quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O que não queres ser não te deixa ser



  O universo,  pelo menos na forma como o percepcionamos, é um universo de polaridades. Os opostos estão sempre presentes: branco e preto; calor e frio; húmido e seco; luminoso e escuro. Quando um está activo o outro encontra-se passivo. No entanto, não entendemos o  branco se não conhecermos o preto, não sentimos o calor se não soubermos o que é o frio, só sabemos que está húmido porque também experienciamos o seco, só reconhecemos o luminoso por oposição ao escuro. Ou seja, uma coisa não existe sem a outra. Porque queremos então, neste universo dicotómico, olhar só para metade da laranja? Porque queremos ser só bonzinhos? Porque nos envergonhamos de partes de nós?
Vem isto a propósito da reflexão que o filme “Black Swan” me suscitou. Aquilo que nos envergonha, o que calcamos, escondemos e negamos um dia toma conta de nós.
Na simbologia da oposição cisne branco e  cisne preto,  curiosamente almas gémeas aprisionadas,  desenvolve-se a trama do filme.
À dedicada e rigorosa bailarina, obediente filha e virginal donzela Nina, sobram os atributos que necessita para encarnar e expressar a fragilidade, a sensibilidade, a inocência, a graça, a delicadeza e a vulnerabilidade do cisne branco. Mas Nina, se quiser ser prima ballerina, terá que mostrar outros atributos pertences do cisne negro e que parecem ausentes da sua aparente perfeição.
Sob o medo de ser preterida, Nina começa a enfrentar-se, a ter vislumbres erráticos e fugazes de si transformada numa outra face fatal e dominadora,  a perceber que dentro de si vive uma outra que mais não é que ela própria aprisionada nas qualidades violenta e ingenuamente reprimidas por uma mãe castradora e controladora.
E é na explosão vulcânica da sensualidade sufocada, na crueldade metaforicamente real, na aleivosia, no confronto arrojado com a sua face obscura, oculta no outro lado do espelho, que Nina resgatará o seu lado selvagem, sedutor, dominador e violento.
E é na junção dos dois opostos que acaba por ser perfeita. Como se tivesse alcançado a paz quando abraçou a sua totalidade.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

A carta que S. Valentim poderia ter escrito...





Minha  amada Asterias,

Há-de um dia alguém, num tempo que ainda não existe, dizer que todas as cartas de amor são ridículas. Mas logo a seguir retratar-se-á  afirmando que afinal só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.
Não quererei eu, por certo, ficar no rol dos ridículos que nunca escreveram cartas de amor. Eu, que violei decretos imperiais e que, em sigilo, celebrei a união de tantos apaixonados. Eu, que pago com  a vida essa desobediência civil, escrevo-te esta carta de amor, a única  que alguma vez escrevi.
 Fevereiro chegou há treze dias e com ele a Primavera, o tempo da purificação. Não deixa de ser irónica a data escolhida para a minha decapitação: 14 de Fevereiro, dia da deusa Juno, a deusa do casamento. Seria o dia que nós teríamos escolhido para nos unirmos e assim consagrarmos a alegria suprema deste imenso amor que, mesmo sem intenção dirigida e em circunstâncias tão nefastas, germinou e se fez indestrutível.
Esmaga-me o peso da saudade que toma já conta de mim. Amanhã, logo após o sol nascer e antes de o algoz me vendar o olhar, procurarei a tua cabeça, que me prometeste enfeitar com uma grinalda branca, fixarei os teus olhos e a luz reflectida na densidade das lágrimas que neles verei guiar-me-á no caminho da eternidade.
Nesta noite que não tem fim, dou passos ininterruptos na solidão escura deste catre na esperança vã de com eles anular a distância que nos separa, mas cada passada regressa triste e desconsolada como a de um amante rejeitado. Porém, sei que quem me rejeita não és tu, meu amor desolado, mas este destino cruel que não me deu escolha. Tenho esperança que Claudius um dia compreenda o alcance da minha desobediência, nem que seja na noite mais obscura da sua consciência e que o entendimento, de tão claro, lhe cegue a vontade de prosseguir guerras e conquistas à custa da proibição do sentimento mais sublime.
 Encontro o meu consolo na leitura dos teus bilhetes apaixonados e na certeza do teu afecto. Tu já não és só a mulher a quem dei o meu coração. És a amante do meu corpo e da minha alma e, num grito de exultação suprema, consagro-te a minha fidelidade eterna.
Despeço-me da vida e de ti.

O teu, sempre teu
Valentim

                                                                              Roma, XIV Februarius CCVXIX

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Muito me tarda a Primavera


......
E a poesia só espera ver
Nascer a primavera
Para não morrer
                                      Vinicius de Moraes

Foi assim comigo há mais ou menos um ano, quando nasceu o texto que abaixo se publica. Foi ainda assim há dois, três anos atrás. E é hoje da mesma maneira.

