segunda-feira, 28 de março de 2011

O bardo



O prolongado almoço e o calor fizeram-me cair numa sonolência lânguida. Sentei-me à sombra da cerejeira do jardim e as pálpebras cederam ao peso do que pareciam séculos sem descanso.
Senti-me resvalar por um túnel escuro, com uma inclinação profunda e acentuada. O meu corpo tornara-se leve, tão leve como a pétala que acabara de me cair na face e eu ia deslizando como se flutuasse numa onda de vento e luz.
O que parecia não ter fim, por fim parou.
Quis perceber onde estava mas não conseguia distinguir fosse o que fosse. Parecia que tinha penetrado no breu da eternidade. Usei as mãos para me situar e percebi que tinha acabado de transpor uma porta larga e pesada ladeada por grossos reposteiros de veludo, como nos castelos e palácios de outrora. As paredes eram de pedra nua, húmida e áspera. Tropecei e caí de bruços sobre um tapete macio de lã bem cardada. Ao tentar levantar-me, segurei o que depois percebi ser uma fina toalha que cobria um mesa grande e redonda preparada para um banquete.
Comecei a ouvir vozes que se aproximavam cada vez mais. Escondi-me debaixo da mesa e senti o odor do fumo das tochas que os criados transportavam para iluminar o salão. As portas abriram-se e uma luminosidade bruxuleante foi clareando as sombras à medida que as tochas eram colocadas em lugares estratégicos. Seguiram-se passos sem conta. Uns, pesados e seguros como de quem carrega o mundo ou tem a missão de o defender. Outros, mais leves e saltitantes, certamente das damas que, entre risos e comentários alegres sobre as cores resplandecentes dos vestidos, dos artísticos penteados em trança e das fitas de seda que os enfeitavam, procuravam os seus lugares à volta da mesa seguindo as indicações de uma voz que, apesar de denotar autoridade, era ao mesmo tempo afável e brincalhona. Percebi que o homem  a quem essa voz pertencia era o centro das atenções e das conversas dos cavaleiros que ia sentando à sua volta por grau de parentesco e intimidade. A todos brindava com um comentário de apreço e de afabilidade.
A um sinal sonoro, começou um desfile de criados servindo iguarias delicadas. Misturavam-se os cheiros do alecrim no peixe assado, os do tomilho nas diferentes peças de carne de veado, porco e novilho com as conversas sobre estratégias de combate aos ferozes homens do Norte que uma vez mais perigavam a paz, a ordem e a lei que o amado rei conseguira estabelecer na Bretanha. Sobressaía ainda um cheiro forte a pão recém-cozido e a bolo de mel. A cerveja de cevada e o vinho estavam a devolver um tom ligeiro à conversa e tinham começado a circular tacinhas com água perfumada com pétalas de rosa para os convidados lavarem as mãos, quando, de repente, o salão silenciou  aos primeiros acordes enfeitiçadores de uma harpa e da voz rica, doce e forte de um bardo.
E, como por sortilégio, eu tinha deixado de ser a testemunha silenciosa debaixo da mesa. Era agora o bardo e dedilhava e cantava poemas de amor, de conquistas, lendas de deusas, druídas, florestas e mistérios.
Ao entreabrir os olhos sob o manto rosa das flores da cerejeira, sentia ainda nos dedos o suave roçar das cordas da harpa e ressoavam-me, mansas, as últimas notas. Uma memória antiga insinuava-se-me tomando forma, para logo se desvanecer na bruma do esquecimento.

segunda-feira, 14 de março de 2011

«o importante não é o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós» Jean-Paul Sartre



Não há quem goste de se sentir culpado, acusado, responsabilizado. Culpa-se, de forma genérica, a vida. E, de forma mais concreta, as condições físicas e psicológicas, as circunstâncias sociais, políticas e económicas.
Não sou culpado, é o primeiro grito de protesto de quem se sente acossado e que, genuinamente, se acredita fora do raio de responsabilidade pelas suas falências, actos e enganos. E apressa-se nas justificações que lhe parecem reais:
E, invariavelmente, a culpa recai na educação que os pais deram ou não deram; na infância infeliz; no pai tirano; na mãe permissiva; nas excessivas facilidades; nas condições precárias; no abuso autoritário dos superiores (pais, professores, patrões); numa qualquer incontrolável paixão; nos costumes estabelecidos; nas circunstâncias...

