quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Encontro com a sombra Kafkiana


É por pouco tempo, consolava-se ele enquanto, na sala exígua da entrada, um guarda de estatura baixa, pele morena e bigode hirsuto, lhe retirava identidade e roupa na intenção óbvia de o reduzir à descaracterização de um número que, doravante, dizia ele, o introduziria no seio daquela comunidade.
Os seus passos inquietos de curiosidade, que só uma ingenuidade inominável justificava, iam-no levando por corredores de luz amarela e baça. Não fora o ferro presente em tudo (escadas, portas, trancas e grades) e o guarda de pistola e cassetete e, por momentos, ele teria esquecido o local onde estava e o que estava lá a fazer.
Chegou. Soube-o pelo silêncio dos passos que o precediam. Uma porta pequena cravada noutra de dimensão maior, forçou-lhe a entrada numa ínfima cela de lajes de pedra cinzenta e nua. Lá dentro, um catre com um colchão enrolado e roupa de cama mal dobrada. Ao lado, o que parecia um lavatório coberto com uma toalha que já fora todas as cores. Um estalido seco na porta fez-lhe saber que os passos do guarda iriam replicar o caminho de há pouco. O vazio ocupou-lhe a cabeça e acabou a demorar-se-lhe no peito. Nem guardas, nem companheiros de cela. Só ele e as paredes geladas que o oprimiam. Teve medo que um mecanismo sinistro as movesse numa aproximação inexorável de si. E se o tocavam? E se o esmagavam? E se o sufocavam? E se, afinal, não fosse por pouco tempo?
 O que antes dele ali estivera tinha deixado uma marca pesada e densa. Delitos cometidos  estavam ali inscritos, não com sangue ou tintas mas em partículas voláteis e subtis que os seus olhos não viam mas a alma aflita aprisionava. Contudo, ele sabia que não tinha cometido nenhum crime e essa ideia, por instantes, sossegou-o. Em breve iriam  perceber o erro da sua presença e então sairia dali.
O pouco ar agitou-se numa leve brisa que o sacudia e arranhava. Olhou para cima para as finas fasquias de vidro que, emolduradas por grades, deixavam filtrar uma luz parda e pintavam montanhas deitadas numa nuvem branca envolta por raios de ouro intenso e purpúreo de um sol que lentamente se afundava.
E de novo o olhar caiu nas paredes. Nuas, húmidas, repelentes e opressivas. Deitou-se no catre e percebeu, com uma certeza absoluta, que não havia nem nunca houvera qualquer outra pessoa naquele lugar. Ele era o seu único habitante. Era toda a humanidade. Numa eternidade fria.
Este pensamento golpeou-o no mais fundo de si. Em choque, viu na sua frente um holograma que era a sua cara cheia de dois olhos imensos que o fitavam implacáveis. Viu também uma nebulosa de forma ovoide, o que conhecia de mais parecido era um casulo de borboleta, a espreitá-lo, implorativa, de dentro do seu peito. Seria o que chamam de alma? Ou seria ele próprio, aquela parte de si que às vezes o importunava e da qual tratava logo de se livrar empurrando-a para um buraco tão fundo, que se esquecia que esse lugar existia? Fosse o que fosse não falava mas estava a comunicar consigo de forma fluida. Não, não eram os ouvidos que com zelo cumpriam a sua função. Era todo o seu corpo que reconhecia e traduzia aquela comunicação esquisita. Ao mesmo tempo, projectavam-se na tela branca que a parede improvisava, morticínios colectivos, homicídios, espancamentos, escárnios, violações, actos de corrupção, traição e abandono. Enganos, mentiras, cobardias. Desprezo e arrogância. Humilhações extremas, escravizantes.
Por detrás, em marca de água, a sua cara que um espanto imenso liquefazia e derramava em pétalas transparentes de lágrimas, até se fundir na sua, aquela que emoldurava a sua cabeça, a real, não aquela inventada num delírio esquizofrénico prestes a ter fim.
Soluçava contorcendo-se numa dor incomensurável. Não acreditava que ele fosse aquilo. Não acreditava que ele fosse o representante único daquela des – humanidade.
Foi então quando na parede foram nascendo florestas, livros, casas, crianças a brincar, música, campos a serem semeados, pessoas a trabalhar em equipa, a divertirem-se, a revelarem-se sem receio nem restrições, a serem fortes, a confiarem, a aceitarem-se e a amarem-se.
E a voz dentro do seu corpo a acalmá-lo. Há quanto tempo eu te quis mostrar isto. Não precisavas de ter chegado a tanto se te tivesses olhado a tempo. Mas tu não me davas olhos nem ouvidos. Afastavas-me até não me sentires e negavas numa cova funda os  horrores que perpetravas às escondidas de todos mas sobretudo de ti. Às claras  mostravas a tua querida bondade que, não se reconhecendo na incompletude a que a reduzias, te tramava em actos falhados que tu não compreendias. Até tanto aprontares que tiveste que vir a ti. Aqui. Na maior e mais dolorosa viagem que alguma vez fizeste. E também na mais deliciosa, mas isso só se tu quiseres.
Foi-te dado o privilégio de te veres por inteiro. Não, não é isso que estás a pensar. Não és anjo ou demónio. Na tua potencialidade pura és tudo: céu e inferno; ingenuidade e astúcia; lealdade e aleivosia; verdade e fingimento; fortaleza e fraqueza; sabedoria e ignorância; inteligência e estupidez; calma e impaciência; autenticidade e falsidade; rectidão e injustiça; humildade e arrogância; meiguice e frieza; paz e conflito; carência e abundância; saúde e doença; criação e destruição. E tudo te é útil. Escolhe a cada momento, aprende a gostar de tudo o que já é teu e a manifestar o amor que fores ganhando por ti. Esse será o alvor da tua humanidade.

