terça-feira, 31 de julho de 2012

Sema, a mulher



Demoro em Sema o meu olhar.

Os sulcos suaves que lhe riscam o cetim moreno da pele madura e o olhar terno, resignado e doce falam de aceitação e de sonhos serenos. Os lábios grossos estendem sorrisos tímidos, prometedores como os da adolescente que, silenciosamente, os entrega à mãe da vida e lhe confia o seu caminho.

Como se não tivesse cinquenta e cinco anos. Como se não tivesse na alma as marcas do destrato. Como se o seu corpo nunca tivesse sentido o peso de uma mão desapiedada. Como se os cinco filhos que criou fossem só fonte de alegrias.

Sentada num banco de uma escola ao ar livre, pousa o olhar em frente sem o fixar em nada concreto. O som das palavras da professora europeia que lhes ensina, a ela e a outras mulheres, a perceber o mundo para lá das paliçadas das suas aldeias, vai-se afastando devagarinho e esmorece nas memórias do esquecimento.

Pensa no seu pai, o conselheiro da aldeia. Na sua autoridade inquestionável de intermediário entre mundos. Na sua sabedoria de intérprete dos sinais divinos. Pensa na sua mãe que durante toda a sua vida o serviu. Que lhe colheu as ervas, que lhe cozinhou as mezinhas. E vem-lhe uma memória que não sabe se é dela. A memória de um tempo de igualdade entre os sexos em que as mulheres, proporcionadoras da vida e guardadoras de mistérios sagrados, eram respeitadas e ouvidas.

A memória de um tempo em que Deus era mulher.

Por momentos parece-lhe ouvir o som do princípio de tudo: o rumorejar cintilante de partículas de fogo, o silencioso nascer das estrelas, o troar das galáxias, o descolar dos planetas duma massa informe e gigantesca a deslizarem sob chuva de luz e som e a ocuparem o seu lugar no espaço.
Pareceu-lhe ouvir um embate e, com o choque, o som líquido da TERRA. Um som que cheirava.

Um cheiro de alfazema a correr desertos, montanhas, lagos e planícies.

Foi de alfazema o ramo com que se perfumou no dia em que se prometeu a Kitur, o jovem caçador que dizia querer com ela juntar a alma. E todos os segundos dos dias doravante foram de perfumes trazidos por ele, para ela, no final de cada caçada até ao dia em que dele só chegou o cheiro de sangue amargo da sua morte. Tão menina e sem tempo para ter tido filhos, sentiu-se viúva dele e de si.

Ali sentada no banco da escola ao ar livre, entre memórias de um passado que já foi e de sonhos de um futuro que ainda não é, Sema sente-se liberta para resgatar a sua totalidade.  

E, olhando-a, consigo ver nela sementes de uma nova história, de um novo percurso.