domingo, 23 de setembro de 2012

ERA com melancolia que via cada verão partir…





Hoje retirei e mudei a frase de perfil deste blog. Nele se costumava ler:

 É com melancolia que vejo cada verão partir.

Retirei-a porque lhe perdi o sentido, pelo que tenho vindo a intuir e a sentir.
Não porque tenha deixado de amar o verão, o sol, o calor, as árvores soberbas e frondosas, ou a beleza extrema do seu esplendor criativo e promissor nas mil florações, ou ainda as manifestações de fecundidade e generosidade da Terra.
Não deserdei esse predominante aspecto de mim, integrei-lhe, sim, outra compreensão.
O sentimento de melancolia pressupõe uma dor vaga, indefinida, e eu desde longe, longe no reino das lembranças, identifico esse sentir a que Victor Hugo chamou ‘a felicidade de ser triste’
Senti-me saída do aconchego do vaso materno em pleno calor do estio, dois meses depois do solstício do verão, um mês antes do equinócio do outono. Num equilíbrio instável, sobrepôs-se esse lado solar tão marcado nos gostos e preferências que fui manifestando pela soberania do sol, pelo reino da água, pelo perfume das flores, pela beleza da promessa dos frutos.

Que abandono sentia eu a cada partida do verão? Que falta se instalava na mesma medida e proporção em que o Sol, a cada dia mais rápido, partia para outros mundos?

Na mitologia celta, a celebração do equinócio do outono, ocorre no Sabbat do Mabon, antigo Deus celta que simboliza os princípios masculinos da fertilidade.
Mabon, que marca o começo do outono, é também a fase de ancião do Deus Sol que se prepara para morrer. Ele está envelhecendo e fenecendo, lentamente, como as plantas colhidas da terra. As sombras vão em breve começar a dominar a luz e a Deusa lamenta a partida do seu consorte para Outro Mundo.
Inconscientemente, manifestava eu esse arquétipo da Deusa, através da melancolia do final do estio.

  No entanto, Ela sabe que o poder do Deus retornará à Terra. É um período de morte e renovação. O renascimento está contido em cada semente colhida. É a promessa do seu retorno. Tal como a vida se sucede à noite, numa alternância de polaridades que visam o equilíbrio.
A Deusa prepara-se para dizer adeus ao Deus velho, mas sabe que a semente do Deus novo já está dentro dela, no seu ventre.

Cada coisa no seu tempo.