É por pouco tempo, consolava-se ele enquanto, na sala exígua da entrada, um guarda de estatura baixa, pele morena e bigode hirsuto, lhe retirava identidade e roupa na intenção óbvia de o reduzir à descaracterização de um número que, doravante, dizia ele, o introduziria no seio daquela comunidade.
Os seus passos inquietos de curiosidade, que só uma ingenuidade inominável justificava, iam-no levando por corredores de luz amarela e baça. Não fora o ferro presente em tudo (escadas, portas, trancas e grades) e o guarda de pistola e cassetete e, por momentos, ele teria esquecido o local onde estava e o que estava lá a fazer.
Chegou. Soube-o pelo silêncio dos passos que o precediam. Uma porta pequena cravada noutra de dimensão maior, forçou-lhe a entrada numa ínfima cela de lajes de pedra cinzenta e nua. Lá dentro, um catre com um colchão enrolado e roupa de cama mal dobrada. Ao lado, o que parecia um lavatório coberto com uma toalha que já fora todas as cores. Um estalido seco na porta fez-lhe saber que os passos do guarda iriam replicar o caminho de há pouco. O vazio ocupou-lhe a cabeça e acabou a demorar-se-lhe no peito. Nem guardas, nem companheiros de cela. Só ele e as paredes geladas que o oprimiam. Teve medo que um mecanismo sinistro as movesse numa aproximação inexorável de si. E se o tocavam? E se o esmagavam? E se o sufocavam? E se, afinal, não fosse por pouco tempo?
O que antes dele ali estivera tinha deixado uma marca pesada e densa. Delitos cometidos estavam ali inscritos, não com sangue ou tintas mas em partículas voláteis e subtis que os seus olhos não viam mas a alma aflita aprisionava. Contudo, ele sabia que não tinha cometido nenhum crime e essa ideia, por instantes, sossegou-o. Em breve iriam perceber o erro da sua presença e então sairia dali.
O pouco ar agitou-se numa leve brisa que o sacudia e arranhava. Olhou para cima para as finas fasquias de vidro que, emolduradas por grades, deixavam filtrar uma luz parda e pintavam montanhas deitadas numa nuvem branca envolta por raios de ouro intenso e purpúreo de um sol que lentamente se afundava.
E de novo o olhar caiu nas paredes. Nuas, húmidas, repelentes e opressivas. Deitou-se no catre e percebeu, com uma certeza absoluta, que não havia nem nunca houvera qualquer outra pessoa naquele lugar. Ele era o seu único habitante. Era toda a humanidade. Numa eternidade fria.
Este pensamento golpeou-o no mais fundo de si. Em choque, viu na sua frente um holograma que era a sua cara cheia de dois olhos imensos que o fitavam implacáveis. Viu também uma nebulosa de forma ovoide, o que conhecia de mais parecido era um casulo de borboleta, a espreitá-lo, implorativa, de dentro do seu peito. Seria o que chamam de alma? Ou seria ele próprio, aquela parte de si que às vezes o importunava e da qual tratava logo de se livrar empurrando-a para um buraco tão fundo, que se esquecia que esse lugar existia? Fosse o que fosse não falava mas estava a comunicar consigo de forma fluida. Não, não eram os ouvidos que com zelo cumpriam a sua função. Era todo o seu corpo que reconhecia e traduzia aquela comunicação esquisita. Ao mesmo tempo, projectavam-se na tela branca que a parede improvisava, morticínios colectivos, homicídios, espancamentos, escárnios, violações, actos de corrupção, traição e abandono. Enganos, mentiras, cobardias. Desprezo e arrogância. Humilhações extremas, escravizantes.
Por detrás, em marca de água, a sua cara que um espanto imenso liquefazia e derramava em pétalas transparentes de lágrimas, até se fundir na sua, aquela que emoldurava a sua cabeça, a real, não aquela inventada num delírio esquizofrénico prestes a ter fim.
Soluçava contorcendo-se numa dor incomensurável. Não acreditava que ele fosse aquilo. Não acreditava que ele fosse o representante único daquela des – humanidade.
Foi então quando na parede foram nascendo florestas, livros, casas, crianças a brincar, música, campos a serem semeados, pessoas a trabalhar em equipa, a divertirem-se, a revelarem-se sem receio nem restrições, a serem fortes, a confiarem, a aceitarem-se e a amarem-se.
E a voz dentro do seu corpo a acalmá-lo. Há quanto tempo eu te quis mostrar isto. Não precisavas de ter chegado a tanto se te tivesses olhado a tempo. Mas tu não me davas olhos nem ouvidos. Afastavas-me até não me sentires e negavas numa cova funda os horrores que perpetravas às escondidas de todos mas sobretudo de ti. Às claras mostravas a tua querida bondade que, não se reconhecendo na incompletude a que a reduzias, te tramava em actos falhados que tu não compreendias. Até tanto aprontares que tiveste que vir a ti. Aqui. Na maior e mais dolorosa viagem que alguma vez fizeste. E também na mais deliciosa, mas isso só se tu quiseres.
Foi-te dado o privilégio de te veres por inteiro. Não, não é isso que estás a pensar. Não és anjo ou demónio. Na tua potencialidade pura és tudo: céu e inferno; ingenuidade e astúcia; lealdade e aleivosia; verdade e fingimento; fortaleza e fraqueza; sabedoria e ignorância; inteligência e estupidez; calma e impaciência; autenticidade e falsidade; rectidão e injustiça; humildade e arrogância; meiguice e frieza; paz e conflito; carência e abundância; saúde e doença; criação e destruição. E tudo te é útil. Escolhe a cada momento, aprende a gostar de tudo o que já é teu e a manifestar o amor que fores ganhando por ti. Esse será o alvor da tua humanidade.
Era já madrugada. O sol espreitava livremente pela janela aberta do quarto e vinha de mansinho aquecer-lhe os pés que uma manta descuidada descobrira durante a noite.