocou nas penas e abrandou-me os passos para vir pousar-me na face. Depois, senhor de todos os lugares, volteou, ficou suspenso no ar
e foi dizendo…

que a primavera chegará mesmo que o seu nome fique esquecido e que já ninguém acredite nos dias do calendário

que chegará mesmo que não haja jardins para a receber


que nenhum inverno foi longo demais para morrer

que é preciso um ritual na natureza, um compasso de espera, de embelezamento, de gravidez do sortilégio, do feitiço

e que os rituais são necessários. Se não existissem as quintas-feiras, como poderia a sagaz   raposa sentir-se livre para correr os campos e namorar os galinheiros?

que se tudo fosse sempre igual, nossos olhos desmaiariam de cansaço

e que o frio, as chuvas e o orvalho preparavam o brilho e a cintilação da estação nascitura tal como o lapidador dá vida ao cascalho de carbono adormecido.



DEPOIS empurrou-me, empurrou-me. Empurrou-me e levou-me com ele, girou e rodopiou, encostou-se e não falou.
Fui eu que vi.

Uma copa folhosa muito verde e muito amarela. Uma vontade expressa de quem está para partir e de quem ainda vai ficar. Uma união perfeita e extrema.

Uma fonte e o improvável casamento semicircular de todas as cores, toda a substância e toda a essência. Efémero é claro. Mas perfeito.

O sapal, a garça na pedra, no lodo, na água. Imperturbável e segura. Branca e com graça.

A orla do parque onde as árvores repousam vestidas das cores quentes da terra. Com silêncio e sabedoria.

Nada a faltar. A vida a experienciar-se em toda a plenitude.




sábado, 5 de novembro de 2011

Pergunto ao vento










Pergunto ao vento, à chuva, às nuvens, às gaivotas, aos melros, às estrelas, às ondas, ao sol e à lua. Pergunto a tudo que rola e cai, que silva e geme, que canta ri e fala. Pergunto a tudo que flui.
Pergunto que tempo é este. Que hora é esta.
Que me reprime, deprime e esfola. Que me afasta. Ou será que nesse afastamento me aproximo?

Mas eu não ouço resposta nenhuma. 
E neste silêncio de veludo cabe uma melancolia indefinida. Dói no peito a contracção da pele. Este tempo em que o relógio cósmico aprisiona no útero telúrico a semente da vida para a engravidar das infinitas possibilidades, requer uma espera que me desespera.

Ah, sim, claro.
Ok.

 A vida cumpre-se em ciclos.
 O tempo gira numa roda indefinida e repetível. Sem saltos e no momento certo. E para tudo há um tempo. Germinar, nascer, viver e morrer. Esvaziar e habitar de ideias, de sentimentos e de vida. Implodir e explodir. Aprender e ensinar. Inquietar e aquietar. Contrair e expandir.

O ritmo da vida sintetiza-se neste bater cardíaco de contracção e expansão. A sístole e a diástole cósmica.

 Ah, que bom, que iluminado que é entender tudo isto. Mas tem um senão. Só entender por vezes não basta. E, nessas vezes, menos que desfrutar do processo, suporta-se o tempo que se sabe necessário para que a roda gire e mude de direcção.

Apetece-me dizer uma asneira pela previsibilidade deste sentimento lunar e inquieto que me entra no peito neste tempo do tempo. Que dificuldade estúpida em ir para o buraco dos dias curtos e escuros! Mas que culpa tenho eu de ter nascido numa noite quente de luar de Agosto, posso sempre argumentar. Mas não quero enredar-me nesse diálogo vitimizante.

E, por outro lado, posso questionar-me. Questionar este sentir de presa que não vê o predador, antes o adivinha no restolhar da folhagem, no ar que lhe corta o respirar, na aurora que tarda, no mercúrio quiçá adormecido nos sortilégios de vénus, na lua que aprisionou o sol. Na espera.

