Ainda não estava nele. Tinha sido tudo tão rápido e a sua reacção tão mecanicamente obediente ao convite que lhe fora endereçado, que não tivera tempo para digerir as emoções contraditórias que experimentara perante a recusa categórica da cinquentona se sentar a seu lado.
Estava agora de pé junto da comissária de bordo cujo olhar tranquilo pousava na perturbação dele e o conduzia por entre as filas de passageiros que, de modo algo despropositado, no seu entender, não paravam de aplaudir a forma encontrada para a resolução do conflito do qual ele era involuntária personagem principal.
Um aperto espasmódico no estômago fê-lo recuar quarenta anos a um tempo e lugar julgados esquecidos. Viu-se garoto de sete anos numa rua da baixa da grande cidade. Alheio aos pedidos diários da sua mãe para que regressasse ao bairro do subúrbio onde residiam antes do toque de recolher, saboreava sentado na beira do passeio, o tépido entardecer quando, sem aviso, o ar ficou opaco, a luz desapareceu deixando apenas visível uma nesga anil tingida de rosa alaranjado. Sentiu-se cercado por uma densidade sombria como a do gigantesco arvoredo dos bosques. Ergueu os olhos para um círculo desenhado por rostos desfigurados, surdos e ameaçadores. O peso daqueles olhares louros frios e líquidos, obrigou-o a baixar o seu e a fixar-se na ameaça imediata das botas cardadas que se aproximavam perigosamente das suas pernas, abdómen, costas, pescoço, braços e cara.
À medida que se convertia numa bola negra, informe e cega, martelavam nos seus ouvidos os relatos de cenas parecidas responsáveis pela infinita amargura no peito do seu pai e pela morte do orgulho guerreiro no seu olhar. Maior que todas as dores era a incompreensão que lhe crescia na garganta pronta a transformar-se num protesto irado, quando uma voz pôs cobro ao baile dos pontapés. Era uma voz de autoridade incontestada que fustigou a crueldade dos rapazes inchados de ódio, altivez e petulância.
Nunca soube ao certo quanto tempo permaneceu no seio daquela família branca. O tempo suficiente para curar as feridas do corpo e para perceber que eram pessoas influentes e generosas. A princípio parecia-lhe apenas que se queriam desculpar por pertencerem ao grupo dominante e arrogante que dizia que os negros não eram gente e talvez quisessem redimir o ódio colectivo que minava aquele lugar. Depois percebeu neles uma vontade maior de lhe ensinar a não julgar pessoas mas as suas acções. E a não pôr tudo no mesmo saco. E a entender como os opostos moram juntos. O certo é que acabaram também por lhe sarar a alma.
Depois de uma vida cheia de reviravoltas, experimentava agora, no regresso de umas curtas férias na Europa, um déjà vu inquietante. Com as cicatrizes do ódio e da raiva desvanecidas, ou pelo menos ele assim julgava, ei-lo de novo confrontado com uma cena de racismo gratuito. A consciência do valor que já mostrara ter desvanecera-se num piscar de olhos. A perturbação, a insegurança e o rancor tomaram o seu lugar.
Sentado na confortável poltrona da cabine executiva e atendido com exageradas mordomias, como se estes também quisessem ver-se livres de culpas ancestrais, interrogava-se, perplexo, por que motivo se sentira tão perturbado com a atitude daquela mulher. Porque fora tão forte a sua indignação. Quantas gerações seriam precisas para que os genes dos escravizados, dos pisados, deixassem de carregar a informação distorcida da inferioridade?
Mas também poderia dar-se o caso de numa vida se resolver tudo, insinuava-se uma voz firme.
Levantou-se, pegou na sua bagagem de mão e dirigiu-se novamente ao seu lugar de classe económica, aquele que ele comprara e lhe pertencia por direito.

