sábado, 13 de junho de 2015








No jardim da Deusa


Tarde adiantada no relógio das horas mas ainda criança no desejo pueril de sentir a natureza. Os pés a adivinharem caminho no meio de campos ainda de chão verde semeado de pedras, alfarrobeiras, árvores outras e arbustos vários. O ar quente mas não demasiado.

Algum caminho feito e os pés, inequivocamente, transmitiram a todo o corpo que algo tinha mudado. Uma diferença no acolhimento que a terra me fazia. A macieza do chão, acolchoado por camadas sobrepostas de folhas de várias gerações, literalmente comunicou um convite a “enterrar-me”, a deixar-me ir, a aprofundar as minhas raízes (que as tenho) nela. E foi o que fiz. Imaginei filamentos de raízes a saírem de mim, dos meus genitais, das plantas dos meus pés a adentrarem-se pelo chão, a aprofundarem-se, a percorrerem caminhos subterrâneos de terra, jazidas e lençóis de água até se unirem a algo magnético que me aguardava e segurava e nutria.

Continuei nesse caminhar íntimo de ligação e o corpo ia-se enchendo de um reconhecimento conhecido. E à minha frente, trás, esquerda e direita oliveiras e mais oliveiras. Olhava-as e reconhecia-as de um tempo tão lá para trás. Olhava-as e nelas afiguravam-se-me figuras femininas. Penteadas e desgrenhadas. Nuas e vestidas. Ásperas e macias. Seios túrgidos e seios descaídos. Expondo-se. Expondo a sua beleza, as suas feridas, as suas mutilações, a sua história, a sua vulnerabilidade. Tantos úteros maduros, tantas vulvas abertas. Tantas marcas de uma feminilidade sagrada.
Mulheres jovens, mulheres mães mas, sobretudo, velhas sábias.

Foi quando uma azinheira de porte alto e majestoso me encarou e me forçou também o olhar.
Via-a como um Ent guardião, capaz de se arrancar das suas raízes, de arrastar a sua imensidão, de revolver a terra, de sacudir os ramos e de agitar as folhas num remoinho guerreiro para proteger o que guardava.
Viro-me e, frente a ela, uma pequena e velhíssima oliveira. Humilde na estatura frágil, grandiosa no porte sábio. Símbolo da polaridade esquecida do Divino. E soube o que estava ali para ser protegido: o feminino ancestral, eterno e sagrado. A Mãe. A Grande Mãe. A Deusa.

E lembrei-me de quando, segundo a tradição, Jesus subiu o Monte das Oliveiras para meditar e orar depois da ceia em que anunciara a sua morte iminente. O local eleito para meditar foi exactamente junto dessas árvores sagradas onde procurou paz e conforto.
 E o pensamento que me veio foi que ele sabia onde encontrar o conforto e o amor da Mãe. Da Grande Mãe. Porque era o que lhe faltava naquela hora de aflição.