terça-feira, 21 de janeiro de 2014


ESCRAVATURA, REALIDADE PASSADA OU ACTUAL?

Como é que ver um filme sobre escravatura me faz retornar a este espaço onde fui publicando, durante algum tempo, pequenos textos ficcionados ou de reflexões pessoais?

Escravatura no séc. XIX no período pré-guerra da secessão dos EUA, é, à primeira vista, caso arrumado pertencente ao passado. Mesmo que assim fosse, não o sendo, este filme é motivo para uma comoção tão funda que nos faz sair da sala sem vontade de quebrar exteriormente o silêncio interior que em nós se foi instalando ao longo de cenas de violência desmedida, nunca gratuita, atentatórias da dignidade mínima a que qualquer ser vivente, humano ou não, tem direito.

Não me espanta tanto que alguém, no filme protagonizado por um fraco macho digno representante do patriarcado, aparentemente temente a Deus, se escude em textos religiosos para justificar direitos de posse inalienáveis e subsequentes actos de sujeição inominável. Mas arrepia-me. Revolve-me as entranhas.

Não me espanta que, fora da ficção, essa mesma religião patriarcal, nas suas altas instâncias hierárquicas, não condenasse essa abjecta visão de propriedade sobre alguém e com ela conspirasse no silêncio que guardou. Não me espanta mas indignam-me esses seus representantes seculares, que não acham dignas as mulheres de desempenhar tão ‘supremos’ cargos mas que se curvam aos poderes temporais esquecendo os valores que trouxe Aquele que dizem servir.

Não me espanta que a mulher do senhor fazendeiro, nascida e criada para ser ’esposa’ fosse ela também algoz autoritário, sobretudo da ‘outra’ que lhe ameaçava as atenções do execrável, mas ainda assim marido. Mas entristece-me presenciar tamanha raiva surda de mulher para mulher.

Houve momentos em que fechei os olhos. Uma parte de mim não aguentava ver a outra parte: a daquela des-humanidade fria, cruel e desapiedada sem grão de amor ou compaixão. Ou o sofrimento calado, a humilhação engolida, a violação suportada por uma sobrevivência que só faz sentido se houver um clarão, por ténue que seja, de esperança.

O filme, baseado na história verídica de um negro livre que foi enganado, raptado e feito escravo em plantações do sul, por 12 anos, até conseguir reaver a sua liberdade, relata contudo uma história inscrita no passado. No século XIX.
E agora estamos a viver no século XXI, penso eu, pensaremos nós. Historicamente a escravatura acabou. Legalmente é proibida. Institucionalmente é condenada. Socialmente é mal vista. A escravatura já não existe.

Não existe?
Então e que dizer das mulheres e crianças que são feitas escravas sexuais, umas raptadas outras levados ao engano para prostíbulos onde são mantidas em condições humilhantes e degradantes? Que dizer desse tráfico lucrativo, que as mantém subjugadas e sem hipótese de saírem desse jugo?

Que dizer das mulheres que, todos os dias, por esse mundo fora, são martirizadas ou morrem às mãos de companheiros, namorados e maridos possessivos e violentos? Que se acham tão donos delas que isso lhes outorga o direito de lhes cobrar a vida.

Que dizer da condição de mulheres que por razões de cultura e religião, são consideradas e tratadas como seres inferiores, que nem direito a receber o sol e o vento na cara têm?

Que dizer das raparigas e mulheres, que grupos combinados de homens estupram sem dó nem piedade?

Que dizer d@s estagiári@s que trabalham meses a fio, a troco de fazer currículo e na esperança de uma futura colocação, em empresas que nada lhes pagam, que ao fim de algum tempo lhes dão um pontapé na bunda e recrutam outras ‘levadas’ para com elas fazerem o mesmo?

Que dizer dos que trabalham cada vez mais horas a troco de cada vez menores salários e que calam e calam para não perderem a ´sorte’ de continuar a levar aqueles trocados para casa que lhes permitem sobre-sub-viver?

Que dizer dos que aguardam dias, meses, anos a fio à porta dos centros de emprego?

Que dizer do que ontem li: que há 85 pessoas no mundo que detêm 46% da riqueza mundial?