Era já madrugada. O sol espreitava livremente pela janela aberta do quarto e vinha de mansinho aquecer-lhe os pés que uma manta descuidada descobrira durante a noite.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

A menina e a janela


Subia-se lá acima por uma escadaria de madeira. Apoiada num corrimão sólido e inabalável, oferecia uma segurança convidativa a galgar os seus dois lances que somavam quinze escadas e que lá em cima se abriam para a intimidade de dois quartos.
No da direita, uma sacada protegia-se por uma balaustrada em ferro forjado que na primavera e verão se vestia de brincos de princesa, raiados de branco e de tonalidades várias de encarnado desde o carmesim ao magenta, do escarlate ao vermelhão. Porém, a proximidade dos limites impostos pelas casas do lado contrário da rua apequenava o horizonte da varandinha romântica e ocultavam-na do olhar de príncipes em corcel branco em demanda de princesas adormecidas.
Talvez por isso a menina dormia no quarto da esquerda.
Neste, uma janela pequena. Nesta janela nascia um longe sem fim. Um longe indecifrável. Intangível como o sonho.
O sonho e o seu mundo.
O seu mundo corporizado em campos onde se erguiam altivos os freixos, os amieiros, as macieiras e uma ou outra cerejeira, onde ela se enfeitava com colares, pulseiras e brincos. Um mundo que se enchia da música primeva das cigarras, ralas, cucos, melros e rolas. Um mundo perfumado pelos goivos, cravinetas, rosas e crisântemos.

O mundo noutros povoados, noutras casas, noutras janelas. Dentro dos olhos de outras meninas.

Parecia-lhe um livro a janela, em duas partes dividida.
Com a cautela de quem se aventura nos mistérios empurrava a metade inferior que, ao sobrepor-se à sua parte gémea, rasgava um buraco na intimidade do quarto e do mundo. Para lá das paredes. Para lá dos limites. Como nos livros.
Debruçada no parapeito dava-se ao sonho.
E construía histórias de si e de outros meninos e meninas. Quiméricas histórias onde só as pessoas-fadas livres, ricas, bondosas e belas, ajudadas por duendes solícitos e puros seres angélicos davam ordens, ditavam regras e reinavam. Livre de criar os dias caiu  na  armadilha de ignorar que as pessoas-bruxas são parentes próximas das pessoas-fadas e tão íntimas que sabem invadir o seu interior. E que à mínima lhes pregam uma rasteira quando se sentem desaprovadas ou desprezadas.
Quis ser só menina-fada no parapeito daquela janela. E foi assim que começou a pôr fronteiras na dicotomia sonho e realidade e a criar as suas múltiplas personalidades que se revelavam à vez.
Gostava de mostrar ao mundo a sua face feérica e encapotava os embustes, as intimidações, as desobediências, as mentiras e as acções vergonhosas da faceta de bruxa que já morava em si.  Lá bem fundo, acorrentada num poço que nem sabia.

Quando a menina deixou de o ser , incapaz já de ver só o céu, abandonou-se a si e à janela. 

