domingo, 30 de dezembro de 2012

O chamado de Gaia





Este blog tem sido repositório de algumas reflexões pessoais e, sobretudo de pequenos textos ficcionais.
Parado há um tempo, paragem que reflecte as minhas mudanças e trilhos de novos percursos, uso-o hoje, no limiar do fim deste ano, para fazer eco das palavras proferidas há seis anos atrás por Mirella Faur, grande mulher que admiro e aqui honro. Apraz-me divulgar a sua mensagem que continua viva e cheia de significado e faço dela um alerta para o ano que aí vem: o 2013.

"Hoje mais do que nunca, é bom lembrarmos as comoventes e famosas palavras do Chefe Seattle em sua memorável carta escrita em 1852 ao Presidente dos Estados Unidos. Dizia ele:
“Somos parte da Terra e Ela é parte de nós. A Terra não pertence ao homem, o homem é que pertence à Terra. Todas as coisas são interligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a teia da vida, é apenas um de seus fios. O que quer que ele faça à teia, fará a si mesmo.”
Neste século e meio que transcorreu desde esse profético alerta, a Mãe Terra foi levada aos limites da sua resistência. O caos da nossa civilização actual é a consequência do desgaste da ordem patriarcal, que nos seus 8 mil anos da supremacia dos sistemas simbólicos masculinos provocou maior destruição da Natureza, se comparada aos outros dois milhões de anos que os antecederam.
São mais do que conhecidos os problemas que estamos presenciando, que teremos de enfrentar e solucionar antes de esgotar completamente os recursos da Terra e comprometer o futuro das gerações vindouras. Assuntos como a superpopulação e a fome, o aquecimento global, a destruição da camada de ozono, a diminuição das calotas polares, as crises de energia, a escassez da água, o desmatamento acelerado, a crescente poluição dos rios e do solo, a contaminação do ar, o envenenamento da flora e fauna, a exterminação de espécies de seres vivos – são mais do que divulgados e conhecidos.
O equilíbrio físico, químico, biológico e ecológico do planeta é colocado em risco ascendente e a destruição da biosfera está se tornando uma realidade, ameaçando a sobrevivência da humanidade. Isso sem contar com os problemas sociais, o descuido com as crianças, pobres, idosos, mulheres e doentes, o aumento da violência e da miséria, os conflitos entre pessoas e nações, a selvagem competição entre os homens. Essa destruição globalizada é consequência do predomínio das sociedades, culturas e valores patriarcais que instauraram a dominação do homem sobre a Natureza e sobre a mulher.
Desde a mais remota antiguidade, a Natureza – e principalmente a Terra - era considerada como a expressão máxima do princípio sagrado feminino, Deusa e Mãe dadivosa, criadora, geradora, nutridora e mantenedora da vida e de todos os seres da criação. As antigas religiões perceberam a íntima conexão existente entre a Deusa, a Terra e a mulher e interpretavam o mistério da vida e da morte como um ciclo natural e eterno, visível nos ritmos e padrões cósmicos, na dança das estações e na Roda das reencarnações.
Segundo o historiador e escritor romeno Mircea Eliade, o mito do “eterno retorno” (título de um dos seus livros) era personificado no ciclo biológico de todas as mulheres, em cada gravidez que produzia uma nova vida, em cada menstruação que a negava. A Terra reproduzia no seu relevo as formas femininas e o corpo da mulher era honrado e respeitado pelos povos antigos como um receptáculo sagrado. Identificando a mulher com a Terra e honrando esta como uma divindade, nossos ancestrais concluíram que o poder divino que presidia a criação, que nutria e sustentava a vida, era feminino.
Segundo os mais recentes estudos de antropologia, arqueologia e sociologia, concluiu-se que “Deus era mulher” durante pelo menos os últimos 30 mil anos, conforme atestam as milhares de estatuetas e gravuras representando mulheres grávidas, dando a luz ou amamentando, oriundas dos períodos paleolítico e neolítico. Foram encontradas em grutas, locais sagrados ou túmulos, junto com ossadas pintadas de vermelho e em posição fetal, para assim representar o seu renascimento, do sagrado sangue da Mãe Terra.
A Fonte Criadora nas culturas matrifocais era a Grande Mãe primordial, chamada por inúmeros nomes e venerada pela multiplicidade dos seus aspectos e atributos como a Mãe Terra, a Senhora dos animais, vegetais e frutos, a Mãe das montanhas, dos rios e da chuva, das pedras e das colheitas, do Sol, da Lua e das estrelas, da noite e do dia, das nuvens, dos raios e dos ventos, Padroeira da vida e Regente de todos os seres vivos, como vemos nesta canção nativa da Colômbia: “A Mãe das Canções”, a mãe de toda a semente, gerou a todos nós no início.Ela é a mãe de todas as raças dos homens e de todas as tribos.
Ela é a mãe do trovão, a mãe dos rios e da chuva, a mãe das árvores, a mãe de todas as coisas. Ela é a mãe das canções e das danças. Ela é a mãe do mundo e de todas as velhas irmãs pedras. Ela é a mãe dos frutos da terra, dos animais e de toda a Via Láctea. Ela, somente ela, é a mãe de todas as coisas, nossa única Mãe.
Mas Ela também era a Mãe Terrível, a Grande Fiandeira e Tecelã, que tramava a vida humana, animal e vegetal, bem como os destinos do mundo na sua tessitura de luz e escuridão, começo, meio e fim, nascimento, vida e morte, como Senhora do Tempo e dos Destinos. A mudança dos ciclos e das estações, a ascensão e o declínio, o nascimento e a morte, a transformação e a renovação eram subordinados à onipotente vontade da Grande Mãe em um grande círculo, o verdadeiro Ouroboros Cósmico. Como “Mãe Negra” a Deusa é a própria Terra, que tudo acolhe e recolhe, em cuja escuridão e silêncio as coisas mortas se decompõem, para onde os mortos vão à espera de cura, repouso e regeneração.
O homem nascia do ventre da mulher (o portal da vida), concebido do seu sangue menstrual e alimentado com seu leite, e retornava para o ventre da Mãe Terra (o portal da morte) para aguardar o seu renascimento, na eterna Roda das encarnações. O ciclo da vida e morte era visto como a peregrinação da alma, da sua mãe terrena de volta à Fonte Criadora, a Grande Mãe.
As antigas sociedades tribais eram matrifocais, geocêntricas, pacifistas e igualitárias, agindo em parceria e igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, em permanente contacto e reverência à vida e à Natureza.Mas, com o passar do tempo vieram as invasões que mudaram o pacífico cenário do antigo mundo. Tribos nómadas e conquistadores trouxeram consigo o “poder letal da espada”, que substituiu o ”poder doador de vida do cálice”.
Cultos de deuses guerreiros, senhores do céu, dos raios e trovões, das batalhas e conquistas se instauraram aos poucos em lugar da veneração à Terra, à Mãe Divina e à reverência dos seus poderes fertilizadores e mantenedores da vida. Sociedades e culturas patriarcais prevaleceram sobre a orientação matrifocal e geocêntrica, a violência e a supremacia dos mais fortes levando à criação de religiões e estados patrifocais, hierárquicos e dominadores.
Os mitos e as lendas foram revistas para reflectir uma dualidade antes desconhecida: Sol e Céu opostos à Lua e Terra, luz à escuridão, o masculino ao feminino. Antes desta distorção de conceitos e valores tudo fazia parte da Grande Mãe, tudo tinha um aspecto positivo ou negativo, não se falava em Bem e Mal, dia ou noite, claro ou escuro, masculino ou feminino, pois os polos existiam em tudo e se complementavam e integravam harmoniosamente na totalidade da criação. Por ter sido decretado que a criação original tinha sido a obra de um Pai solitário, tudo que estava relacionado ou associado à Terra ou à mulher tornou-se sinónimo de impuro, maléfico, selvagem ou perigoso, devendo ser conquistado ou subjugado, o único dono digno sendo o homem, feito à semelhança do Criador.