...a culpa .... a culpa... a culpa...

Subsiste uma eterna necessidade de deslocar a responsabilidade para alguém ou alguma circunstância. Transferimos de bom grado para outrem a causa das nossas carências, inseguranças, desconfortos, mágoas, irritações.
Se não fossem os outros (o governante, o patrão, o cônjuge, o vizinho, o colega, o irmão...) talvez eu tivesse paz. Se eles se comportassem de outra forma a minha vida poderia ser o céu!
Na verdade, o “outro” somos sempre nós. O problema que projectamos no outro mora já dentro de nós.
Como na simbologia daquela mulher que olhava através do vidro da  janela da sua sala e via as roupas mal lavadas da vizinha da frente. Criticava com comentários maldosos o seu pouco asseio. Até ao dia em que lavou a sua própria janela e, com espanto, percebeu que as roupas da vizinha estavam impecavelmente lavadas.
É com enorme facilidade que transferimos para o outro o nosso inferno pessoal e não admitimos que os nossos infortúnios são de responsabilidade nossa. É mais cómodo colocar a solução no outro ou num milagre que nos dispense de ser parte actuante na resolução de problemas. Dessa forma criamos mecanismos de defesa como a negação e a projecção, que nos ajudam a sobreviver, mas que estão longe de nos fazer pessoas felizes.

Como podemos secar este terreno pantanoso onde se atolam as nossas acusações, culpas e medos? Como podemos sair deste ciclo vicioso, tão fortemente instalado no inconsciente individual e colectivo?

Podemos talvez começar por assumir o 100% de responsabilidade da nossa vida. Ser responsável não significa ser culpado de nada, significa responder por algo, em última instância por nós mesmos e as nossas escolhas.
Assumir 100% de responsabilidade não é simplesmente inverter a equação e virar a culpa sobre nós, mas sim  entender que aquilo que vemos acontecer fora de nós é a projecção de uma realidade que está dentro. Que a forma como julgamos os outros e o mundo é um reflexo exacto do nosso interior. Como podemos, por exemplo, ver a limpeza através de uma janela suja? Como podemos sentir a harmonia e a beleza quando na nossa vida tudo nos parece feio e fora do lugar? Como podemos viver a abundância se em nós tudo ressoa a carência? Como podemos perceber a paz lá fora quando há uma guerra surda no nosso interior que nos grita sentimentos de frustração e ira pela falta disto e daqueloutro, pela falência do amor, pelas nossas  incapacidades e  pouco merecimento?
Assumir 100% de responsabilidade não significa, de todo, vitimizar-se. Significa conhecer-se e transformar-se. Sair do consolo fictício do conhecido. Arriscar e sair da zona de conforto. Começar a agir a nosso favor fazendo coisas de que gostamos. Abandonar aquilo que nunca nos fez ou já deixou de nos fazer sentido. Dizer não quando queremos dizer não. Deixar de dizer não quando queremos dizer sim.
Tivemos a nossa primeira experiência de saída da zona de conforto aquando do nosso nascimento. E continuamos  a ter a liberdade para o fazer de novo. Ainda que isso nos assuste. O mundo está cá para nós como quando resolvemos sair da protecção do útero materno. Ainda temos a capacidade de ser corajosos. De começar por fazer a nossa revolução interior. O  importante não é o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós.