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

A escada e a menina



A escada tem alturas de montanha. Os seus degraus acolhem e apressam os passos de quem  vai ajudar a nascer a menina.
De lá de cima, é a escada que lhe ensina as flores, o pátio das brincadeiras e que lhe mostra, ao longe, os campos lavrados, as searas de centeio semeadas de frondosos castanheiros e os pinhais.
A escada é a morada do faz-de-conta, palácio e cabana onde levedam sonhos, germinam aventuras e brotam estrelas. Tecida em quartzo, feldspato e mica, tem recantos de aconchego do sono das bonecas da menina e, num dia mal calculado, a menina-mamã, entretida no sobe-que-sobe, desce-que-desce, brinca-que-brinca, salta as alturas e o quinto degrau da escada, de aresta inocentemente afiada, rasga-lhe a língua e ensina-lhe a dor quente e doce do seu sangue. Grande é o sofrer da escada que se tinge de escarlate e não se quer perdoar.
No tórrido das suas lajes nas tardes de verões continentais, em que nem o ar sabe como respirar, ficam mais reais as quiméricas aventuras de corsários e sandokans que a menina, quinzenalmente, aluga na biblioteca itinerante.
Já o morno do seu assento, nas noites estivais, é testemunha das primeiras descobertas míticas: românticos luares de Agosto que tingem de luz branca a insondável noite, permitindo penetrar os seus mistérios e acreditar no para lá do possível; desejos endereçados às estrelas cadentes que, ocasionalmente, ousam riscar e desfigurar o céu estrelado num desafio à composição matemática das Ursas, Cassiopeia, Orion e Leão...
Nessa noites a escada tinha ouvidos para confissões e segredos. Mordia-se de riso, às vezes, da ingenuidade da menina. Marejavam-se-lhe os olhos, outras, quando percebia o quanto ela tinha crescido e o saber que em breve a deixaria.
Com o passar do tempo, foi escurecendo e ficando mais sozinha, velha, amarga, rota e gasta.
Primeiro os rigores do clima, depois o abandono, depois a negligência dos pés que se seguiram transformaram os seus degraus esculpidos no amor em banais pedras de granito remendadas de cimento.

Envergonhada da sua vulgaridade, mordeu os lábios e deixou cair duas lágrimas na tarde em que fingiu não sentir a presença da sua menina que, numa breve passagem pelo local, pediu licença para revisitar os seus sonhos de criança.
           
           

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Bater com o nariz na porta ( a pensar na mãe)


Há um pouco mais de dois anos escrevi este texto:

Bater com o nariz na porta ( a pensar na mãe)

A tua porta, as nossas portas só mais tarde se abririam.
No tempo de todas as possibilidades, sem o saberes, foste fechando a tua e cedeste o teu lugar no meu espaço e no meu tempo a outras portas: que eu, curiosa, abri e transcorri.
A tua porta abria-se numa direcção oposta à minha: a dos dias sempre ocupados, a do trabalho,  a da construção das horas.
 Fechava-se para a minha sede de pássaro e para a minha desconstrução do tempo.
 E condenaste-me a ser cigarra.


De uma forma menos metafórica, é certo, necessito agora, recém-chegada de uma semana de mergulho ao inconsciente, de fazer  a desmontagem desta história que me contei.
Hoje percebo que só fecha portas quem está adormecido.
Que fui sempre eu quem se fechou para ti e, com consequências mais nefastas, para mim. Não me disseste, porque não o sabias, que a preguiçosa não era eu mas sim as minhas acções. E eu, inocente, tomei o todo pela parte.
Não percebi que, quando me encantei com a beleza do canto descomprometido da cigarra e condenei a labutadora formiga que a não compreendia e rechaçava, me limitava e amputava. Dividi em duas a que era só uma: a que luta pelo pão e bem-estar e a que desfruta de ambos. Desembaracei-me da primeira logo a seguir a uma primária nos píncaros dos elogios e, quando todos esperavam uma aluna com brilhantes notas no liceu, trapaceei-os a eles e a mim e a mediania  venceu. Desiludi expectativas sem me importar nem ver que era ´eu´ a quem desiludia.
Ocasionalmente, as duas metades digladiavam-se. Nessa disputa, ora vencia uma ora a outra. Mas em cada vitória morava a culpa, desconhecedora de que era a consciência da amputação que a gerava.
 Já de canudo na mão, de olhos vendados num jogo de cabra-cega, fui orquestrando tramas e aconteceres para provar, na minha vida,  que a coexistência de ambas era mais que improvável. Tinha que ser impossível. Se manifestava  a formiga, a curto /médio prazo o insucesso acabava por injustificá-la. Se manifestava a  cigarra as depreciações anulavam-na.
Ok, mãe. Eu fui a cigarra que tu não te permitiste ser. E tu a formiga que eu não queria reconhecer. Olhávamo-nos no mesmo espelho mas não nos víamos. Passávamos por nós próprias e não nos reconhecíamos. Era eu a ser tu, tu a seres eu. 
Incompletas. 
Por isso as portas fechadas. 
Que só entreabrimos lá mais para o fim do teu tempo quando já não eras capaz de ser formiga e eu fingia não ser cigarra.
Ironicamente, nesse jogo de metades, nem tive consciência que, quando eles eram pequenos, era a formiga que eu procurava mostrar aos meus filhos. E para eles não queria a cigarra.
Ainda vou a tempo de resgatar ambas. Sem culpas e em paz.