Tanto a Natureza quanto a mulher poderiam ser dominadas e exploradas, em nome de leis injustas impostas em nome de um Deus masculino, que personificava a razão suprema e o poder absoluto que criava e governava o mundo. Em lugar de a terra pertencer a todos como antigamente, apareceu a propriedade particular, a supremacia dos mais fortes substituiu a divisão igualitária de bens, a competição, ganância e violência predominaram sobre os valores do convívio pacifico e de parceria, as guerras e a inferiorização da mulher tornaram-se coordenadas e regras da nova civilização.
Nestes momentos difíceis e incertos que presenciamos, em que paira sobre a Terra a possibilidade de sua destruição, precisamos relembrar os antigos valores ancestrais e regatar o respeito à vida e preservação da Terra, nossa Mãe primordial e nosso único lar. Somos todos filhos e filhas da Mãe Terra, formamos uma só unidade, complexa, variada e diversificada, mas em que não existe separação, pois somos totalmente dependentes da natureza que nos abriga, nutre e sustenta. Ao trocar os modelos naturais pelos mecanicistas a ciência nos afastou da nossa Mãe e origem verdadeira e em lugar da unidade surgiu a fragmentação. Porém, continuamos fazendo parte de Gaia, suas feridas são nossas também e ao destruirmos nosso habitat estaremos contribuindo para a nossa extinção.
No entanto, como reflexos da memória de Gaia, do seu potencial criativo, curador e regenerador, temos a responsabilidade e as possibilidades de curar os males por nós mesmos provocados. Como solução, surgiu no planeta um movimento de conscientização cuja missão é a ressacralização da Terra e da mulher. Chamado de “Consciência de Gaia” ou “Gaianismo” apareceu após a divulgação das imagens da Terra vista do espaço. Assim como os primeiros astronautas, pessoas do mundo inteiro contemplaram, maravilhadas, o lindo planeta azul, cuja beleza e vulnerabilidade tocou os corações de todos.
Percebendo-o como uma única estrutura complexa e variada, em que não se distinguiam diferenças entre raças e povos, pobres e ricos, homens e mulheres, manifestou-se a vontade de cuidar dele e a esperança de preservar suas riquezas, lembrando a sabedoria destas canções dos índios norte-americanos: “A Terra é nossa mãe, devemos cuidar dela” e “Somos um com o espírito da Terra”.
Em 1979, o cientista James Lovelock e a microbiologista Lynn Margulis lançaram a “Hipótese Gaia”, que afirma a interdependência de todas as formas de vida, considerando a Terra um sistema complexo, inteligente e auto-regulável, em que todos os seres, junto com o solo, os oceanos e a atmosfera formam um ser vivo. Gaia ou Gea (significando “terra grande”) era a deusa grega criadora e regente da Terra ( chamada de Tellus Mater pelos romanos, Pacha Mama pelos incas), representando a terra agreste ou cultivada, que não podia ser violentada ou depredada, pois iria se vingar através de furacões, inundações, terremotos, secas, geadas ou vulcões.
Ao escolher o nome de Gaia e considerar – novamente – a Terra como um ser vivo, a teoria científica expressou a mesma verdade que os antigos mitos postulavam. A hipótese de Lovelock e a “Consciência de Gaia” atuaram como catalisadores para a emergência de uma nova mentalidade e filosofia de vida (“ecosofia”), apontando a responsabilidade da humanidade em preservar o planeta, para a sua própria sobrevivência.
“Gaia está nos chamando” é um alerta que se manifesta de formas cada vez mais visíveis e perceptíveis; ela precisa de nossa participação para restabelecer sua homeostase, para curar suas feridas físicas e químicas, para elevar a frequência vibratória da humanidade, evitando assim novas acções nocivas, destruições e agressões. Para isso, devemos restabelecer a nossa conexão atávica com a Terra e com todos os nossos irmãos da criação e usar os conhecimentos e meios tecnológicos para influenciar o meio ambiente de forma pacífica, benéfica e construtiva.
Porém, apenas as tecnologias modernas e sofisticadas não são suficientes para solucionar ou evitar as agressões ao delicado equilíbrio natural e à tessitura energética de Gaia. Precisamos desenvolver novos valores humanos que proporcionem a expansão da consciência, reconhecendo a sacralidade de todas as formas de vida, abolindo atitudes e actos violentos e as acções destrutivas motivadas por ganância e competição. Devemos buscar o nosso equilíbrio e a nossa paz interior para poder promover e conseguir a convivência pacifica entre pessoas e a natureza. Não podemos mudar o mundo de uma vez, mas pequenos actos de conservação, responsabilidade e cuidado com o Todo, que, ao se tornarem parte do nosso quotidiano, poderão levar à uma sinergia global e à modificação paulatina da egrégora planetária.
Para uma mudança global é necessário um acúmulo progressivo de acções individuais contínuas, sem desistir nem desanimar se os resultados não aparecerem de imediato. Devemos ter em mente as palavras do Dalai Lama: “A decisão sobre a preservação do meio ambiente deve vir do coração humano. O ponto central é ter um verdadeiro senso de responsabilidade universal, baseado em amor, compaixão e percepção clara”. Ou como disse Krishnamurti: “Somente há beleza e paz interior se você sente amor verdadeiro pelas pessoas e por tudo que existe na Terra. Com este amor vem um tremendo senso de consideração, paciência, responsabilidade e cuidado”.
Muito mais eficiente e benéfico do que o lema: ”salvar a Terra” é “cuidar da Terra”, seguindo a sabedoria nativa que mostra nossa responsabilidade em preservar a Terra e seus tesouros para as próximas sete gerações. Em lugar de “lutar pela paz” seria melhor “criar a paz”, dentro de nós e ao nosso redor. Somos partes do Todo e harmonizando o nosso ser iremos reflectir esta harmonia para as nossas relações, acções e tudo o que nos cerca. Para colocar em prática este conceito de “cuidar da Terra” precisamos de uma nova filosofia de vida, baseada em novos valores e prioridades, que leve em consideração o bem estar e a interacção do indivíduo, da comunidade e do planeta, em uma sinergia de respeito, idoneidade, parceria, solidariedade e paz.
1. No nível individual devemos cuidar do nosso ser, em todos os aspectos e planos (físico, psíquico, mental, emocional e espiritual). Como o corpo é a morada da nossa alma e o veículo que nos permite as experiências da jornada terrestre, somos responsáveis pelo seu bem estar e também pelos males e danos que lhe causamos. Cuidar do corpo significa um processo complexo envolvendo alimentação natural, repouso e actividade física, equilíbrio mental e emocional através de relaxamento e meditação, constante fortalecimento espiritual, seguindo um caminho ou práticas de auto conhecimento e transformação, o uso de métodos naturais de cura, abolir poluentes e “venenos” (internos e externos), praticar uma ”higiene mágica” (purificação da aura e dos ambientes, o controle dos pensamentos negativos e das emoções prejudiciais, a conscientização e libertação dos comportamentos nocivos).
No nível comportamental devemos colocar em prática novos conceitos, valores e prioridades em nosso benefício, dos nossos semelhantes e de Gaia. Empenhar-nos em diminuir os excessos e gastos (água, electricidade, combustível, papel, comida), resistir aos apelos do consumismo e da propaganda, praticar a “simplicidade voluntária”, reciclar, recuperar, renovar, doar, não acumular. Não poluir, não destruir o meio ambiente, não desperdiçar os recursos de Gaia, preservar a biodiversidade, ser consciente dos seus actos e responsável pelas consequências. Levar uma vida natural, ecologicamente correta, sensibilizando outras pessoas a fazerem o mesmo. Policiar suas atitudes, livrando-se de palavras agressivas e actos violentos ou egoístas, praticando gestos de gentileza e bondade.
