domingo, 25 de setembro de 2011

Passageiro indesejado



Ainda não estava nele. Tinha sido tudo tão rápido e a sua reacção tão mecanicamente obediente ao convite que lhe fora endereçado, que não tivera tempo para digerir as emoções contraditórias que experimentara perante a recusa categórica da cinquentona se sentar a seu lado.
Estava agora de pé junto da comissária de bordo cujo olhar tranquilo pousava na perturbação dele e o conduzia por entre as filas de passageiros que, de modo algo despropositado, no seu entender, não paravam de aplaudir a forma encontrada para a resolução do conflito do qual ele era involuntária personagem principal.
Um aperto espasmódico no estômago fê-lo recuar quarenta anos a um tempo e lugar julgados esquecidos. Viu-se garoto de sete anos numa rua da baixa da grande cidade. Alheio aos pedidos diários da sua mãe para que regressasse ao bairro do subúrbio onde residiam antes do toque de recolher, saboreava sentado na beira do passeio, o tépido entardecer quando, sem aviso, o ar ficou opaco, a luz desapareceu deixando apenas visível uma nesga anil tingida de rosa alaranjado. Sentiu-se cercado por uma densidade sombria como a do gigantesco arvoredo dos bosques. Ergueu os olhos para um círculo desenhado por rostos desfigurados, surdos e ameaçadores. O peso daqueles olhares louros frios e líquidos, obrigou-o a baixar o seu e a fixar-se na ameaça imediata das botas cardadas que se aproximavam perigosamente das suas pernas, abdómen, costas, pescoço, braços e cara.
À medida que se convertia numa bola negra, informe e cega, martelavam nos seus ouvidos os relatos de cenas parecidas responsáveis pela infinita amargura no peito do seu pai e pela morte do orgulho guerreiro no seu olhar. Maior que todas as dores era a incompreensão que lhe crescia na garganta pronta a transformar-se num protesto irado, quando uma voz pôs cobro ao baile dos pontapés. Era uma voz de autoridade incontestada que fustigou a crueldade dos rapazes inchados de ódio, altivez e petulância.
Nunca soube ao certo quanto tempo permaneceu no seio daquela família branca. O tempo suficiente para curar as feridas do corpo e para perceber que eram pessoas influentes e generosas. A princípio parecia-lhe apenas que se queriam desculpar por pertencerem ao grupo dominante e arrogante que dizia que os negros não eram gente e talvez quisessem redimir o ódio colectivo que minava aquele lugar. Depois percebeu neles uma vontade maior de lhe ensinar a não julgar pessoas mas as suas acções. E a não pôr tudo no mesmo saco. E a entender como os opostos moram juntos. O certo é que acabaram também por lhe sarar a alma.

Depois de uma vida cheia de reviravoltas, experimentava agora, no regresso de umas curtas férias na Europa, um déjà vu inquietante. Com as cicatrizes do ódio e da raiva desvanecidas, ou pelo menos ele assim julgava, ei-lo de novo confrontado com uma cena de racismo gratuito. A consciência do valor que já mostrara ter desvanecera-se num piscar de olhos. A perturbação, a insegurança e o rancor tomaram o seu lugar.
Sentado na confortável poltrona da cabine executiva e atendido com exageradas mordomias, como se estes também quisessem ver-se livres de culpas ancestrais, interrogava-se, perplexo, por que motivo se sentira tão perturbado com a atitude daquela mulher. Porque fora tão forte a sua indignação. Quantas gerações seriam precisas para que os genes dos escravizados, dos pisados, deixassem de carregar a informação distorcida da inferioridade?
 Mas também poderia dar-se o caso de numa vida se resolver tudo, insinuava-se uma voz firme.