Tarda-me a Primavera nos meus olhos aguados de vento.
Tarda-me o sol nas pregas engelhadas da rota alma.
Tarda-me o riso dos pardais nos braços desamparados.
Tardam-me os dias quentes, soltos, saídos de dentro deste tempo esquecido do tempo.
Tarda-me a exultação de outro vir, de outra vez ser.
Tudo em mim grita uma urgência de sentir a vida a emergir do âmago da vida.
Seguro os olhos nas árvores que tentam em vão velar a sua nudez envergonhada com ténues tules de uma cor ainda sem cor.
Os meus olhos teimam mergulhar nos segredos que fermentam o novo renascer. Detêm-se e observam no limite próximo da orla do parque uma fileira  de galhos juvenis semeados de pontos brancos, pequeninos miosótis, pendurados, mal aconchegados num incipiente leito de vermelho ocre a prometer uma folhagem quente e atrevida, a querer quebrar o longo letargo  frio em que tudo, mas tudo, se retrai, encolhe, implode para existir na mera potencialidade do porvir.
Segreda-me a razão que o ciclo se há-de cumprir. E cumprir-se-á. Com o tempo dos segundos transformado em tempo de minutos, horas, dias, semanas talvez.
Ocorre-me que toda uma vida humana se pode resumir ao ciclo de um ano da vida de uma frágil semente.
Faço o exercício e sumario a vida a esse tempo único:
Febril o primeiro trimestre a brotar das gretas da terra, a deixar-se engavinhar, a crescer, a soltar-se, a subir, subir, subir...a segurar o mundo na mão, a proclamar e a olhar com sobranceria inocente o mundo.
Ávido o segundo trimestre a engalanar-se  de cores berrantes,  a ufanar nos raios doirados da glória, a engravidar o conhecimento,  a dar vida, a fazer-se criador. A dominar e a ser dominado, a vencer ou a ficar para sempre vencido.
Prenhe o terceiro trimestre a colher o que, mesmo sem saber, semeou. A observar, a escutar, a integrar e a aceitar. A curar feridas e a ir para lá das dores. (ou não...)
Raso o quarto trimestre: primeira hipótese, a ficar imbecil; segunda hipótese a tocar os limiares da sabedoria e a adivinhar a eternidade das coisas.

E é na antecipação do eterno repetido que o mito primavera me persegue.  
 Ou será um medo insidioso de que o ciclo natural se subverta e com ele a desesperança da minha reinvenção?


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Os filhos do vento


A propósito do último post ou de como o amor pode vencer o medo


Verão passado, Alentejo, eco-aldeia de Tamera.

Naquele princípio de tarde de quarta-feira, com um propósito mal definido rodeei o  lago grande, engoli nuvens de pó que alguns raros  veículos deixavam atrás de si, desafiei  a verticalidade no tórrido pino solar, enveredei por um caminho branco e solitário ao som de uns passos que só podiam ser os meus e cheguei ao local do estábulo e do campo aberto dos cavalos.
Sempre tive, desde que me lembro, pavor da proximidade dos cavalos e nunca consegui montar nenhum daqueles que a infância me proporcionou. Talvez me intimidasse a realeza que estampavam no olhar. Talvez me amedrontasse a luxuriante opulência que quatro cascos sustinham num mexer irrequieto e constante.Talvez receasse um coice traiçoeiro, uma pisadela inadvertida, uma fustigadela de cauda certeira. O certo é que me furtei sempre ao seu contacto e, já em adulta, materializei esse medo num momento de terror paralisante.
Corria, também nesse dia, a tarde. Era o meio de uma tarde de sol de fim de inverno. Num picadeiro, uma montada cansada de um volteio monótono e forçado, tombava a cabeça até ao chão, sacudia o que poderia ser um insecto, dobrava as canelas e ameaçava rebolar-se e derrubar-me a mim, estreante cavaleira de pouca coragem. Com os olhos esbugalhados de espanto, antevi a cena dantesca de me sentir soterrada debaixo da barriga redonda do quadrúpede que, na ânsia de se libertar do que o incomodava, dava voltas e reviravoltas acompanhadas de pequenos relinchos. Com a cabeça a ordenar uma fuga providencial e o corpo a não obedecer, a ficar paralisado e sem reacção, fui-me imaginando debaixo do hercúleo animal, magoada, esmagada. Quis correr, quis fugir, mas as pernas não obedeciam. Num instinto último de sobrevivência, a custo rastejei a salvação possível até aos limites do picadeiro, no meio a escoriações e joelhos  sangrantes.
E agora, ali, em campo aberto, no meio de onze cavalos à solta que, curiosos, ameaçavam invadir o meu espaço, a minha intimidade, aproximando-se mais e mais, perigosamente. Uns maiores que outros, todos de musculatura forte e andar largo. Dorsos sem sela, livres e poderosos. Fios longos e sedosos de crinas bailarinas. Senti outra vez aquele mal-estar a enrodilhar-me o estômago perante tamanho assomo de força e vitalidade. Em pânico com essa aproximação invasiva, numa auto-acusação pueril, perguntei-me em voz alta porque é que estava ali, verbalizando o meu medo e afirmando a vontade de sair dali imediatamente.
Almut, a responsável pelos cavalos em Tamera, olhou-me nos olhos e disse-me na sua voz germânica seca que eu estava ali precisamente por causa do meu medo. Que desse uma oportunidade ao medo de começar a ir embora e que tivesse confiança. Foi a palavra confiança que me salvou. Fiz dela o meu mantra numas inspirações fundas e forcei-me a coragem de ficar.
Quando consegui um sossego aparente, os filhos do vento  vieram até mim. Uma égua avançou decidida e, mesmo à minha frente, ali ficou numa quietude de nobreza de sangue. Eu quase mal respirava. Era tarde para voltar atrás. Outro cavalo tomou o seu tempo para encostar o focinho à minha cabeça e ombros. Coçou-se na minha anca e costas e mascou na minha pele como se carinhos me desse. E no meu corpo iniciou-se então um processo químico. O receio, o soluto que me habitara por inteiro, foi-se diluindo numa solução saturada do solvente portado pelos perissodáctilos. Deixei-me embalar naquele contacto demorado, gentil e soberano. Lembrei-me de Robert Redford e do filme O encantador de cavalos e pensei que poderia não ser pura ficção.