Criar um espaço e reservar um tempo para se conectar com as energias de Gaia, ouvir o seu chamado, perceber e seguir suas mensagens. Caminhar descalço, passar tempo ao ar livre, perceber qual dos elementos naturais está em excesso ou falta no seu ser e na sua vida. Compensá-los e equilibrar-se com visualizações ou meios físicos (o Sol, meditar olhando uma vela ou perto da fogueira, sentir a brisa, tomar banho de mar ou cachoeira, trabalhar com argila, usar ervas medicinais para sua cura). Procurar seu centramento e alinhamento energético com exercícios respiratórios e posturais, criar um altar ou ponto de poder para suas meditações, orações ou rituais. Conectar-se com os seres das outras dimensões e níveis de consciência, pedindo sua proteção e ajuda, sejam eles espíritos da natureza, ancestrais, mestres, guias, Devas, Orixás, Anjos ou Divindades. Orar, agradecer as dádivas recebidas, aceitar e compreender os desafios e lições dolorosas, sabendo que são etapas importantes para o seu crescimento.
Abençoar-se e abençoar os amigos e familiares, perdoar os inimigos, viver em paz consigo e com os outros, irradiar esta paz para o mundo. Para as mulheres é vital sua conexão com as fases lunares e ritmos cósmicos, o uso de métodos naturais de cura, a compreensão e celebração das transições e mudanças nos seus ciclos biológicos e pessoais. Reconhecer-se como Filhas de Gaia e resgatar os vínculos sagrados com a Mãe Terra são passos importantes que contribuem para o fortalecimento interior. Conscientizar-se da sacralidade dos seus corpos e do direito de impor suas necessidades e respeitar seus limites, não mais permitindo abusos ou violências, seja físicos, psicológicos ou morais. A mulher é mais receptiva às energias telúricas e cósmicas, sentindo de forma mais intensa as agressões cometidas contra a Terra e os seres vivos. Por isso, poderá se empenhar melhor no seu combate, assumindo maior responsabilidade e participação nos movimentos ecológicos, feministas ou da emergência da espiritualidade feminina.
2. No nível colectivo requer-se uma maneira mais amorosa, solidária e tolerante na interacção e colaboração. Para isso, é necessário estar disponível para ouvir, compreender, auxiliar, aconselhar, de acordo com suas possibilidades pessoais, praticando a aceitação da diversidade e a tolerância às diferenças de crenças, opções e posturas individuais. Apoiar acções em benefício dos menos favorecidos, actividades filantrópicas ou comunitárias, participar em projectos ecológicos, de preservação do meio ambiente, educativos ou sociais, são iniciativas que, a longo prazo, com perseverança e paciência podem mudar a actual mentalidade de separatividade, elitismo e egoísmo. Praticar o “activismo mágico”, ou seja aliar às acções rituais de reverência e gratidão à Gaia em suas múltiplas manifestações, “retribuindo” com pequenos gestos como plantar árvores, cuidar de animais abandonados, participar de campanhas contra a violência e a favor da paz, evitar queimadas, não se omitir, nem se isolar, alertar as pessoas sobre as coisas erradas, empenhar-se na divulgação dos conceitos de idoneidade, moral e ética, são tantos outros recursos que podem contribuir para a formação de uma nova mentalidade.
Uma excelente forma de cooperação e solidariedade é a criação dos círculos. O círculo é um padrão energético natural e fundamental, que colecciona, concentra e redirecciona energias. Representa um espaço para falar com sinceridade, ouvir com compaixão, receber conforto e orientação, celebrar, cantar, dançar, interagir, buscar orientação ou apoio emocional ou espiritual, assumir compromisso consigo mesmo ou com os outros. Podem – ou não – ter uma filiação religiosa ou algum objectivo específico (espiritual, de estudo ou ensino, artístico, artesanal, recreativo). Os círculos podem ser formados nas casas particulares, em templos, igrejas, centros comunitários, algum lugar na natureza ou mesmo pela internet, funcionando como micro-comunidades, verdadeiros receptáculos de energia, cujo objectivo é distribuir ajuda, conhecimentos, apoio, luz, amor e paz para o mundo.
Neste momento global, social e planetário, as mulheres têm uma grande responsabilidade para contribuir à mudança dos paradigmas e conceitos relacionados ao habitual modo de viver e interagir com todas as formas de vida de Gaia. O sagrado feminino está reemergindo após milénios de repressão e negação, a Deusa Mãe é o símbolo actual e essencial para a cura da Terra e das mulheres e para o surgimento de uma espiritualidade centrada na Terra. O planeta precisa, para a sua sobrevivência, desenvolver qualidades e valores femininos. Os movimentos da espiritualidade feminina (como os que cultuam a Deusa, os grupos xamânicos, neopagãos, wicca, de ecofeminismo, “gaianismo”, ou o recém constituído Gather the Women (“juntar as mulheres”) não se constituem em religião organizada ou hierárquica, eles tem em comum a reverência à força vital imanente no mundo natural, manifestada como divindades ou seres da natureza e o resgate de práticas e celebrações ancestrais, cujo foco é o respeito à vida e a crença na sua interdependência e unidade.
3. No nível global a definição das directrizes para uma nova estratégia de sustentabilidade da vida foi dada em 1991, na “Carta da Terra”:
- Construir uma sociedade sustentável.
- Respeitar e cuidar da comunidade dos seres vivos.
- Melhorar a qualidade da vida humana.
- Conservar a vitalidade e diversidade do planeta Terra.
- Permanecer nos limites da capacidade de suporte da Terra.- Modificar atitudes e práticas pessoais.
- Permitir que as comunidades cuidem do seu próprio meio ambiente.
- Gerar uma estrutura nacional para integrar desenvolvimento e conservação.
- Constituir uma aliança global.
Se colocarmos em prática esses princípios essenciais de cuidados para a preservação da Terra e se nos empenharmos para conviver de uma forma mais pacífica e fraterna, poderemos unir nossos corações em uma só esperança e orar pela Mãe Terra, como os essênios faziam:
Abençoado seja o filho da luz que conhece a sua mãe terra,
Pois é ela a doadora da vida.
Sabes que a tua mãe terra está em ti e tu estás nela.
Foi ela que te gerou e te deu a vida,
E te deu este corpo que um dia tu lhe devolverás.
Sabes que o sangue que corre nas tuas veias
Nasceu do sangue de tua mãe terra.
O sangue dela cai das nuvens, jorra do ventre dela
Borbulha nos riachos das montanhas,
Flui abundantemente nos rios das planícies.
Sabes que o ar que respiras nasce da respiração da tua mãe terra,
O alento dela é o azul-celeste das alturas do céu
E os sussurros das folhas da floresta.
Sabes que a dureza dos teus ossos foi criada dos ossos da tua mãe terra,
Sabes que a maciez da tua carne nasceu da carne da tua mãe terra.
A luz dos teus olhos, o alcance dos teus ouvidos
Nasceram das cores e dos sons da tua mãe terra
Que te rodeiam feito as ondas do mar cercando o peixinho
Como o ar tremelicante sustenta o pássaro
Em verdade te digo: tu és um com a tua mãe terra
Ela está em ti e tu estás nela
Dela tu nasceste, nela tu vives e para ela voltarás
Novamente.
Segue, portanto, as suas leis,
Pois teu alento é o alento dela,
Teu sangue o sangue dela,
Teus ossos os ossos dela,
Tua carne a carne dela,
Teus olhos e teus ouvidos são dela também.
Aquele que encontrou a paz na sua mãe terra
Não morrerá jamais.
Conhece esta paz na tua mente.
Deseja esta paz ao teu coração.
Realiza esta paz com o teu corpo.
Mirella Faur - Palestra proferida no Festival Internacional da Paz de Florianópolis, em Setembro de 2006.

