domingo, 18 de dezembro de 2011

Restless, ou a vida é muito curta para ser desperdiçada





Two of us riding nowhere
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We're on our way home
We're going home
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You and I have memories
Longer than the road that stretches out ahead




O filme começa assim com esta canção dos Beatles. Os ‘dois’ são dois adolescentes. Ele, Enoch, sobrevivente de um acidente que lhe levou os pais e o deixou a ele em coma por meses. Ela, Annabel, uma jovem com um cancro em fase terminal. Ele, um rebelde sem causa a não saber lidar com a perda e a viver uma depressão mórbida que o leva a frequentar velórios e funerais de desconhecidos. Ela, interessada em aves e insectos e admiradora de Darwin, preparada para tudo e disposta a viver com bom humor e inteligência até ao fim.
Conhecem-se num funeral. Ele como penetra. Ela como amiga do rapaz que morreu. Quase sem dar por isso, Enoch torna-se-lhe o parceiro da sua breve e última viagem e ambos vão viver uma intensa e delicada história de amor.
Morte não é tabu. Menos para ela do que para ele. Pelo caminho ele ainda cai na desesperança descontrolada,  como quando ‘ensaiam’ a morte dela numa glosa de Romeu e Julieta ou como quando quase é expulso do consultório do médico de Annabel.
Mais do que uma história sobre morrer, é uma história sobre viver. Sobre viver enquanto se pode e como se pode: com zangas, divertimento e sensibilidade. É um filme com silêncios. Silêncios não depressivos nem opressivos. Silêncios de olhares e gestos.
Simultaneamente é um filme sobre aprender a viver sem. Aprendizagem proposta a qualquer um de nós através da personagem Enoch. Nesse sentido pode-se dizer que Annabel é quem o salva porque o ensina como um mestre deve fazer: com a sua acção, com a sua atitude. Ela já sabe. Comenta a sua doença e a sua morte com desprendimento, não um desprendimento de fuga ou negação, mas antes com desapego salutar de alguém que, sem o saber, conhece o princípio e o fim.
Sabemos que ele aprendeu, quando no funeral dela vai a o microfone e o que lhe vemos não são palavras de elogio fúnebre mas um sorriso e um olhar deslumbrado. Lemos-lhe os pensamentos e vemos-lhe as imagens na cabeça de momentos com ela a amar e a rir, a fazer tudo o que os jovens fazem.

We're on our way home
We're going home

E cada um faz um regresso à sua casa.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A idade dos anos


