terça-feira, 13 de maio de 2014

SAKURA ou a magia de um nome



Recordo a criança de então e revejo o meu imaginário prender-se com cerejeiras em flor e em fruto. A flor das cerejeiras, promessas daqueles frutos belos e saborosos que eu apanhava e transformava em deleitosos colares, pulseiras, anéis e brincos usados como enfeites sensuais, femininos, já então me encantavam.
Mas seria depois, bastante depois, que a beleza rara, intemporal e perfeita da flor de cerejeira, a Sakura, me enfeitiçaria. Tanto que lhe pedi emprestado o nome.
Sakura, significa a beleza feminina e simboliza o amor, a felicidade, a renovação, a esperança. É a flor nacional do Japão, onde desde há muito, as cerejeiras são plantadas e cultivadas pela sua beleza.
O início da floração das cerejeiras marca o fim do inverno e a chegada da primavera. São aguardadas com ansiedade pelos japoneses, que organizam em todo o país diversas festividades em torno do “Hanami” (acto de contemplação das cerejeiras em flor).
Sakura é também uma metáfora da natureza efémera da vida. A sua extrema beleza e rápido desaparecimento, conferem-lhe um rico simbolismo. Desde o tempo dos samurais, guerreiros japoneses e grandes apreciadores da flor de cerejeira, que passou a estar associada à efemeridade da existência humana e ao lema dos próprios samurais: viver o presente sem medo. Assim, a flor de cerejeira está também, de alguma forma, associada ao código do samurais, o Bushido.
A sua grande lição é uma alusão à fugacidade da vida e um convite a aproveitar intensamente cada momento. Tal como a flor da cerejeira é levada pelo vento em pouco tempo, a nossa vida também passa veloz.
O fruto da cerejeira, a cereja, é considerado o maior símbolo de sensualidade, erotismo e sexualidade, principalmente pela cor vermelha intensa.






Princesa Konohana Sakuya Hime

Reza a lenda que a palavra "Sakura" vem do nome da princesa Konohana Sakuya Hime. Tal princesa teria caído do céu nas proximidades do Monte Fuji e transformou-se numa flor.
Desde há muitos séculos que o Monte Fuji está relacionado com personagens e divindades femininas.  

















terça-feira, 22 de abril de 2014

Sobressalta-me
Um rumor de espuma no ar
Talvez seja a manhã
A querer voar
A procurar no céu
Um sonho que ainda vive

Talvez seja nada
Talvez seja só um olhar
Ou o meu corpo a acordar
Numa dança com o teu
Com o sol a assomar

Dá-me mar, dá-me rio
Dá-me um barco sem fio
E peixes verdes no olhar
Dá-me palavras espessas de segredos
Dá-me flores abertas nos meus dedos

Mas se a tarde fechar
E se o corpo esquecer
Os caminhos do teu
E se o frio na noite descer
E o desejo encolher

Dá-me mar, dá-me rio
Dá-me palavras sem tino
De lava a escorrer
De mares a congelar
Dá-me flores de jasmim
E jardins de luar

É preciso ousar.

É o preço de amar.
As coisas que mais necessitamos são as coisas de que temos mais medo como a intimidade e a comunicação autêntica. É comum ficarmos desconfortáveis com a intimidade e com a conexão. Até mesmo com a intimidade connosco própri@s. Acanhamo-nos de nos explorar e sentir no corpo e na psique. No entanto, a intimidade e a comunhão/conexão estão entre as nossas maiores necessidades não atendidas. Ser realmente vist@ e ouvid@, ser verdadeiramente conhecid@ e reconhecid@, é uma necessidade profundamente humana. A nossa fome disso é tão grande, que procuramos consolo e amparo nos substitutos que temos à mão como a televisão, comida, compras, pornografia, consumismo - qualquer coisa para aliviar a dor e para nos fazer sentir, ainda que aparentemente, conectad@s. Intimidade não tem só uma conotação sexual. É muito mais que isso, inclui todas as diferentes dimensões da nossa vida – sim, inclui o físico, mas também o emocional, o mental e o espiritual. Intimidade significa realmente compartilhar e, o que comumente fazemos nas nossas interacções, é evitarmos os olhos nos olhos e atermo-nos a temas que não gerem desconforto e que não revelem as nossas fragilidades. Temos medo da proximidade. Temos medo de amar porque quanto mais próximo se chega de alguém, maior é o risco de haver dor. É o medo da dor que sempre nos impede de encontrar a intimidade verdadeira connosco e com @s outr@s. A grande maioria das pessoas já se magoou num relacionamento. A questão é: como lidar com essa mágoa? Ao construirmos uma muralha em volta de nós para nos protegermos de que alguém tente entrar e nos magoar, essa mesma muralha que mantém as pessoas afastadas, mantém-nos trancad@s dentro.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