domingo, 23 de setembro de 2012

ERA com melancolia que via cada verão partir…





Hoje retirei e mudei a frase de perfil deste blog. Nele se costumava ler:

 É com melancolia que vejo cada verão partir.

Retirei-a porque lhe perdi o sentido, pelo que tenho vindo a intuir e a sentir.
Não porque tenha deixado de amar o verão, o sol, o calor, as árvores soberbas e frondosas, ou a beleza extrema do seu esplendor criativo e promissor nas mil florações, ou ainda as manifestações de fecundidade e generosidade da Terra.
Não deserdei esse predominante aspecto de mim, integrei-lhe, sim, outra compreensão.
O sentimento de melancolia pressupõe uma dor vaga, indefinida, e eu desde longe, longe no reino das lembranças, identifico esse sentir a que Victor Hugo chamou ‘a felicidade de ser triste’
Senti-me saída do aconchego do vaso materno em pleno calor do estio, dois meses depois do solstício do verão, um mês antes do equinócio do outono. Num equilíbrio instável, sobrepôs-se esse lado solar tão marcado nos gostos e preferências que fui manifestando pela soberania do sol, pelo reino da água, pelo perfume das flores, pela beleza da promessa dos frutos.

Que abandono sentia eu a cada partida do verão? Que falta se instalava na mesma medida e proporção em que o Sol, a cada dia mais rápido, partia para outros mundos?

Na mitologia celta, a celebração do equinócio do outono, ocorre no Sabbat do Mabon, antigo Deus celta que simboliza os princípios masculinos da fertilidade.
Mabon, que marca o começo do outono, é também a fase de ancião do Deus Sol que se prepara para morrer. Ele está envelhecendo e fenecendo, lentamente, como as plantas colhidas da terra. As sombras vão em breve começar a dominar a luz e a Deusa lamenta a partida do seu consorte para Outro Mundo.
Inconscientemente, manifestava eu esse arquétipo da Deusa, através da melancolia do final do estio.

  No entanto, Ela sabe que o poder do Deus retornará à Terra. É um período de morte e renovação. O renascimento está contido em cada semente colhida. É a promessa do seu retorno. Tal como a vida se sucede à noite, numa alternância de polaridades que visam o equilíbrio.
A Deusa prepara-se para dizer adeus ao Deus velho, mas sabe que a semente do Deus novo já está dentro dela, no seu ventre.

Cada coisa no seu tempo.


terça-feira, 31 de julho de 2012

Sema, a mulher



Demoro em Sema o meu olhar.

Os sulcos suaves que lhe riscam o cetim moreno da pele madura e o olhar terno, resignado e doce falam de aceitação e de sonhos serenos. Os lábios grossos estendem sorrisos tímidos, prometedores como os da adolescente que, silenciosamente, os entrega à mãe da vida e lhe confia o seu caminho.

Como se não tivesse cinquenta e cinco anos. Como se não tivesse na alma as marcas do destrato. Como se o seu corpo nunca tivesse sentido o peso de uma mão desapiedada. Como se os cinco filhos que criou fossem só fonte de alegrias.

Sentada num banco de uma escola ao ar livre, pousa o olhar em frente sem o fixar em nada concreto. O som das palavras da professora europeia que lhes ensina, a ela e a outras mulheres, a perceber o mundo para lá das paliçadas das suas aldeias, vai-se afastando devagarinho e esmorece nas memórias do esquecimento.

Pensa no seu pai, o conselheiro da aldeia. Na sua autoridade inquestionável de intermediário entre mundos. Na sua sabedoria de intérprete dos sinais divinos. Pensa na sua mãe que durante toda a sua vida o serviu. Que lhe colheu as ervas, que lhe cozinhou as mezinhas. E vem-lhe uma memória que não sabe se é dela. A memória de um tempo de igualdade entre os sexos em que as mulheres, proporcionadoras da vida e guardadoras de mistérios sagrados, eram respeitadas e ouvidas.