Não sei o que foi que me lembrou dela. Mas com a lembrança veio o sentir dos tantos anos que passaram depois que a ouvi, teria eu para aí uns seis anos, responder à filha com uma comoção subitamente esperançada no olhar: já lá não vais? Ora não, não vais, acrescentava meio desconfiada do sortilégio das palavras ‘já lá não vou’. O seu desconhecimento das diferentes geografias e de que os rigores do clima se manifestavam mais cedo no continente longínquo onde o genro esperava a filha, misturado a uma patética esperança, confundiu-lhe as palavras espantadas que a sua Lídia lhe gritou numa pausa da leitura da carta que acabara de receber: ‘já lá nevou’. No meio das explicações, como se lhes entendesse o sentido mas não lhes quisesse a realidade, lembro, como se fosse hoje, os seus braços encurvados a caírem-lhe ao longo do avental preto de viúva como se à procura do conforto nos bolsos e o seu olhar outra vez conformado com a inevitabilidade da separação. Acho que ela nunca recuperou do afastamento de tantos milhares de quilómetros e nunca perdoou ao oceano, que nunca viu, não ter obrigado a filha a cumprir o que prometera. Daqui a um ou dois anos venho cá, dissera-lhe ela nas lágrimas da despedida e num abraço que a tolheu de fragilidade. Mas os anos a passarem e a vida a fazer-se lá longe, longe. Sem pontas a unir as duas vidas a não ser as ocasionais cartas que o carteiro lhe trazia. Quando vinham gordas traziam fotografias de uma casa muito diferente da dela, de meninas com vestidos de rendas e tules e laçarotes na cabeça. Mostrava-as, orgulhosa, às vizinhas e amigas: são as filhas da minha Lídia, qualquer dia vêm cá. Nos dias do estio quando dava conta de um ruído nas alturas, lá em cima no azul do céu, a desenhar estradas fininhas que se punham largas à medida que se desfaziam e diluíam no branco esfiapado das nuvens, erguia o olhar pedinte. Como a querer decifrar ou unir caminhos. À minha avó restou-lhe o filho mais velho, que esse nunca a abandonaria. E também os netos e netas, filhos e filhas dele e da nora, que a cuidava como se sua mãe fosse. Um dia acreditou que já não era necessária, julgou que não prestava, que era uma velha inútil. Foi quando a escusaram de ajuda na cozinha por ela já confundir os alhos com as cebolas e só aproveitar meia batata porque lhe tirava grossa a casca. Mas para mim ela não era uma velha. Era a avó que sorria, que me dava ternuras de rebuçados escondidos e que me chamava pelo nome próprio inteiro.
Gostava de gatos e de plantas e os gatos e as plantas gostavam dela. Na sua sala grande, entre os poucos móveis reinavam altivas colunas de madeira coroadas com vasos de viçosas begónias, espargos quase a chegar ao chão e avencas de um verde tão verde como nunca vi outro. No jardim atrás da casa eram realeza os goivos, as cravinetas, as hortenses, os crisântemos e os brincos de princesa.
Foi ela quem me ensinou a gostar de figos com pão nos lanches que fazíamos debaixo da figueira no quintal. Depois ensinou-me que as uvas das latadas eram as primeiras a pintar e a ficarem boas para comer. Incentivou-me a subir às cerejeiras. A fazer colares, pulseiras, brincos e anéis com os pés de cerejas entrelaçados de vermelho vivo, escuro ou amarelado a que nós chamávamos de branco. Também me quis ensinar que nem todas as partes do corpo são inocentes, que de algumas as meninas devem ter vergonha. Baixa o vestido, olha que nas pequenas os homens vêem as grandes, dizia-me ela quando eu, deitada no chão, fazia o pino junto a uma parede. Reproduzia o que ouviu à mãe dela ou talvez à avó, quem sabe. Confinada ao pequeno mundo de duas aldeias nunca questionou a verdade do que lhe foi dito. Tomava café fraco de cevada e, de manhã preparava-me uma tigela de leite pingado com sopas de pão. Era no tempo em que dormia na casa dela para lhe fazer companhia. Nessa altura ela ainda não precisava de ir tomar todas as refeições a casa do filho. A sua cabeça funcionava perfeita nas conexões que estabelecia e não tinha brancas na memória. Ainda não regressara ao tempo da infância. Ainda não se escapava e nos deixava aflitos. Quando isso começou a acontecer e a encontrávamos, sorria-nos, cândida, e dizia que andava à procura dos irmãos pequenos, que a mãe assim lho pedira. Nessa altura também ainda não perguntava ao filho: viu por aí o meu filho, há dias que não sei nada dele. Com voz calma de paciência sofrida eu ouvia-o responder: sou eu mãe, o seu filho. Fui, no seu tempo final, uma espécie de dama de companhia. Dava-lhe o lanche e ficava com ela na sombra da tarde não fosse ela perder-se nas lembranças dos irmãos, da casa e da terra onde se criou e viveu até casar. Essas horas eram roubadas à brincadeira e eu ressentia-me com isso. Parecia-me que estava a viver o mundo ao contrário.
Foi no Inverno. Sem os estertores a que a minha imaginação de garota associava o momento da morte, ela deixou de respirar. Só isso. Como um passarinho comentaram depois as pessoas da aldeia. Foi perdendo as forças, já sem se levantar da cama, já só a tomar alimentos líquidos que tantas vezes lhe fiz chegar à boca pelo bico de um copo. E no último dia, um dia particularmente frio de Novembro ou Dezembro, já não lembro bem, o meu pai antes de ir para o trabalho encheu duas botijas com água quente, colocou-as amorosamente na cama dela e virando-se para o meu irmão e para mim entregou-nos a sua responsabilidade: mantenham-na quente, tomem bem conta dela.
Na hora que separa a tarde da noite, vi o que não poderia ter visto. O filho dela a soluçar desamparado como fazem as crianças.
Tantos anos. E a vida aconteceu. Tantos dias de esquecimento. E hoje sinto todos os anos que passaram. Talvez pela aproximação do Natal e a forma como ela me acordava, me estendia um sorriso e me levava a espreitar os presentes que o menino me deixara junto à lareira.

