ESCRAVATURA, REALIDADE PASSADA OU
ACTUAL?
Como é que ver um filme sobre
escravatura me faz retornar a este espaço onde fui publicando, durante algum
tempo, pequenos textos ficcionados ou de reflexões pessoais?
Escravatura no séc. XIX no
período pré-guerra da secessão dos EUA, é, à primeira vista, caso arrumado
pertencente ao passado. Mesmo que assim fosse, não o sendo, este filme é motivo
para uma comoção tão funda que nos faz sair da sala sem vontade de quebrar
exteriormente o silêncio interior que em nós se foi instalando ao longo de
cenas de violência desmedida, nunca gratuita, atentatórias da dignidade mínima a
que qualquer ser vivente, humano ou não, tem direito.
Não me espanta tanto que alguém, no
filme protagonizado por um fraco macho digno representante do patriarcado, aparentemente
temente a Deus, se escude em textos religiosos para justificar direitos de
posse inalienáveis e subsequentes actos de sujeição inominável. Mas arrepia-me.
Revolve-me as entranhas.
Não me espanta que, fora da
ficção, essa mesma religião patriarcal, nas suas altas instâncias hierárquicas,
não condenasse essa abjecta visão de propriedade sobre alguém e com ela conspirasse
no silêncio que guardou. Não me espanta mas indignam-me esses seus representantes
seculares, que não acham dignas as mulheres de desempenhar tão ‘supremos’
cargos mas que se curvam aos poderes temporais esquecendo os valores que trouxe
Aquele que dizem servir.
Não me espanta que a mulher do
senhor fazendeiro, nascida e criada para ser ’esposa’ fosse ela também algoz
autoritário, sobretudo da ‘outra’ que lhe ameaçava as atenções do execrável,
mas ainda assim marido. Mas entristece-me presenciar tamanha raiva surda de
mulher para mulher.
Houve momentos em que fechei os
olhos. Uma parte de mim não aguentava ver a outra parte: a daquela
des-humanidade fria, cruel e desapiedada sem grão de amor ou compaixão. Ou o
sofrimento calado, a humilhação engolida, a violação suportada por uma
sobrevivência que só faz sentido se houver um clarão, por ténue que seja, de
esperança.
O filme, baseado na história
verídica de um negro livre que foi enganado, raptado e feito escravo em plantações
do sul, por 12 anos, até conseguir reaver a sua liberdade, relata contudo uma
história inscrita no passado. No século XIX.
E agora estamos a viver no século
XXI, penso eu, pensaremos nós. Historicamente a escravatura acabou. Legalmente é
proibida. Institucionalmente é condenada. Socialmente é mal vista. A
escravatura já não existe.
Não existe?
Então e que dizer das mulheres e
crianças que são feitas escravas sexuais, umas raptadas outras levados ao engano
para prostíbulos onde são mantidas em condições humilhantes e degradantes? Que
dizer desse tráfico lucrativo, que as mantém subjugadas e sem hipótese de
saírem desse jugo?
Que dizer das mulheres que, todos
os dias, por esse mundo fora, são martirizadas ou morrem às mãos de companheiros,
namorados e maridos possessivos e violentos? Que se acham tão donos delas que
isso lhes outorga o direito de lhes cobrar a vida.
Que dizer da condição de mulheres
que por razões de cultura e religião, são consideradas e tratadas como seres
inferiores, que nem direito a receber o sol e o vento na cara têm?
Que dizer das raparigas e
mulheres, que grupos combinados de homens estupram sem dó nem piedade?
Que dizer d@s estagiári@s que
trabalham meses a fio, a troco de fazer currículo e na esperança de uma futura
colocação, em empresas que nada lhes pagam, que ao fim de algum tempo lhes dão
um pontapé na bunda e recrutam outras ‘levadas’ para com elas fazerem o mesmo?
Que dizer dos que trabalham cada
vez mais horas a troco de cada vez menores salários e que calam e calam para
não perderem a ´sorte’ de continuar a levar aqueles trocados para casa que lhes
permitem sobre-sub-viver?
Que dizer dos que aguardam dias,
meses, anos a fio à porta dos centros de emprego?
Que dizer do que ontem li: que há
85 pessoas no mundo que detêm 46% da riqueza mundial?