A memória de um tempo em que Deus era mulher.

Por momentos parece-lhe ouvir o som do princípio de tudo: o rumorejar cintilante de partículas de fogo, o silencioso nascer das estrelas, o troar das galáxias, o descolar dos planetas duma massa informe e gigantesca a deslizarem sob chuva de luz e som e a ocuparem o seu lugar no espaço.
Pareceu-lhe ouvir um embate e, com o choque, o som líquido da TERRA. Um som que cheirava.

Um cheiro de alfazema a correr desertos, montanhas, lagos e planícies.

Foi de alfazema o ramo com que se perfumou no dia em que se prometeu a Kitur, o jovem caçador que dizia querer com ela juntar a alma. E todos os segundos dos dias doravante foram de perfumes trazidos por ele, para ela, no final de cada caçada até ao dia em que dele só chegou o cheiro de sangue amargo da sua morte. Tão menina e sem tempo para ter tido filhos, sentiu-se viúva dele e de si.

Ali sentada no banco da escola ao ar livre, entre memórias de um passado que já foi e de sonhos de um futuro que ainda não é, Sema sente-se liberta para resgatar a sua totalidade.  

E, olhando-a, consigo ver nela sementes de uma nova história, de um novo percurso.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

Talvez até ao próximo sinal




                                                             http://www.youtube.com/watch?v=G8-6pZxJ4yc


A partir de Sinal Fechado de Paulinho da Viola


 Olá, viva, como estás
  Que bom, és tu 
 Há quanto tempo não nos víamos
 Sim, há muito, muito tempo
 Corro na vida à procura da felicidade
Eu procuro vivê-la
Não tenho tempo para nada
Nem para seres feliz?
Estás igual
Com algumas rugas mais
Mas conheces os benefícios da estética
Gosto das minhas marcas. Não quero esquecer porque as tenho
Tenho tanto a contar
Eu também, mas o sinal
Telefona-me. Vai abrir
Não sei para onde
Ligo eu
Mudei de telefone
Já abriu
Já abriu





quinta-feira, 26 de abril de 2012

E olhas através da janela


Quando olhas pelos vidros da tua janela, as folhas das árvores, dançando na brisa, sussurram-te segredos. Antigos. E outros de agora. Trazem-te memórias de um tempo que não sabes a que tempo se refere. Talvez te lembrem uma dor, uma falta de coragem, um amor não vivido, uma alegria esquecida, algum abandono ou uma desistência tua. Quando o teu olhar pousa tranquilo nos frágeis pássaros imaginas a vida que foi a tua.

Não, o telefone não está a tocar. Não, o correio não veio hoje. Olha, chegou uma carta para ti. E parece o eco da voz da tua mãe.

A brisa lá fora agita-se e faz balouçar as hastes dos pequenos bambus que decoram a tua parede. Os colibris, assustados, levantam voo e beliscam a tua indolência. Levantas-te da cadeira, abres o armário, procuras o teu caderno e relês coisas que há pouco escreveste sobre outras que se passaram há muito tempo.
Ele gosta de ti, disse-te uma amiga tua a meio de uma aula que já não recordas de quê. Como sabes? perguntaste tu fingindo desinteresse. Porque ele até estremece quando ouve o teu nome, respondeu ela num sorriso a exigir uma cumplicidade que não devolveste. Naquele momento uma luz acendia-se dentro de ti, mas tu, querendo escondê-la a todo o custo, olhaste para a tua amiga imitando uma segurança que não sentias e asseguraste que não querias saber.
À noite, na solidão que só a cama te permitia ter porque não tinhas um quarto só teu, acendeste de novo aquela luz e deixaste que te inundasse de calor. E os teus dias passaram a ser de sol mesmo quando não tinhas coragem de o olhar e continuavas a fingir indiferença. Mesmo quando esperavas impaciente e já ias perdendo a esperança que os passos dele atravessassem a distância que vos separava.
 Quando terminaram as aulas do primeiro período e todos se iam apartar para as férias do Natal nas suas casas, nas suas vilas ou aldeias, lá bem em baixo, ao fundo da escadaria do liceu, despediste-te dele. Naquela altura não havia intimidades. Nas pequenas cidades de província os rapazes e as raparigas só começaram a cumprimentar-se com um beijo mais tarde. E tu ali, a querer senti-lo e sem saber como. Ocorreu-te tirar a luva e deixar a mão nua e livre. Com o coração muito contraído, apertaste-lhe a mão num gesto de despedida e, no frio gélido do dia, os teus dedos escaldaram-se perdidos no lume aceso da palma dele.
O carteiro não trouxe a carta. O tempo passou.

Alguns meses depois viste. Ele de mão dada com outra. Faltou-te literalmente o chão. Uma brecha enorme engoliu-te a esperança. Com a respiração suspensa seguraste-te à tua superioridade fingida e ao teu improvisado ar seguro. Olá disseste tu. E já não ouviste mais nada porque camadas de desilusão te envolveram toda.

Tu sabes que o tempo passa. Que o tempo passou muito depressa por ti. Já não há a voz da mãe. E olhas através da janela a sondar os segredos do agora.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma árvore é um livro



mãe
filho
árvore
livro
morte e nascimento 
ou não, talvez só alquimia
 folhas da árvore, folhas do livro
 árvore com copa, livro com capa
árvore sábia na serena imobilidade
simbólico eixo a ligar o físico e o divino
de ramos estendidos na busca da luz ergue o olhar ao Pai
enquanto com raízes fortes procura o alimento escondido
e se funda na Mãe
livro refúgio
inspiração simbólica
 ligação ao inominável
prelúdio de viagens aventureiras
fonte de alucinações
árvore barco
livro alado
árvore livro
livro árvore
Um