E talvez descubra que a minha mente mente.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Há dias assim



Chegam com as primeiras chuvas, os primeiros galhos despidos pelos ventos do outono.
Afligem-se com o adormecimento no ventre da terra. Com a gravidez adiada.
Ressentem-se na saudade da promessa dos frutos maduros.
Vêm com as horas a encurtarem-se na luz esmaecida dos dias.
Inquietam-se no desassossego de cada partida.
São os dias quebrados pela cintura.
Há dias assim.
De melancolia.
E doem.

domingo, 16 de outubro de 2011

Quarto rápido





(A propósito do amor e do desamor... na tentativa de sobreposição dos dois a  sensação de uma funesta perda)







o estio perdido
na frieza lenta
o movimento exuberante
e a presença ausente.
o corpo nos intervalos
da velocidade
reticente.
o quarto rápido
no frémito lacónico
de uma claridade fugaz.
o olhar vago
pousado
na nudez transitória 
do amor enclausurado.
a sombra liquefeita
no encolher da vontade
a premência  estiolada
a ir
ir, ir
a uma velocidade rápida.

sábado, 15 de outubro de 2011

O dia em que voei


Há várias formas de voar: as aves voam, o avião voa, o tempo voa, a mente voa, a memória voa. Com asas, por meios mecânicos, correndo, desligando da realidade, esquecendo.
Ao longo do dia voamos constantemente desconectando-nos do real. É o voo dos distraídos, dos passeantes da lua, dos perdidos, dos lunáticos, dos poetas.

Há, porém, raros momentos na vida em que voamos de outra maneira. Quando, por instantes, habitamos um tempo e um lugar fora do tempo e do lugar. Quando experimentamos uma epifania, quando temos um prazer supremo, quando nos transcendemos.

Tendo já experimentado o voo aeronáutico, o do tempo, o da mente o da memória e este último, faltava-me voar como os pássaros.

E foi assim que, de capacete e amarrada a um cesto-cadeira, deixei um dia o chão, levantei voo, rasei a falésia e planei sobre um manto líquido de esmeraldas a gorgolejar vagas de espuma branca aos beijos na areia molhada.

Era o meu primeiro voo. Com uma asa que afinal não era a minha. Uma asa que se desenhava curvilínea e rosa na imensidão azul com fios quase invisíveis manobrados pelas mãos experientes de um ‘voador’ sentado num nível acima do meu.

Com o ar a tocar-me a cara fingi uma condição de pássaro e o infinito foi momentaneamente meu. Depois foi o céu, o mar, o ar e eu num murmúrio uníssono. Como o todo pode ser o um, como o um pode ser o todo.
 

domingo, 25 de setembro de 2011

Passageiro indesejado



Ainda não estava nele. Tinha sido tudo tão rápido e a sua reacção tão mecanicamente obediente ao convite que lhe fora endereçado, que não tivera tempo para digerir as emoções contraditórias que experimentara perante a recusa categórica da cinquentona se sentar a seu lado.
Estava agora de pé junto da comissária de bordo cujo olhar tranquilo pousava na perturbação dele e o conduzia por entre as filas de passageiros que, de modo algo despropositado, no seu entender, não paravam de aplaudir a forma encontrada para a resolução do conflito do qual ele era involuntária personagem principal.
Um aperto espasmódico no estômago fê-lo recuar quarenta anos a um tempo e lugar julgados esquecidos. Viu-se garoto de sete anos numa rua da baixa da grande cidade. Alheio aos pedidos diários da sua mãe para que regressasse ao bairro do subúrbio onde residiam antes do toque de recolher, saboreava sentado na beira do passeio, o tépido entardecer quando, sem aviso, o ar ficou opaco, a luz desapareceu deixando apenas visível uma nesga anil tingida de rosa alaranjado. Sentiu-se cercado por uma densidade sombria como a do gigantesco arvoredo dos bosques. Ergueu os olhos para um círculo desenhado por rostos desfigurados, surdos e ameaçadores. O peso daqueles olhares louros frios e líquidos, obrigou-o a baixar o seu e a fixar-se na ameaça imediata das botas cardadas que se aproximavam perigosamente das suas pernas, abdómen, costas, pescoço, braços e cara.
À medida que se convertia numa bola negra, informe e cega, martelavam nos seus ouvidos os relatos de cenas parecidas responsáveis pela infinita amargura no peito do seu pai e pela morte do orgulho guerreiro no seu olhar. Maior que todas as dores era a incompreensão que lhe crescia na garganta pronta a transformar-se num protesto irado, quando uma voz pôs cobro ao baile dos pontapés. Era uma voz de autoridade incontestada que fustigou a crueldade dos rapazes inchados de ódio, altivez e petulância.
Nunca soube ao certo quanto tempo permaneceu no seio daquela família branca. O tempo suficiente para curar as feridas do corpo e para perceber que eram pessoas influentes e generosas. A princípio parecia-lhe apenas que se queriam desculpar por pertencerem ao grupo dominante e arrogante que dizia que os negros não eram gente e talvez quisessem redimir o ódio colectivo que minava aquele lugar. Depois percebeu neles uma vontade maior de lhe ensinar a não julgar pessoas mas as suas acções. E a não pôr tudo no mesmo saco. E a entender como os opostos moram juntos. O certo é que acabaram também por lhe sarar a alma.

