Tarde adiantada no relógio das
horas mas ainda criança no desejo pueril de sentir a natureza. Os pés a adivinharem
caminho no meio de campos ainda de chão verde semeado de pedras, alfarrobeiras,
árvores outras e arbustos vários. O ar quente mas não demasiado.
Algum caminho feito e os pés,
inequivocamente, transmitiram a todo o corpo que algo tinha mudado. Uma
diferença no acolhimento que a terra me fazia. A macieza do chão, acolchoado por
camadas sobrepostas de folhas de várias gerações, literalmente comunicou um
convite a “enterrar-me”, a deixar-me ir, a aprofundar as minhas raízes (que as
tenho) nela. E foi o que fiz. Imaginei filamentos de raízes a saírem de mim, dos
meus genitais, das plantas dos meus pés a adentrarem-se pelo chão, a
aprofundarem-se, a percorrerem caminhos subterrâneos de terra, jazidas e
lençóis de água até se unirem a algo magnético que me aguardava e segurava e
nutria.
Continuei nesse caminhar íntimo
de ligação e o corpo ia-se enchendo de um reconhecimento conhecido. E à minha
frente, trás, esquerda e direita oliveiras e mais oliveiras. Olhava-as e
reconhecia-as de um tempo tão lá para trás. Olhava-as e nelas afiguravam-se-me
figuras femininas. Penteadas e desgrenhadas. Nuas e vestidas. Ásperas e macias.
Seios túrgidos e seios descaídos. Expondo-se. Expondo a sua beleza, as suas
feridas, as suas mutilações, a sua história, a sua vulnerabilidade. Tantos úteros
maduros, tantas vulvas abertas. Tantas marcas de uma feminilidade sagrada.
Mulheres jovens, mulheres mães
mas, sobretudo, velhas sábias.
Foi quando uma azinheira de porte
alto e majestoso me encarou e me forçou também o olhar.
Via-a como um Ent guardião, capaz
de se arrancar das suas raízes, de arrastar a sua imensidão, de revolver a
terra, de sacudir os ramos e de agitar as folhas num remoinho guerreiro para proteger
o que guardava.
Viro-me e, frente a ela, uma
pequena e velhíssima oliveira. Humilde na estatura frágil, grandiosa no porte
sábio. Símbolo da polaridade esquecida do Divino. E soube o que estava ali para
ser protegido: o feminino ancestral, eterno e sagrado. A Mãe. A Grande Mãe. A
Deusa.
E lembrei-me de quando, segundo a
tradição, Jesus subiu o Monte das Oliveiras para meditar e orar depois da ceia
em que anunciara a sua morte iminente. O local eleito para meditar foi exactamente
junto dessas árvores sagradas onde procurou paz e conforto.
E o pensamento que me veio foi que ele sabia
onde encontrar o conforto e o amor da Mãe. Da Grande Mãe. Porque era o que lhe
faltava naquela hora de aflição.