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Despertares…




Era um relâmpago contínuo, o Mustang vermelho, a riscar o quase anoitecer. Porém, o acender de um semáforo inesperado obrigou-o a uma travagem brusca, que aqueceu de cheiro negro o asfalto. Nessa altura, do meu tímido Fiat 600, pude observar com nitidez aquela impressionante e curvilínea máquina. Enchiam o seu habitáculo dois corpos: um deles, o do condutor, quase abafando o outro. Homem corpulento, adivinhava-se-lhe a altura desmesurada na cabeça lisa e nua que rasava o tejadilho numa ameaça de perfuração eminente. Aproveitou a paragem para fazer recuar o tejadilho. Fez isso com gestos exuberantes e falando sem parar. Sons de autoridade inquestionável desenhavam-se-lhe nos lábios grossos de lascívia. Droga de semáforo. Ainda me passou pela cabeça continuar, mas a lembrança da chatice da semana passada com a brigada de trânsito, fez-me logo mudar de ideia. Entretanto, já que aqui estamos parados, vamos lá aproveitar o empo, oh pequena. Olhando-o agora fixamente, pude apreciar melhor os seus olhos proeminentes num rosto largo e suado e o tronco anafado coroado por uma protuberante barriga que subia e descia ao ritmo da respiração descompassada. As mãos, rudes e grossas, estendiam-se autoritárias para o lado direito ocupado por uma presença feminina que, não fora a cara morena vincada por duas insistentes rugas, pareceria uma criança franzina a entrar na adolescência. Cabelos longos e rectilíneos emolduravam-lhe o mutismo na cara baça de esperança. Cruzava os braços e enterrava as mãos nas costelas que assomavam por debaixo da blusa justa. Os olhos, cor de cinza molhada, semicerrava-os numa linha estreita com que repelia a confusão de pensamentos desencontrados e com que chegava a uma decisão. Inabalável. Não vou aturar mais isto, pareciam eles querer dizer. Se ele pensa que me usa a seu belo prazer, engana-se. Ele que se atreva a aproximar-se de mim e eu mostro-lhe como se pode tornar feroz a fragilidade. Como se pode transfigurar a amorosa e gentil parceira na leoa selvagem que reivindica a sua pose radiante e verdadeira. Aí sim, ele irá aguar-se no vislumbre da totalidade que verá em mim. Eu, que sou filha do Amor. Lia-se-lhe uma quase alegria nos olhos rasgados de escuridão. Com um gesto certeiro e o ar triunfante de quem se desembaraça de pesado lastro, repeliu-lhe o avanço e deixou-o lá, agachado e gemente. Abriu a porta do carro e caminhou com a promessa das lezírias na primavera. 
Que inacreditável visão, de força, magnetismo e poder a agigantar-se numa forma imensa que crescia na minha direcção. Uma voz firme mas serena, arranque antes do verde, roçou-me a pele e liquefez-me a vontade. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

Tenho o que dei







Ouvi esta frase há dias: “Tenho o que dei”- citação de um escritor na boca de um outro escritor.
E ressoou forte, forte em mim porque já a sabia verdade. E, embora fosse facto que a sabia verdade, deu-me que pensar.

Aparente contradição ter-se o que se deu.
Na realidade quando se dá, por exemplo um qualquer objecto, deixa-se de o ter. Não se dá temporariamente. Dá-se. Entrega-se. Deixa de nos pertencer. O acto de dar encerra em si um desapego.
Sei que há os falsos ‘dar’: aqueles em que se troca o que se dá pelo que se pensa poder vir a receber. Aqueles em que se cobra o que se deu, requerendo afectos e favores, agradecimentos ou, no mínimo, validação.

Algum dia na nossa vida ouvimos algo como: olhem só que ingratidão! É assim que me paga, depois de tudo o que fiz por ele/ela.
Também há o ‘dar’ que mais parece um empréstimo: “a minha blusa fica-te mesmo bem” , a confirmar o adágio ‘Quem o alheio veste, na praça o despe’.

Não se refere com certeza, a estes ‘dar’ o escritor citado quando diz ter o que deu.
Quererá, com maior probabilidade, referir-se às trocas dinâmicas que ocorrem no universo, em que dar e receber são dois aspectos da mesma energia. Em que a abundância é um fluxo de energia que não pode, não deve, ser interrompido.
Nessa óptica quanto mais se dá mais se recebe. Entenda-se amor, afecto, carinho alegria, apreço. Ou também bens materiais.

“Dai e ser-vos-á dado”, consta que afirmava Jesus.

E contava a minha avó, velhinha, que as únicas coisas importantes que recordava da sua vida eram os sorrisos que dera e recebera.

A alegria e o amor com que damos, é então o que nos fica.
Qualquer coisa pode desaparecer de um momento para o outro de nossas vidas: um cataclismo, uma falência, podem levar-nos todos os bens materiais. Morte, separação podem apartar os entes queridos.

E um dia podemos confrontar-nos com a tal verdade:

Tenho o que dei

quarta-feira, 14 de março de 2012

A aflição da Primavera




As árvores enchem-se de brotos. Algumas cobrem-se de mantos de branco florido. Da minha janela vejo-a. A Primavera a chegar. A vida a viver-se. E é ainda Inverno nos dias do calendário.

Este ano a Primavera quase que não chegou. Tem estado por aí. Se não no calendário ou nos ramos das árvores, esteve-o no sol radioso que acendia de azul os dias curtos embrulhando-os num xaile dourado, contradizendo quem diz que nos raios do sol de inverno não há calor.
De tal maneira que este ano não houve porquê e os olhos não se me aguaram na espera dos risos dos pardais e não se me fez urgência dos dias claros.

Fez-se sim urgência, nos campos, nas florestas, nos rios, nas albufeiras, de nuvens carregadas que, de tão prenhes, não contivessem o rebentamento das suas águas. Mas as nuvens escassearam ou andaram tão altas que não ouviram o grito desesperado da Mãe que chamava por elas. Não viram a dança que alguns corações dançaram.

E a Terra está seca a abrir-se em rasgos, gretas e sulcos. E a Primavera a parecer Verão, num sol tão quente que saberia tão bem ao corpo, à alma, não fosse esse grito da Terra, da Mãe que nos alimenta.

Não fosse eu saber que a Terra seca sou eu.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O grito





Depois de uma corrida na noite estrelada da A5, o táxi parou à porta da tia Quininha na R. António Augusto de Aguiar. Arranjei uma desculpa para não a acompanhar a casa e continuei a minha viagem. Queria saber o que era andar de carro, sozinha e à noite, pelas ruas semidesertas da cidade, quase sem trânsito àquela hora tardia. Virámos à direita, contornámos o Marquês e descemos pela avenida.

A meio, mudei de ideias, pedi ao taxista para parar e saí.

Apetecia-me sentir o barulho silencioso da noite. Estava na Av. da Liberdade. Era liberdade o que eu precisava respirar. Sorvi o ar e comecei a caminhar pelo passeio que separa a faixa central da lateral direita de quem desce. Fiz a vontade aos pés, ensaiei uns passos desajeitados e senti-me uma miúda a contornar a geometria e os arabescos da calçada. Dei por mim a dançar, eu que sou pouco dada a expor-me, quanto mais assim publicamente. Atribuí esse meu inesperado à vontade ao facto de, naquele momento, não haver ninguém ali por perto. De repente sentia-me como calculo que alguém estrangeiro se deva sentir numa cidade desconhecida: sem ter contas que dar a ninguém, sem me importar com o que pensassem de mim, estando-me nas tintas para que aprovassem o meu comportamento. Apeteceu-me descontrair e ser eu por uma vez. Apeteceu-me gritar. Não um grito de dor ou de raiva. Antes um grito libertador de uma energia antiga que me apertava como se cintas de ferro me envolvessem todo o corpo. Um grito que expulsasse o que em mim se comedia, se acanhava, se acobertava. Mas o acanhamento foi maior que a vontade. O grito não saiu e um sufoco aterrou na palidez melancólica dos candeeiros da avenida. Sentei-me num banco que, tal como eu, tímido, se oferecia.

