sábado, 21 de janeiro de 2012

Quem tem medo de Virginia Woolf? ou Quem tem medo de si?



Who´s Afraid of the Big Bad Woolf?

Assim cantavam com arrogante displicência dois dos porquinhos no filme de animação "The Three Little Pigs" de Walt Disney, crentes que as suas frágeis casas de palha e galhos os haveriam de proteger das garras e dos dentes afiados do lobo mau.
Edward Albee  inspira-se nessa canção e intitula a sua magnífica peça de teatro jogando com um trocadilho:

Who´s afraid of Virginia Woolf?

Numa casa, numa sala, um casal de meia- idade. Duas pessoas iludem o medo que têm do lobo mau. O medo que têm da realidade tal como ela é. O medo que têm de viver sem ilusões. O medo que têm de enfrentar os seus fantasmas, os seus demónios. O medo que têm de  ver a nu as suas tristezas e frustrações. O medo que têm de olhar para dentro deles e já nada encontrarem. O medo de que o ódio seja já maior que o amor. E iludem esse gigantesco medo agredindo-se mutuamente em confrontos verbais sem qualquer pudor perante um jovem e inexperiente casal que os acompanha numa noitada de bebida depois de uma festa. E humilham-se sem piedade. E jogam jogos perigosos onde se expõem segredos, desilusões numa mistura de mentira e verdade.
Ao longo desta peça, em cena no Teatro D. Maria, vivi duas horas e meia em que os actores me deixaram sem fôlego emotivo tal é a intensidade que põem nos diálogos. E houve momentos em que na plateia se soltavam risos nervosos. E não pude deixar de perceber que as pessoas (e também eu) descomprimiam algum mal-estar e deixavam as suas sombras virem ao de cima, reflexos dos espelhos que se movimentavam no palco.
E não pude deixar de reflectir que frequentemente a vida do comum dos mortais é aquela casa, aquela sala de estar. É aquele medo insidioso de encarar a realidade. É a ilusão das histórias inventadas e repetidas. É um somatório de tomadas de consciência levianas porque logo esquecidas. Como aquele casal que se odeia e se ama. Que periodicamente discute se agride e desfaz. E refaz. E novamente desfaz.
A terminar a peça a mulher, Martha responde à pergunta do marido ‘Quem tem medo de Virginia Woolf?’:

-Eu.

Chegaram ao limite dos limites, estão destroçados e de mãos entrelaçadas.

Albee não dá pistas. Não sabemos se é o princípio da consciência de si, das suas limitações e fraquezas, do aceitar que o real pode ser duro mas é o que é. Ou se pelo contrário, é só mais uma pausa para um próximo ´round’ numa próxima noite de muitos copos bebidos.

E nós? Ilusão ou realidade? Aceitação ou negação? Conflito ou apaziguamento? Coragem ou debilidade?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

E você o que faria?



O que o senhor teria feito em meu lugar?



É a pergunta que ela faz ao juiz que a acusa.
A resposta poderia ser leviana e fácil: eu teria feito diferente.
 Mas nas respostas rápidas e descomprometedoras ninguém ousa ir dentro de si, esconjurar fantasmas e demónios para tentar descortinar como teria realmente sido se fosse consigo. Que coragem ou falta dela teria tido? Com que ética, com que moral teria agido? Com que valores, com que medos teria respondido?
Para a reflexão que quero fazer não interessa quem acusa, não interessa quem é acusada ou de quê (só na medida em que o que a origina são factos de um dos períodos mais negros da história da des -humanidade). Mas interessa colocar em perspectiva a crítica e o julgamento de forma abstracta e perguntar: o que faria eu naquela circunstância? O que faria eu naquele lugar? Interessa fazer um deslocamento do ponto seguro e inexpugnável onde se faz o julgamento para o ponto de todas as fragilidades. Interessa perceber que, com todas as consequências, a cada momento o ser humano faz o que pode e o que é capaz. Nem mais nem menos. O que acabo de escrever, nem sempre foi pacífico para mim. Houve tempo em que julguei que isso desresponsabilizava agressores, tiranos, assassinos. Na verdade não desresponsabiliza. As acções ficam com quem as pratica. E há instâncias para julgar e condenar. Muitas vezes as mesmas que antes ilibaram, é certo. Como no caso da Alemanha que carrega a culpa legislativa de aceitar o genocídio nas suas leis durante a guerra. Culpa moral ou culpa legislativa, problematiza o professor de Direito?
Estou a falar do filme ‘The reader’, que dividiu opiniões e gostos no ano da sua estreia no cinema e que em mim deixou forte impressão. E que ontem revi. E que novamente me impactou.
Quando acaba o filme, para além das possíveis comoções, para além de uma história que inevitavelmente vai ser esquecida, ficam perguntas, ficam reflexões.
Dá que pensar a que fins trágicos os caminhos da vergonha podem conduzir. Que sombras os segredos podem convocar. O que pequenos gestos, acções, ou a ausência deles podem mudar.
Dá para especular que, não fora a vergonha suprema de ser analfabeta e Hannah Schmitz poderia não ter sido envolvida nas malhas obscuras do dever, para ela inquestionável, de escolher a quem caberia, num ciclo repetível e interminável, a câmara de gás. Não fora ainda esse pudor viscoso e não teria fugido anos mais tarde à sua confrontação. E é ainda com a determinação fria e férrea de esconder esse segredo que aceita uma culpa, que essa não é dela, e a sujeita a uma condenação extrema. São duas as prisões que a enclausuram, desfeiam e envelhecem: a convencional, onde, julgada e condenada, vai parar e outra feita de grades de interdições, de fraquezas, de segredos e sufocos. Das duas liberta-se um pouco com uma vontade que lhe consegue o quase impossível: penetrar sozinha no mundo das palavras e das ideias. O que não chegará.