Depois de uma vida cheia de reviravoltas, experimentava agora, no regresso de umas curtas férias na Europa, um déjà vu inquietante. Com as cicatrizes do ódio e da raiva desvanecidas, ou pelo menos ele assim julgava, ei-lo de novo confrontado com uma cena de racismo gratuito. A consciência do valor que já mostrara ter desvanecera-se num piscar de olhos. A perturbação, a insegurança e o rancor tomaram o seu lugar.
Sentado na confortável poltrona da cabine executiva e atendido com exageradas mordomias, como se estes também quisessem ver-se livres de culpas ancestrais, interrogava-se, perplexo, por que motivo se sentira tão perturbado com a atitude daquela mulher. Porque fora tão forte a sua indignação. Quantas gerações seriam precisas para que os genes dos escravizados, dos pisados, deixassem de carregar a informação distorcida da inferioridade?
 Mas também poderia dar-se o caso de numa vida se resolver tudo, insinuava-se uma voz firme.

Levantou-se, pegou na sua bagagem de mão e dirigiu-se novamente ao seu lugar de classe económica, aquele que ele comprara e lhe pertencia por direito.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Atalhos


Para quase tudo era preciso fazer caminho. Caminhos que os pés dos seus anos pequenos demoravam a percorrer.
E a infância tinha pressas. Pressa de chegar à escola, pressa de acudir aos doces da mercearia, de descer à água fresca do rio, de espreitar o comboio que abria fronteiras. Nenhum a fascinava tanto como o Sud Expresso. Em dias de sorte, a uns bons metros da plataforma da estação, via-o correr célere, sem paragens, investido duma dignidade arrogante de quem transporta os senhores do mundo e, ao mesmo tempo levando com ele os sonhos que desertavam daquela estação de segunda, daquele lugar perdido no mapa, daquela garota à espera de sortilégios.
Socorria-se de atalhos a sua vontade de percorrer depressa os caminhos como aqueles que chegavam à escola saltando muros  que se desmanchavam em soltas pedras a rolar o desejo de acompanhar os seus passos descuidados e saltitantes. Que a faziam atravessar campos cultivados de milho e a obrigavam a passar por debaixo de frondosos freixos de onde pendiam, de fios balouçantes, os futuros insectos ainda no seu estádio larvar de lagarta verde peluda e nojenta a forçarem-lhe malabarismos circenses para não lhes servir de trem de aterragem.
Havia porém um atalho que lhe mostrava toda a sua fraqueza. Aquele a que não se atrevia sozinha. O atalho da ribeira.
Quando a gulodice reclamava mimos e uns dinheiritos tiniam nos bolsos dos bibes, num pequeno grupo de três ou quatro,  lá ia a corta-mato para a mercearia a uns dois quilómetros de proximidade. Tal como quando queria espreitar o comboio.
Dobrava um carreiro de paredes meias com a brancura do cemitério, sempre a correr e sem olhar para trás não fosse algum fantasma tomar como dele a sua vontade de existir e reduzi-la a uma mera aparição espectral. Perigos já para trás, mais à frente, esperava-a a ribeira, pequeno curso de água que lhe arrancava um fascínio tão grande só comparável ao que, mais tarde, viria  a sentir quando pela vez primeira deu de olhos no oceano. Num convite a uma terapêutica massagem nas bolhas dos seus pés andarilhos, estendia-lhe um tapete de limos e seixos, por onde ela deslizava num aprumo a desafiar a verticalidade. A sombra dos amieiros, o alegre correr na água sempre fria, as brincadeiras de perseguição aos girinos e as tentativas baldadas de apanhar peixinhos distraíam-na e faziam o desejo das guloseimas ficar esquecido. Descalça, de vestido levantado e bem seguro nas mãos, não fosse ele molhar-se e revelar os sítios por onde tinha andado, chapinhava o sabor da liberdade. Perdida na tarde media as lonjuras  pelas horas do sino da torre da igreja.
O regresso era sempre antes de o sol se pôr.
Cândida na sua dissimulação de quem não infringira as regras impostas pela mãe ou pela irmã mais velha, dava os primeiros passos na arte de fingir para agradar. Dentro dela uma voz desconhecida segredava-lhe: eu sou verdadeira e tu zangas-te; tu zangas-te e não me aceitas; tu não me aceitas e sinto-me só e desamparada. Eu invento tu acreditas; tu acreditas e aprovas-me; tu aprovas-me e gostas de mim; tu gostas de mim e  isso faz-me feliz. Sem se aperceber mergulhava no desejo secular e subterrâneo que a humanidade tem de ser amada.
 E os caminhos que já percorria para esconder dos outros o que eles não queriam ver, em breve se tornaram atalhos para esconder  de si quem afinal era.
Um atalho, um esconderijo. Um esconderijo, um segredo. Um segredo, um engano propositado. Um engano propositado, uma falsidade. Uma falsidade, uma patranha. Uma patranha, uma ilusão. Uma ilusão, uma máscara. Uma máscara, uma persona. Múltiplas personas num labirinto de atalhos insondáveis.

Foi cedo, afinal, que começou a encenar os múltiplos actores que mais não eram que ela própria, fragmentada, sem o saber.


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Encontro com a sombra Kafkiana