 Já que não conseguia olhar para mim, varri devagar o espaço à volta.

Àquela hora, saídas de algum bar, cinema ou tertúlia, começaram a passar algumas espaçadas pessoas. Não eram todas iguais. Um grande grupo passou, mesmo diante de mim, a rir uma alegria desmesurada, logo seguido de um grupo mais pequeno que discutia acaloradamente. Talvez política. Um travesti bamboleava-se no passeio, também ele querendo pisar unicamente as pedras pretas da calçada, quando um casal parou ali a ganhar alento e a refazer-se de alguma zanga. Olhavam-se no que pareciam ser tréguas forçadas. Vi o medo entrar no olhar vazio dela. Senti o cheiro de mais uma vitória nele.

Comecei a correr. Quis fugir da rua. Quis fugir das pessoas. Quis fugir da noite. Quis fugir sem saber de quê.  

Olhei para cima. As folhas das árvores coavam o brilho baço das estrelas que a noite clara das cidades esconde. O cheiro impessoal das paredes das casas comprimia-me o peito e eu corri mais e mais. À medida que corria, os prédios dos dois lados da avenida pareciam cobras ondulantes aos ziguezagues, ora afastando-se ora envolvendo-se numa aproximação perigosa em que cada um quase que juntava os últimos andares dos edifícios opostos. Pareciam bocas famintas, desesperadas, à procura de satisfação. E eu corria entre eles mais e mais para não ser engolida no momento do aperto. Entre bruscas quedas e equilíbrios instáveis sentia-me miraculosamente apoiada, no último segundo, por um exército invisível de elementais.
O imaginário da minha infância vinha em meu socorro. No momento em que estava a nu com os meus medos à solta, sem filtros nem crivos, no momento em que aquela parte de mim que sempre queria estar no controlo percebeu que nada podia controlar, o mais puro e primordial de mim, destapou-se.

E então o grito saiu. Um grito rouco, gutural que me limpou a garganta e que aos poucos foi descendo e percorrendo todo o meu corpo. Era um grito que me ligava a qualquer coisa nova, desconhecida, funda, sem tempo, ao mesmo tempo que flashes de imagens quase psicadélicas ocupavam um enorme ecrã virtual e percorriam a história do tempo.

Estática e extática vi-me de frente para o rio sem saber como ali tinha ido parar. A minha presença no local era avassaladora, parecia-me ocupar o espaço por inteiro, filha da Terra, do Céu e do Mar. Qual deusa ancestral, plena de valor, força e feminilidade.

O telefone tocou. Era a tia Quininha. Queria saber se já estava em casa. 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma casa na escuridão



Para mim, e só para mim, distingo os escritores desta maneira: aqueles que escrevem de forma absoluta e tocante, a quem saboreio as palavras até me entrarem na pele e me fazerem desejar ter sido eu a escrever aquilo. Estes ficam sempre comigo. Depois há os outros, alguns mesmo excelentes e audazes construtores de narrativas, vozes instaladas ou promissoras, profundos no pensamento, mas que ao acabar de os ler acaba também tudo. Não chegam a fazer relação comigo. Nem lhes desejo o dom.
O José Luís Peixoto está na primeira categoria. Descobri-o há pouco tempo mas tenho lido dele tudo quanto apanho. A singularidade da sua escrita poética, a beleza simples e tocante das imagens, as palavras comuns que, com ele, ganham vida e sentido renovado, a sensibilidade na crueza e na ternura, o negrume e a claridade de mãos dadas ganharam-me por completo. 
O que me leva a dedicar-lhe hoje este texto é uma forte impressão de uma recém-acabada leitura sua: 'Uma casa na escuridão'. Impossível ler este livro e ficar na mesma. A história de um escritor narrador que traz o amor e a morte no peito. Belo, muito belo e tão terrível, tão desapiedado, tão cruel na desesperança que até tira a respiração.
 No entanto, a percepção que tive mesmo ao acabar de o ler, foi de que o fim de tudo talvez possa ser um começo. E li no fogo uma possível regeneração na destruição do putrefacto físico, psíquico, ético e moral: o que restara da devastação invasora. E vi no reencontro do eu narrador com 'ela' o reencontro com ele mesmo; 'ela' e 'ele'; o amor sempre lá e todas as possibilidades também; o amor na morte; o princípio no fim. E, tal como Shiva representa os opostos destruição/criação, este romance bem pode ser o mesmo. 

sábado, 21 de janeiro de 2012

Quem tem medo de Virginia Woolf? ou Quem tem medo de si?



Who´s Afraid of the Big Bad Woolf?

Assim cantavam com arrogante displicência dois dos porquinhos no filme de animação "The Three Little Pigs" de Walt Disney, crentes que as suas frágeis casas de palha e galhos os haveriam de proteger das garras e dos dentes afiados do lobo mau.
Edward Albee  inspira-se nessa canção e intitula a sua magnífica peça de teatro jogando com um trocadilho:

Who´s afraid of Virginia Woolf?

Numa casa, numa sala, um casal de meia- idade. Duas pessoas iludem o medo que têm do lobo mau. O medo que têm da realidade tal como ela é. O medo que têm de viver sem ilusões. O medo que têm de enfrentar os seus fantasmas, os seus demónios. O medo que têm de  ver a nu as suas tristezas e frustrações. O medo que têm de olhar para dentro deles e já nada encontrarem. O medo de que o ódio seja já maior que o amor. E iludem esse gigantesco medo agredindo-se mutuamente em confrontos verbais sem qualquer pudor perante um jovem e inexperiente casal que os acompanha numa noitada de bebida depois de uma festa. E humilham-se sem piedade. E jogam jogos perigosos onde se expõem segredos, desilusões numa mistura de mentira e verdade.
Ao longo desta peça, em cena no Teatro D. Maria, vivi duas horas e meia em que os actores me deixaram sem fôlego emotivo tal é a intensidade que põem nos diálogos. E houve momentos em que na plateia se soltavam risos nervosos. E não pude deixar de perceber que as pessoas (e também eu) descomprimiam algum mal-estar e deixavam as suas sombras virem ao de cima, reflexos dos espelhos que se movimentavam no palco.
E não pude deixar de reflectir que frequentemente a vida do comum dos mortais é aquela casa, aquela sala de estar. É aquele medo insidioso de encarar a realidade. É a ilusão das histórias inventadas e repetidas. É um somatório de tomadas de consciência levianas porque logo esquecidas. Como aquele casal que se odeia e se ama. Que periodicamente discute se agride e desfaz. E refaz. E novamente desfaz.
A terminar a peça a mulher, Martha responde à pergunta do marido ‘Quem tem medo de Virginia Woolf?’:

-Eu.

