SETEMBRO A DESFOLHAR-SE
Eu gostava que não fosse assim. Eu gostava de já ter integrado todo o saber que a roda do ano encerra no seu ciclo de eterno fim e recomeço. Eu gostava de me despedir de vez da melancolia que o Setembro sempre me trouxe e que este particular Setembro reaviva em memórias de carne exposta. Eu gostava de não vibrar nesta sensação de perda quando o verão se aproxima do fim, se não no calendário, quase sempre na Natureza e na minha natureza também. Às vezes penso que terá sido por ter nascido no Verão e se não será um desejo atávico de não perder o útero, o ninho, o colo, o cuidado de alguém.
Nos anos da minha adolescência
ouvi uma belíssima canção/poema ao mês de Setembro que tocou as franjas do meu
ser interno e que sempre retornava a mim nos dias que ditavam o aproximar do fim
de tudo que simbolizava a partida do verão. Muitas vezes cantarolei os seus
versos estranha e visceralmente sentindo-os meus e sempre a arrancarem-me
saudades infinitas e indefinidas que o decorrer dos anos adensaria numa
perplexidade sem compreensão nem nome.
Depois houve um tempo em que
me julguei imune à melancolia do Setembro e me julguei pacificada com as
diferentes manifestações, ofertas e colheitas externas e internas que a roda do
ano me oferecia.
Só que não.
Hoje quis de novo relembrar
esse poema. E não, não veio sincronicamente ter comigo. Procurei-o. A net é boa
nisto.
Setembro desfolhou-se
Numa agonia lenta
Com o seu fato de
troncos
Entre os dedos do vento
Tons vermelhos
dispersos
Na calma dos poentes
Eram lábios perdidos
Que sugeriam beijos
Eu esperava Setembro
Para voltar a ver-te
Para voltar a dar-te
Os sonhos que eram
nossos
Vestida de esperança
E de alma enamorada
Eu esperava Setembro
Para voltar a ver-te
Setembro chegou
Vestindo flores
silvestres
Com as frutas maduras
Nos braços nus agrestes
Por todos os caminhos
Te procurei sem ver-te
Os meus passos errantes
Na terra perfumada
Eu esperava Setembro
Para voltar a ver-te
Mas tanto procurei
Que dei por mim sozinha
Setembro desfolhou-se
No silêncio das tardes
Entre os dedos do vento
O meu amor desfeito
Percebi, talvez, o que a mágoa do Setembro representa. É simultaneamente literal e simbólico.
É o contacto com a consciência
de que quiçá tenha vindo para não viver o que era suposto viver que me apanha a
cada Setembro e que o rodar dos meses que
se lhe seguem acaba por diluir nas franjas de outras consciências.
IC 14 Setembro 2021