sábado, 3 de dezembro de 2011

A cerimónia






Não me lembro bem quando ambos decidimos que seria assim. Talvez tenha sido quando ela veio aqui parar e foi ficando até já não ser possível regressar. Regressar a nada depois de te conhecer, costumava ela dizer-me.

 Aquilo ali era quase um deserto de tanto que o calor tinha queimado a pouca vida vegetal do estio. Havia dias, por sorte poucos, em que o ar pesado e suspenso parecia não ter forças para se mexer. E o tempo parava também. O relógio segurava os ponteiros e nenhum homem, mulher, cão, gato ou bicho respirava. Momentaneamente todos entravam em estado de estivação.

Pelo canto rouco de secura do galo, adivinhei as horas. Horas de me levantar que hoje tudo tem que ser feito com tempo. O tempo que os rituais pedem. Ontem retirei do fundo escasso do poço, água suficiente para o banho de ambos. À conta disso as couves ficaram sem rega, mas também não é todos os dias que um homem se casa. E quero que ela volte a perder-se no meu corpo. Quero embriagá-la de cheiro e de saudade.

Enquanto se ensaboava com o sabonete de sândalo que ela lhe oferecera, sentiu em cada centímetro do seu corpo a longa espera pelo corpo dela. Desde que se tinham decidido pelo casamento, ela resguardara-se, mudara-se para o quarto pequeno dos fundos e negara-lhe qualquer avanço exigindo-lhe um afastamento do seu corpo que ele não compreendia. Tudo lhe dera e tudo lhe negava. Consentia-lhe apenas uns beijos fugidos. Ficaria assim mais sacralizado, justificava-se ela.

O sol derrete-se-me na pele. De tão escanhoada, parece que me rebenta de lisura. Está macia como ela gosta. Sem nenhum atrito passeará pela dela, num afago que durará a nossa eternidade.

A fogueira do sol começava a colar-lhe ao corpo a camisa de linho branco que ele acabara de vestir há pouco. Esticara-a com o ferro de brasas durante uma boa parte da manhã. Ficara um brinco, lisa e sem qualquer vinco. Pôs a gravata que o pai lhe deixara e cujo nó mantinha sempre feito pois receava não ser capaz de o refazer. Por cima, o casaco que comprara na feira, havia uns três anos, a pensar numa ocasião especial. Já vestido, uma súbita inquietação segurou-lhe a voz e desajeitou-lhe os movimentos. E num momento o dia foi a vida. E sentiu que era já um homem.

Uma mistura de sensações anunciam-ma. Consigo cheirar a suavidade com que vem, ver o sabor de que é feita e ouvir a cor com que se enfeita. Viro-me e ei-la. Em pé, como se sempre ali tivesse estado. À minha espera. Como a Terra. Ela parece, ela é o espírito deste lugar. Queimada de fogo, ostenta as curvas redondas da Terra, guarda no oceano do corpo os mistérios da lua e oferece-se numa dádiva de vapores raros. E eu numa ânsia de poder cuidá-la e fecundá-la.


Quando calcularam ser meio-dia, deram-se as mãos e, de pés descalços, mergulharam na terra barrenta e fervente e sentiram nas pernas o restolhar das ervas secas. Ainda ouviram o mugir longínquo da manada. Com o sol a pique, olharam-se e perderam-se no olhar. Era o momento de sombra zero. Uma brisa cálida festejou com eles aquela sublime união. Ambos juraram e fizeram ali o amor que sabiam, enquanto mil sóis explodiam uma trovoada de luz.