Verão invencível
Hoje
caem lágrimas do céu e longe vão já os dias secos e cálidos do verão. Talvez
por ter nascido no verão, essa sempre foi a estação do ano da minha eleição. Os
dias estendidos, o sol na pele, a areia e a relva nos pés, os passeios, a
liberdade no vestir e no calçar, ajudavam a sentir-me mais plena, expressiva,
bonita, expansiva, criativa!
Era
como se fosse o tempo de todas as possibilidades. Por tudo isso, era com
melancolia que via cada verão partir.
Parecia
que alguma parte de mim ficava esquecida quando o outono, de mansinho, se
anunciava vestindo campos, jardins, parques e calçadas de tons de dourado
velho, vermelho tinto e castanho desbotado. Então, dava por mim num misto de
contemplação reflexiva e melancólica do cair das ideias velhas a morrerem
porque inúteis, dos sonhos que tinham perdido o tempo, dos amores que findavam por
descaso, desnutrição ou desadequação, à semelhança das folhas que se soltavam à mais leve brisa.
Infinitas
vezes, dava por mim a emocionar-me com Eric Clapton no seu sublime canto
“Autumn leaves”.
No
momento em que escrevo, o título é o mesmo mas a voz é a de Chet Baker.
O
tempo (o atmosférico e o cronos) muda, nós mudamos, eu mudei. Com um olhar mais
abrangente das estações na natureza e das estações da vida, percebo que os
sorrisos se sobrepõem às lágrimas, que o sol sempre encontra um jeito de espreitar
atrás das nuvens mais densas, que amores podem suceder aos desamores, que os
sonhos não têm época e que o inverno é o necessário período gestante de todas
as glórias estivais, seja na Natureza seja na natureza humana.
E é a
consciência desse verão, que vive dentro do inverno, que nos torna mais livres,
mais aceitantes de nós, mais despojad@s de preconceitos e podemos, se assim nos
permitirmos, ficar mais radiantes do que nunca, porque a nossa luz interior
brilha mais forte com o passar do tempo.
Este
verão vem do âmago do nosso ser – da nossa essência.