É por pouco tempo, consolava-se ele enquanto, na sala exígua da entrada, um guarda de estatura baixa, pele morena e bigode hirsuto, lhe retirava identidade e roupa na intenção óbvia de o reduzir à descaracterização de um número que, doravante, dizia ele, o introduziria no seio daquela comunidade.
Os seus passos inquietos de curiosidade, que só uma ingenuidade inominável justificava, iam-no levando por corredores de luz amarela e baça. Não fora o ferro presente em tudo (escadas, portas, trancas e grades) e o guarda de pistola e cassetete e, por momentos, ele teria esquecido o local onde estava e o que estava lá a fazer.
Chegou. Soube-o pelo silêncio dos passos que o precediam. Uma porta pequena cravada noutra de dimensão maior, forçou-lhe a entrada numa ínfima cela de lajes de pedra cinzenta e nua. Lá dentro, um catre com um colchão enrolado e roupa de cama mal dobrada. Ao lado, o que parecia um lavatório coberto com uma toalha que já fora todas as cores. Um estalido seco na porta fez-lhe saber que os passos do guarda iriam replicar o caminho de há pouco. O vazio ocupou-lhe a cabeça e acabou a demorar-se-lhe no peito. Nem guardas, nem companheiros de cela. Só ele e as paredes geladas que o oprimiam. Teve medo que um mecanismo sinistro as movesse numa aproximação inexorável de si. E se o tocavam? E se o esmagavam? E se o sufocavam? E se, afinal, não fosse por pouco tempo?
 O que antes dele ali estivera tinha deixado uma marca pesada e densa. Delitos cometidos  estavam ali inscritos, não com sangue ou tintas mas em partículas voláteis e subtis que os seus olhos não viam mas a alma aflita aprisionava. Contudo, ele sabia que não tinha cometido nenhum crime e essa ideia, por instantes, sossegou-o. Em breve iriam  perceber o erro da sua presença e então sairia dali.
O pouco ar agitou-se numa leve brisa que o sacudia e arranhava. Olhou para cima para as finas fasquias de vidro que, emolduradas por grades, deixavam filtrar uma luz parda e pintavam montanhas deitadas numa nuvem branca envolta por raios de ouro intenso e purpúreo de um sol que lentamente se afundava.
E de novo o olhar caiu nas paredes. Nuas, húmidas, repelentes e opressivas. Deitou-se no catre e percebeu, com uma certeza absoluta, que não havia nem nunca houvera qualquer outra pessoa naquele lugar. Ele era o seu único habitante. Era toda a humanidade. Numa eternidade fria.