Levantou-se, pegou na sua bagagem de mão e dirigiu-se novamente ao seu lugar de classe económica, aquele que ele comprara e lhe pertencia por direito.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Atalhos


Para quase tudo era preciso fazer caminho. Caminhos que os pés dos seus anos pequenos demoravam a percorrer.
E a infância tinha pressas. Pressa de chegar à escola, pressa de acudir aos doces da mercearia, de descer à água fresca do rio, de espreitar o comboio que abria fronteiras. Nenhum a fascinava tanto como o Sud Expresso. Em dias de sorte, a uns bons metros da plataforma da estação, via-o correr célere, sem paragens, investido duma dignidade arrogante de quem transporta os senhores do mundo e, ao mesmo tempo levando com ele os sonhos que desertavam daquela estação de segunda, daquele lugar perdido no mapa, daquela garota à espera de sortilégios.
Socorria-se de atalhos a sua vontade de percorrer depressa os caminhos como aqueles que chegavam à escola saltando muros  que se desmanchavam em soltas pedras a rolar o desejo de acompanhar os seus passos descuidados e saltitantes. Que a faziam atravessar campos cultivados de milho e a obrigavam a passar por debaixo de frondosos freixos de onde pendiam, de fios balouçantes, os futuros insectos ainda no seu estádio larvar de lagarta verde peluda e nojenta a forçarem-lhe malabarismos circenses para não lhes servir de trem de aterragem.
Havia porém um atalho que lhe mostrava toda a sua fraqueza. Aquele a que não se atrevia sozinha. O atalho da ribeira.
Quando a gulodice reclamava mimos e uns dinheiritos tiniam nos bolsos dos bibes, num pequeno grupo de três ou quatro,  lá ia a corta-mato para a mercearia a uns dois quilómetros de proximidade. Tal como quando queria espreitar o comboio.
Dobrava um carreiro de paredes meias com a brancura do cemitério, sempre a correr e sem olhar para trás não fosse algum fantasma tomar como dele a sua vontade de existir e reduzi-la a uma mera aparição espectral. Perigos já para trás, mais à frente, esperava-a a ribeira, pequeno curso de água que lhe arrancava um fascínio tão grande só comparável ao que, mais tarde, viria  a sentir quando pela vez primeira deu de olhos no oceano. Num convite a uma terapêutica massagem nas bolhas dos seus pés andarilhos, estendia-lhe um tapete de limos e seixos, por onde ela deslizava num aprumo a desafiar a verticalidade. A sombra dos amieiros, o alegre correr na água sempre fria, as brincadeiras de perseguição aos girinos e as tentativas baldadas de apanhar peixinhos distraíam-na e faziam o desejo das guloseimas ficar esquecido. Descalça, de vestido levantado e bem seguro nas mãos, não fosse ele molhar-se e revelar os sítios por onde tinha andado, chapinhava o sabor da liberdade. Perdida na tarde media as lonjuras  pelas horas do sino da torre da igreja.
O regresso era sempre antes de o sol se pôr.
Cândida na sua dissimulação de quem não infringira as regras impostas pela mãe ou pela irmã mais velha, dava os primeiros passos na arte de fingir para agradar. Dentro dela uma voz desconhecida segredava-lhe: eu sou verdadeira e tu zangas-te; tu zangas-te e não me aceitas; tu não me aceitas e sinto-me só e desamparada. Eu invento tu acreditas; tu acreditas e aprovas-me; tu aprovas-me e gostas de mim; tu gostas de mim e  isso faz-me feliz. Sem se aperceber mergulhava no desejo secular e subterrâneo que a humanidade tem de ser amada.
 E os caminhos que já percorria para esconder dos outros o que eles não queriam ver, em breve se tornaram atalhos para esconder  de si quem afinal era.
Um atalho, um esconderijo. Um esconderijo, um segredo. Um segredo, um engano propositado. Um engano propositado, uma falsidade. Uma falsidade, uma patranha. Uma patranha, uma ilusão. Uma ilusão, uma máscara. Uma máscara, uma persona. Múltiplas personas num labirinto de atalhos insondáveis.

Foi cedo, afinal, que começou a encenar os múltiplos actores que mais não eram que ela própria, fragmentada, sem o saber.