A PRIMAVERA CHEGOU

A Primavera chegou. Ela sempre chega. Chega para nos lembrar a ciclicidade da vida: na natureza e em nós. Chega para nos lembrar o incómodo, a dor e a paciência que à semente se fez necessária lá no fundo, bem no âmago da terra. A semente que para poder germinar, para poder libertar o seu real poder, aguentou firme a escuridão e o peso da terra num abraço silencioso e húmido até sentir a sua casca dura estalar e o embrião, guardado dentro, irromper e começar a subir até emergir do solo em busca de luz e oxigénio para viver. Lembra-nos também o nosso tempo de espera inquieta na escuridão a cada dia mais longa das noites da nossa psique. Num treino de paciência, entrega e confiança. E de esperança. Nós que nos atrevemos a descer ao submundo, a mexer o caldeirão, onde colocámos o que precisava ser abandonado para ser transformado. Nós que acompanhámos a morte da natureza, que respeitámos o seu silêncio com o nosso, nós que buscámos a regeneração do corpo e da alma. A Primavera chegou. Não tinha porque ser diferente. Nos parques e nas ruas as árvores parecem jovens púberes a tapar a sua nudez invernal com vestidos ainda de rendas transparentes e esburacadas. E é linda a inocência com que desfilam essa vontade de se porem belas, de florirem e frutificarem de novo. Sabendo que o Outono lhes roubará a realeza da sua cor dourada, que as flores e os frutos as abandonarão, que as suas folhas cairão e que irão servir de húmus num eterno ciclo de morte e renascimento. Espanto-me com a sabedoria das árvores. Com a sua presença testemunhal de ciclos, estações, vidas. Assim, simplesmente sendo. No dia, hora, minuto e segundo. Sem passado nem futuro. Apenas o presente. Sem expectativas. Hoje sentei-me no parque a olhá-las e a contemplá-las. E lá estavam elas. Olhos que as viram na primavera passada, uns antecipando, outros não, a sua data de validade, já não as vêem nesta glória recuperada. Mas ali estavam altivas e soberanas. Sábias, amorosas. E uma vez mais pensei que é a vida que se experiencia em nós e não o contrário.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014


ESCRAVATURA, REALIDADE PASSADA OU ACTUAL?

Como é que ver um filme sobre escravatura me faz retornar a este espaço onde fui publicando, durante algum tempo, pequenos textos ficcionados ou de reflexões pessoais?

Escravatura no séc. XIX no período pré-guerra da secessão dos EUA, é, à primeira vista, caso arrumado pertencente ao passado. Mesmo que assim fosse, não o sendo, este filme é motivo para uma comoção tão funda que nos faz sair da sala sem vontade de quebrar exteriormente o silêncio interior que em nós se foi instalando ao longo de cenas de violência desmedida, nunca gratuita, atentatórias da dignidade mínima a que qualquer ser vivente, humano ou não, tem direito.

Não me espanta tanto que alguém, no filme protagonizado por um fraco macho digno representante do patriarcado, aparentemente temente a Deus, se escude em textos religiosos para justificar direitos de posse inalienáveis e subsequentes actos de sujeição inominável. Mas arrepia-me. Revolve-me as entranhas.

Não me espanta que, fora da ficção, essa mesma religião patriarcal, nas suas altas instâncias hierárquicas, não condenasse essa abjecta visão de propriedade sobre alguém e com ela conspirasse no silêncio que guardou. Não me espanta mas indignam-me esses seus representantes seculares, que não acham dignas as mulheres de desempenhar tão ‘supremos’ cargos mas que se curvam aos poderes temporais esquecendo os valores que trouxe Aquele que dizem servir.

Não me espanta que a mulher do senhor fazendeiro, nascida e criada para ser ’esposa’ fosse ela também algoz autoritário, sobretudo da ‘outra’ que lhe ameaçava as atenções do execrável, mas ainda assim marido. Mas entristece-me presenciar tamanha raiva surda de mulher para mulher.

Houve momentos em que fechei os olhos. Uma parte de mim não aguentava ver a outra parte: a daquela des-humanidade fria, cruel e desapiedada sem grão de amor ou compaixão. Ou o sofrimento calado, a humilhação engolida, a violação suportada por uma sobrevivência que só faz sentido se houver um clarão, por ténue que seja, de esperança.

O filme, baseado na história verídica de um negro livre que foi enganado, raptado e feito escravo em plantações do sul, por 12 anos, até conseguir reaver a sua liberdade, relata contudo uma história inscrita no passado. No século XIX.
E agora estamos a viver no século XXI, penso eu, pensaremos nós. Historicamente a escravatura acabou. Legalmente é proibida. Institucionalmente é condenada. Socialmente é mal vista. A escravatura já não existe.

Não existe?
Então e que dizer das mulheres e crianças que são feitas escravas sexuais, umas raptadas outras levados ao engano para prostíbulos onde são mantidas em condições humilhantes e degradantes? Que dizer desse tráfico lucrativo, que as mantém subjugadas e sem hipótese de saírem desse jugo?

Que dizer das mulheres que, todos os dias, por esse mundo fora, são martirizadas ou morrem às mãos de companheiros, namorados e maridos possessivos e violentos? Que se acham tão donos delas que isso lhes outorga o direito de lhes cobrar a vida.

Que dizer da condição de mulheres que por razões de cultura e religião, são consideradas e tratadas como seres inferiores, que nem direito a receber o sol e o vento na cara têm?

Que dizer das raparigas e mulheres, que grupos combinados de homens estupram sem dó nem piedade?

Que dizer d@s estagiári@s que trabalham meses a fio, a troco de fazer currículo e na esperança de uma futura colocação, em empresas que nada lhes pagam, que ao fim de algum tempo lhes dão um pontapé na bunda e recrutam outras ‘levadas’ para com elas fazerem o mesmo?

Que dizer dos que trabalham cada vez mais horas a troco de cada vez menores salários e que calam e calam para não perderem a ´sorte’ de continuar a levar aqueles trocados para casa que lhes permitem sobre-sub-viver?

Que dizer dos que aguardam dias, meses, anos a fio à porta dos centros de emprego?

Que dizer do que ontem li: que há 85 pessoas no mundo que detêm 46% da riqueza mundial?