Who´s Afraid of the Big Bad Woolf?
Assim cantavam com arrogante displicência dois dos porquinhos no filme de animação "The Three Little Pigs" de Walt Disney, crentes que as suas frágeis casas de palha e galhos os haveriam de proteger das garras e dos dentes afiados do lobo mau.
Edward Albee inspira-se nessa canção e intitula a sua magnífica peça de teatro jogando com um trocadilho:
Who´s afraid of Virginia Woolf?
Numa casa, numa sala, um casal de meia- idade. Duas pessoas iludem o medo que têm do lobo mau. O medo que têm da realidade tal como ela é. O medo que têm de viver sem ilusões. O medo que têm de enfrentar os seus fantasmas, os seus demónios. O medo que têm de ver a nu as suas tristezas e frustrações. O medo que têm de olhar para dentro deles e já nada encontrarem. O medo de que o ódio seja já maior que o amor. E iludem esse gigantesco medo agredindo-se mutuamente em confrontos verbais sem qualquer pudor perante um jovem e inexperiente casal que os acompanha numa noitada de bebida depois de uma festa. E humilham-se sem piedade. E jogam jogos perigosos onde se expõem segredos, desilusões numa mistura de mentira e verdade.
Ao longo desta peça, em cena no Teatro D. Maria, vivi duas horas e meia em que os actores me deixaram sem fôlego emotivo tal é a intensidade que põem nos diálogos. E houve momentos em que na plateia se soltavam risos nervosos. E não pude deixar de perceber que as pessoas (e também eu) descomprimiam algum mal-estar e deixavam as suas sombras virem ao de cima, reflexos dos espelhos que se movimentavam no palco.
E não pude deixar de reflectir que frequentemente a vida do comum dos mortais é aquela casa, aquela sala de estar. É aquele medo insidioso de encarar a realidade. É a ilusão das histórias inventadas e repetidas. É um somatório de tomadas de consciência levianas porque logo esquecidas. Como aquele casal que se odeia e se ama. Que periodicamente discute se agride e desfaz. E refaz. E novamente desfaz.
A terminar a peça a mulher, Martha responde à pergunta do marido ‘Quem tem medo de Virginia Woolf?’:
-Eu.
Chegaram ao limite dos limites, estão destroçados e de mãos entrelaçadas.
Albee não dá pistas. Não sabemos se é o princípio da consciência de si, das suas limitações e fraquezas, do aceitar que o real pode ser duro mas é o que é. Ou se pelo contrário, é só mais uma pausa para um próximo ´round’ numa próxima noite de muitos copos bebidos.
E nós? Ilusão ou realidade? Aceitação ou negação? Conflito ou apaziguamento? Coragem ou debilidade?