Este pensamento golpeou-o no mais fundo de si. Em choque, viu na sua frente um holograma que era a sua cara cheia de dois olhos imensos que o fitavam implacáveis. Viu também uma nebulosa de forma ovoide, o que conhecia de mais parecido era um casulo de borboleta, a espreitá-lo, implorativa, de dentro do seu peito. Seria o que chamam de alma? Ou seria ele próprio, aquela parte de si que às vezes o importunava e da qual tratava logo de se livrar empurrando-a para um buraco tão fundo, que se esquecia que esse lugar existia? Fosse o que fosse não falava mas estava a comunicar consigo de forma fluida. Não, não eram os ouvidos que com zelo cumpriam a sua função. Era todo o seu corpo que reconhecia e traduzia aquela comunicação esquisita. Ao mesmo tempo, projectavam-se na tela branca que a parede improvisava, morticínios colectivos, homicídios, espancamentos, escárnios, violações, actos de corrupção, traição e abandono. Enganos, mentiras, cobardias. Desprezo e arrogância. Humilhações extremas, escravizantes.
Por detrás, em marca de água, a sua cara que um espanto imenso liquefazia e derramava em pétalas transparentes de lágrimas, até se fundir na sua, aquela que emoldurava a sua cabeça, a real, não aquela inventada num delírio esquizofrénico prestes a ter fim.
Soluçava contorcendo-se numa dor incomensurável. Não acreditava que ele fosse aquilo. Não acreditava que ele fosse o representante único daquela des – humanidade.
Foi então quando na parede foram nascendo florestas, livros, casas, crianças a brincar, música, campos a serem semeados, pessoas a trabalhar em equipa, a divertirem-se, a revelarem-se sem receio nem restrições, a serem fortes, a confiarem, a aceitarem-se e a amarem-se.
E a voz dentro do seu corpo a acalmá-lo. Há quanto tempo eu te quis mostrar isto. Não precisavas de ter chegado a tanto se te tivesses olhado a tempo. Mas tu não me davas olhos nem ouvidos. Afastavas-me até não me sentires e negavas numa cova funda os  horrores que perpetravas às escondidas de todos mas sobretudo de ti. Às claras  mostravas a tua querida bondade que, não se reconhecendo na incompletude a que a reduzias, te tramava em actos falhados que tu não compreendias. Até tanto aprontares que tiveste que vir a ti. Aqui. Na maior e mais dolorosa viagem que alguma vez fizeste. E também na mais deliciosa, mas isso só se tu quiseres.
Foi-te dado o privilégio de te veres por inteiro. Não, não é isso que estás a pensar. Não és anjo ou demónio. Na tua potencialidade pura és tudo: céu e inferno; ingenuidade e astúcia; lealdade e aleivosia; verdade e fingimento; fortaleza e fraqueza; sabedoria e ignorância; inteligência e estupidez; calma e impaciência; autenticidade e falsidade; rectidão e injustiça; humildade e arrogância; meiguice e frieza; paz e conflito; carência e abundância; saúde e doença; criação e destruição. E tudo te é útil. Escolhe a cada momento, aprende a gostar de tudo o que já é teu e a manifestar o amor que fores ganhando por ti. Esse será o alvor da tua humanidade.

Era já madrugada. O sol espreitava livremente pela janela aberta do quarto e vinha de mansinho aquecer-lhe os pés que uma manta descuidada descobrira durante a noite.