Antes os seus gestos e acções cegaram vidas devastaram almas. De forma irrecuperável. Até talvez a sua.

E fica no ar a pergunta dela:

O que teria feito em meu lugar?


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mais um ano na vida do Sr. Kontrol

Um som autoritário dita-lhe a urgência da manhã do primeiro dia de trabalho do novo ano. Estica as pernas ainda quentes como se empurrasse as paredes invisíveis do ano findo e, com três passos rápidos e decididos, entra na casa de banho da suite que ocupa sozinho. Depois de um duche rápido, neurónios invisíveis dão ordens aos braços que, como tenazes, seguram artefactos e tratam de branquear os dentes, os naturais e os implantes, barbeiam o rosto com estrita impecabilidade, fazem o risco na cabeleira com o rigor milimétrico do gel e perfumam a pele ainda húmida com a colónia comprada na perfumaria mais chique e mais cara da cidade. Um homem na sua posição não pode deixar nada ao acaso. Sobretudo depois de ter percebido, numa passagem fátua pelo ‘open space’ do escritório, um comentário quase inaudível sobre um cheiro a toranja podre. Ainda se virou para ver de onde vinha o atrevimento, mas já todos estavam de cabeça baixa e pretensamente ocupados nos afazeres próprios. Agora, ali sozinho, esse comentário insinua-se e força-o a uma dose suplementar de perfume. Corrói-o uma fragilidade e por momentos sente-se insignificante. Mas isso é questão de segundos e logo recupera a sua pose altiva.
Depois do pequeno-almoço faz três telefonemas: à secretária manda cancelar a agenda do dia; ao motorista ordena que venha imediatamente pois precisa que o leve à R. das Flores. O terceiro, numa voz melosa e simulada, termina num pedido que não dá margem para escusa. Diz-lhe que precisa de a ver e pronto. Os débeis protestos dela de tenho uma reunião vencidos pela subtil manipulação dele então eu já não sou importante, olha que ficas sem me ver durante semanas.
Após uma passagem rápida pela R. das Flores, recompõe o risco do penteado, entra de novo no BM prateado e vai até ao Clube finalizar um assunto em suspenso desde a semana passada. Irrita-o o facto de saber que se não for ele a marcar o passo, o marasmo toma conta da direcção e o convite ao ministro fica na gaveta por falta de ousadia. Ao almoço, num restaurante fino e caro telefona ao filho, então como vai a escola e, já gritando, tu não brincas comigo, ameaça: olha que te corto a mesada.
Vai até ao escritório. Toma decisões arbitrárias contrariando as opiniões dos sócios na última reunião plenária. À noite depois do jantar, telefona à ex-mulher para lhe dizer que com o dinheiro que lhe dá ela tem obrigação de educar melhor o filho. Que a torneira se fechou e que no verão não vai haver férias para ninguém.
Se calhar para ti também não, é o que faz supor um silencioso olhar de ferro na direcção do lugar da mesa oposto ao seu. Estala-lhe na boca o último trago do conhaque aquecido e com um seco até amanhã caia de desesperança gélida o corpo que todo o dia se preparara para o receber.
O silêncio dos lençóis de linho ainda quer segredar-lhe a sua pequenez moral mas os tampões que coloca nos ouvidos protegem-no de semelhante aleivosia e garantem-lhe mais um ano de glória.