Porque de repente a vida passou. Hoje temos 20, amanhã 30, 40, 50, 60, 70 anos.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Ana e as circunstâncias


“Eu sou eu e a minha circunstância. Se não a salvo a ela, não me salvo a mim” José Ortega y Gasset


Versão A: Eu sou eu e a minha circunstância

 No minúsculo apartamento, Ana e Bernardo discutem.  Ana tenta segurar, em réplicas magoadas, as setas venenosas de Bernardo. Tudo porque ainda não conseguira habituar-se a medir as palavras nem a espontaneidade dos gestos. 

melhor fora que não aprendesse...

Naquela tarde, ao aceitar sem hesitação o convite do Luís para dar uma volta na sua lambreta nova, deixando-o a ele postado no passeio, dera-lhe o pretexto para mais uma cena. No calor da discussão, em sua defesa, Ana ainda considera objectar os ridículos argumentos dele, mas decide que não vale a pena. 

ainda se isso fosse mudar alguma coisa...

Senta-se e espera. Haveria de lhe passar.
A espera agita-se, os pensamentos descontrolam-se e, aparentemente vinda do nada, começa a surgir-lhe na mente a imagem de Andries, o amigo holandês que conhecera no Outono passado e é como se ele estivesse ali. Quase que sente um roçagar  de caracóis na cara, quase que desfalece a um olhar azul, travesso e insistente, quase que cheira uma respiração sussurrada e, nas cordas de uma guitarra, ecoa, num lamento, a súplica de Jacques Brel “ne me quitte pas”.  
O telefone toca, interrompendo o silêncio furioso que entretanto se instalara na sala.
– Não vais atender? - pergunta Bernardo de mau humor.
Ana fica muda de pressentimentos que lhe ruborizam a cara e lhe gelam o sangue. As pernas tremem-lhe e não sabe bem porquê. Um pensamento agudo atravessa-a. E se for ele? Ele prometera vir.
– Vais, ou não vais atender? - vociferou Bernardo.
-- Tem calma, vou já.
Vacila-lhe a vontade mas decide-se e, em movimentos lentos, abandona o macio assento e caminha até ao extremo da sala onde está o telefone. Os seus passos ressoam no soalho nu, inquietos e receosos.
Num minuto de muitas inquietações, pega no auscultador com a mão pesada e o coração suspenso na respiração acelerada a pedir interiormente que não fosse ele. E ela que desejara tanto este telefonema. Antes do Bernardo.

 ainda se ele não estivesse ali...

– Hello...Ana?
Era a voz dele do outro lado da linha. Sacudindo o afago, que de tão suave lhe magoava a alma, com voz emprestada e quase inaudível, Ana responde-lhe que quem ele procura já ali não vive. Mudara-se e… não, não tem o contacto. Desliga rápido não vá  denunciar-se pela voz.
No instante que se segue, um silêncio pesado deposita na sua alma o vazio irreversível. Num gesto de sobrevivência recentemente aprendida, Ana procura recompor-se e, antecipando as perguntas que o olhar afiado de Bernardo lhe dirige, esclarece que era um estrangeiro à procura da última inquilina do apartamento.

Se ao menos não fosse tão fraca...

 E, naquele momento, soube que cortara um fio, talvez mestre, da trama invisível da sua existência. Se não, porque sentiria aquela ferroada no peito e as lágrimas a magoarem-lhe os olhos na força estéril de as conter? E deu-se conta que um rio se formava fora dela, abria caminho e se afastava. Separado.