Chegaram ao limite dos limites, estão destroçados e de mãos entrelaçadas.

Albee não dá pistas. Não sabemos se é o princípio da consciência de si, das suas limitações e fraquezas, do aceitar que o real pode ser duro mas é o que é. Ou se pelo contrário, é só mais uma pausa para um próximo ´round’ numa próxima noite de muitos copos bebidos.

E nós? Ilusão ou realidade? Aceitação ou negação? Conflito ou apaziguamento? Coragem ou debilidade?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E você o que faria?



O que o senhor teria feito em meu lugar?



É a pergunta que ela faz ao juiz que a acusa.
A resposta poderia ser leviana e fácil: eu teria feito diferente.
 Mas nas respostas rápidas e descomprometedoras ninguém ousa ir dentro de si, esconjurar fantasmas e demónios para tentar descortinar como teria realmente sido se fosse consigo. Que coragem ou falta dela teria tido? Com que ética, com que moral teria agido? Com que valores, com que medos teria respondido?
Para a reflexão que quero fazer não interessa quem acusa, não interessa quem é acusada ou de quê (só na medida em que o que a origina são factos de um dos períodos mais negros da história da des -humanidade). Mas interessa colocar em perspectiva a crítica e o julgamento de forma abstracta e perguntar: o que faria eu naquela circunstância? O que faria eu naquele lugar? Interessa fazer um deslocamento do ponto seguro e inexpugnável onde se faz o julgamento para o ponto de todas as fragilidades. Interessa perceber que, com todas as consequências, a cada momento o ser humano faz o que pode e o que é capaz. Nem mais nem menos. O que acabo de escrever, nem sempre foi pacífico para mim. Houve tempo em que julguei que isso desresponsabilizava agressores, tiranos, assassinos. Na verdade não desresponsabiliza. As acções ficam com quem as pratica. E há instâncias para julgar e condenar. Muitas vezes as mesmas que antes ilibaram, é certo. Como no caso da Alemanha que carrega a culpa legislativa de aceitar o genocídio nas suas leis durante a guerra. Culpa moral ou culpa legislativa, problematiza o professor de Direito?
Estou a falar do filme ‘The reader’, que dividiu opiniões e gostos no ano da sua estreia no cinema e que em mim deixou forte impressão. E que ontem revi. E que novamente me impactou.
Quando acaba o filme, para além das possíveis comoções, para além de uma história que inevitavelmente vai ser esquecida, ficam perguntas, ficam reflexões.
Dá que pensar a que fins trágicos os caminhos da vergonha podem conduzir. Que sombras os segredos podem convocar. O que pequenos gestos, acções, ou a ausência deles podem mudar.
Dá para especular que, não fora a vergonha suprema de ser analfabeta e Hannah Schmitz poderia não ter sido envolvida nas malhas obscuras do dever, para ela inquestionável, de escolher a quem caberia, num ciclo repetível e interminável, a câmara de gás. Não fora ainda esse pudor viscoso e não teria fugido anos mais tarde à sua confrontação. E é ainda com a determinação fria e férrea de esconder esse segredo que aceita uma culpa, que essa não é dela, e a sujeita a uma condenação extrema. São duas as prisões que a enclausuram, desfeiam e envelhecem: a convencional, onde, julgada e condenada, vai parar e outra feita de grades de interdições, de fraquezas, de segredos e sufocos. Das duas liberta-se um pouco com uma vontade que lhe consegue o quase impossível: penetrar sozinha no mundo das palavras e das ideias. O que não chegará.

Antes os seus gestos e acções cegaram vidas devastaram almas. De forma irrecuperável. Até talvez a sua.

E fica no ar a pergunta dela:

O que teria feito em meu lugar?


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mais um ano na vida do Sr. Kontrol

Um som autoritário dita-lhe a urgência da manhã do primeiro dia de trabalho do novo ano. Estica as pernas ainda quentes como se empurrasse as paredes invisíveis do ano findo e, com três passos rápidos e decididos, entra na casa de banho da suite que ocupa sozinho. Depois de um duche rápido, neurónios invisíveis dão ordens aos braços que, como tenazes, seguram artefactos e tratam de branquear os dentes, os naturais e os implantes, barbeiam o rosto com estrita impecabilidade, fazem o risco na cabeleira com o rigor milimétrico do gel e perfumam a pele ainda húmida com a colónia comprada na perfumaria mais chique e mais cara da cidade. Um homem na sua posição não pode deixar nada ao acaso. Sobretudo depois de ter percebido, numa passagem fátua pelo ‘open space’ do escritório, um comentário quase inaudível sobre um cheiro a toranja podre. Ainda se virou para ver de onde vinha o atrevimento, mas já todos estavam de cabeça baixa e pretensamente ocupados nos afazeres próprios. Agora, ali sozinho, esse comentário insinua-se e força-o a uma dose suplementar de perfume. Corrói-o uma fragilidade e por momentos sente-se insignificante. Mas isso é questão de segundos e logo recupera a sua pose altiva.
Depois do pequeno-almoço faz três telefonemas: à secretária manda cancelar a agenda do dia; ao motorista ordena que venha imediatamente pois precisa que o leve à R. das Flores. O terceiro, numa voz melosa e simulada, termina num pedido que não dá margem para escusa. Diz-lhe que precisa de a ver e pronto. Os débeis protestos dela de tenho uma reunião vencidos pela subtil manipulação dele então eu já não sou importante, olha que ficas sem me ver durante semanas.
Após uma passagem rápida pela R. das Flores, recompõe o risco do penteado, entra de novo no BM prateado e vai até ao Clube finalizar um assunto em suspenso desde a semana passada. Irrita-o o facto de saber que se não for ele a marcar o passo, o marasmo toma conta da direcção e o convite ao ministro fica na gaveta por falta de ousadia. Ao almoço, num restaurante fino e caro telefona ao filho, então como vai a escola e, já gritando, tu não brincas comigo, ameaça: olha que te corto a mesada.
Vai até ao escritório. Toma decisões arbitrárias contrariando as opiniões dos sócios na última reunião plenária. À noite depois do jantar, telefona à ex-mulher para lhe dizer que com o dinheiro que lhe dá ela tem obrigação de educar melhor o filho. Que a torneira se fechou e que no verão não vai haver férias para ninguém.
Se calhar para ti também não, é o que faz supor um silencioso olhar de ferro na direcção do lugar da mesa oposto ao seu. Estala-lhe na boca o último trago do conhaque aquecido e com um seco até amanhã caia de desesperança gélida o corpo que todo o dia se preparara para o receber.
O silêncio dos lençóis de linho ainda quer segredar-lhe a sua pequenez moral mas os tampões que coloca nos ouvidos protegem-no de semelhante aleivosia e garantem-lhe mais um ano de glória.