Versão B: Se não a salvo a ela, não me salvo a mim

Naquele final de tarde ameno, Ana deixou-se vencer pela investida da frescura no rosto e no corpo ao vento. Bem agarrada ao Luís para não cair, balouçava o corpo ao sabor das inclinações da lambreta nas voltas e reviravoltas da avenida. Sem capacete, o cabelo comprido quase tocava o asfalto quando curvaram fechado na pequena rotunda. Depois de uma veloz descida até ao Rato e  um homicida ultrapassar  dos carros que subiam a Pedro Álvares Cabral, ali estava ela radiante junto do Bernardo que, com ar carrancudo, a esperava no passeio. O brilho novo da lambreta tornara o convite do Luís irresistível e, mau grado saber que iria aturar uma cena de ciúmes, Ana lançou-se na pequena aventura daquele desejo ardente que a consumia desde que vira o mítico “Easy Rider”.
Já em casa, na atmosfera pesada da pequena sala, o ar ameaçava faltar. Bernardo, sentado numa cadeira, de olhos postos no chão e mãos fincadas nos joelhos, estava mergulhado num silêncio perturbador. De repente, levantou-se, fez uma pausa  breve como que para encurtar as palavras e disparou:
- Sabes que não gosto que andes agarrada a outros. Mas que papel estúpido  o meu, ali especado no passeio da rua, enquanto vocês dois se passeavam e riam como dois inconsequentes. Calculo que no teu delírio juvenil te imaginaste nos braços do Fonda, não? – ironizou, malévolo, num esgar de mofa.
Ana sabia que não valia a pena justificar-se ou contrapor fosse o que fosse. Não vivia com ele há muito, mas era já o suficiente para saber que, o quer que fosse dito naquele momento, só serviria para esbrasear uma discussão mortificadora e sem sentido. Começava a questionar-se seriamente sobre a viabilidade da relação deles, pois o ciúme incontrolável de Bernardo acendia nele sentimentos obscuros de uma possessividade assustadora, que contradiziam e apagavam qualquer momento de ternura clara. Chegava mesmo a haver alturas em que a violência das suas palavras a intimidava.
Ana sentia-se cansada e, em jeito de querer mergulhar num letargo profundo que a afastasse daquele sentir incómodo, deixou-se cair na única poltrona da sala, com a ausência instalada no olhar. Como num sonho, começaram a desfilar imagens soltas, caóticas e sem sentido perante o seu olhar vítreo. Aos poucos, esse turbilhão de estímulos visuais foi-se fixando na imagem velada  de uma casa vitoriana, convertida em hostel, numa rua londrina, vulgar. Nas escadas, algumas pessoas de contornos também indistintos. Do meio delas emergia, claramente definido, o Andries que acordava nas cordas da sua guitarra caprichosas melodias. No espanto de uma reviravolta repentina, viu-se a si e a ele aos pés da estátua de Eros, em Piccadilly Circus, e quase que sentia a acalmia inquieta no seu olhar aquático, a macieza encaracolada no seu cabelo de seara madura, e o calor da sua respiração no sussurrar de um queixume:   “ne me quitte pas”. Sentiu-se tomada por uma aflição opressiva que lhe fez saltar o peito em desassossegos abafados e inquietos.
Enquanto os passos arrastados de Bernardo se faziam ouvir no soalho nu da pequena divisão, o telefone tocou. Ana sobressaltou-se mas não reconheceu a proveniência do ruído insistente. Só a voz rude de Bernardo a chamou à realidade:
- Não vais atender?
Bernardo sempre tivera a mania de não atender o telefone quando Ana estava em casa e, quantas vezes, isso não fora já motivo de discussões e zangas. Mas desta feita, Ana, sabe-se lá porquê, queria ser ela a receber a voz do outro lado da linha. Por momentos desejou que fosse o Andries. Afinal ele prometera vir a Lisboa. Mas não, que tolice, já tinha passado quase um ano e ele não viera. Devia ser a Joana ou o António, com quem tinham combinado sair naquela noite.
Hesitante, Ana balbuciou:
 - Estou, és tu Joana?
Ao som da voz do outro lado, as pernas de Ana vacilaram mas, endireitando-se, dominou as garras que teimavam sufocar-lhe a garganta e respondeu num tom quase perceptível:
- Hello. Yes, it’s me. Of course I’ll meet you there.