“Eu sou eu e a minha circunstância. Se não a salvo a ela, não me salvo a mim” José Ortega y Gasset
Versão A: Eu sou eu e a minha circunstância
No minúsculo apartamento, Ana e Bernardo discutem. Ana tenta segurar, em réplicas magoadas, as setas venenosas de Bernardo. Tudo porque ainda não conseguira habituar-se a medir as palavras nem a espontaneidade dos gestos.
melhor fora que não aprendesse...
Naquela tarde, ao aceitar sem hesitação o convite do Luís para dar uma volta na sua lambreta nova, deixando-o a ele postado no passeio, dera-lhe o pretexto para mais uma cena. No calor da discussão, em sua defesa, Ana ainda considera objectar os ridículos argumentos dele, mas decide que não vale a pena.
ainda se isso fosse mudar alguma coisa...
Senta-se e espera. Haveria de lhe passar.
A espera agita-se, os pensamentos descontrolam-se e, aparentemente vinda do nada, começa a surgir-lhe na mente a imagem de Andries, o amigo holandês que conhecera no Outono passado e é como se ele estivesse ali. Quase que sente um roçagar de caracóis na cara, quase que desfalece a um olhar azul, travesso e insistente, quase que cheira uma respiração sussurrada e, nas cordas de uma guitarra, ecoa, num lamento, a súplica de Jacques Brel “ne me quitte pas”.
O telefone toca, interrompendo o silêncio furioso que entretanto se instalara na sala.
– Não vais atender? - pergunta Bernardo de mau humor.
Ana fica muda de pressentimentos que lhe ruborizam a cara e lhe gelam o sangue. As pernas tremem-lhe e não sabe bem porquê. Um pensamento agudo atravessa-a. E se for ele? Ele prometera vir.
– Vais, ou não vais atender? - vociferou Bernardo.
-- Tem calma, vou já.
Vacila-lhe a vontade mas decide-se e, em movimentos lentos, abandona o macio assento e caminha até ao extremo da sala onde está o telefone. Os seus passos ressoam no soalho nu, inquietos e receosos.
Num minuto de muitas inquietações, pega no auscultador com a mão pesada e o coração suspenso na respiração acelerada a pedir interiormente que não fosse ele. E ela que desejara tanto este telefonema. Antes do Bernardo.
ainda se ele não estivesse ali...
– Hello...Ana?
Era a voz dele do outro lado da linha. Sacudindo o afago, que de tão suave lhe magoava a alma, com voz emprestada e quase inaudível, Ana responde-lhe que quem ele procura já ali não vive. Mudara-se e… não, não tem o contacto. Desliga rápido não vá denunciar-se pela voz.
No instante que se segue, um silêncio pesado deposita na sua alma o vazio irreversível. Num gesto de sobrevivência recentemente aprendida, Ana procura recompor-se e, antecipando as perguntas que o olhar afiado de Bernardo lhe dirige, esclarece que era um estrangeiro à procura da última inquilina do apartamento.
Se ao menos não fosse tão fraca...
E, naquele momento, soube que cortara um fio, talvez mestre, da trama invisível da sua existência. Se não, porque sentiria aquela ferroada no peito e as lágrimas a magoarem-lhe os olhos na força estéril de as conter? E deu-se conta que um rio se formava fora dela, abria caminho e se afastava. Separado.
Versão B: Se não a salvo a ela, não me salvo a mim
Naquele final de tarde ameno, Ana deixou-se vencer pela investida da frescura no rosto e no corpo ao vento. Bem agarrada ao Luís para não cair, balouçava o corpo ao sabor das inclinações da lambreta nas voltas e reviravoltas da avenida. Sem capacete, o cabelo comprido quase tocava o asfalto quando curvaram fechado na pequena rotunda. Depois de uma veloz descida até ao Rato e um homicida ultrapassar dos carros que subiam a Pedro Álvares Cabral, ali estava ela radiante junto do Bernardo que, com ar carrancudo, a esperava no passeio. O brilho novo da lambreta tornara o convite do Luís irresistível e, mau grado saber que iria aturar uma cena de ciúmes, Ana lançou-se na pequena aventura daquele desejo ardente que a consumia desde que vira o mítico “Easy Rider”.
Já em casa, na atmosfera pesada da pequena sala, o ar ameaçava faltar. Bernardo, sentado numa cadeira, de olhos postos no chão e mãos fincadas nos joelhos, estava mergulhado num silêncio perturbador. De repente, levantou-se, fez uma pausa breve como que para encurtar as palavras e disparou:
- Sabes que não gosto que andes agarrada a outros. Mas que papel estúpido o meu, ali especado no passeio da rua, enquanto vocês dois se passeavam e riam como dois inconsequentes. Calculo que no teu delírio juvenil te imaginaste nos braços do Fonda, não? – ironizou, malévolo, num esgar de mofa.
Ana sabia que não valia a pena justificar-se ou contrapor fosse o que fosse. Não vivia com ele há muito, mas era já o suficiente para saber que, o quer que fosse dito naquele momento, só serviria para esbrasear uma discussão mortificadora e sem sentido. Começava a questionar-se seriamente sobre a viabilidade da relação deles, pois o ciúme incontrolável de Bernardo acendia nele sentimentos obscuros de uma possessividade assustadora, que contradiziam e apagavam qualquer momento de ternura clara. Chegava mesmo a haver alturas em que a violência das suas palavras a intimidava.
Ana sentia-se cansada e, em jeito de querer mergulhar num letargo profundo que a afastasse daquele sentir incómodo, deixou-se cair na única poltrona da sala, com a ausência instalada no olhar. Como num sonho, começaram a desfilar imagens soltas, caóticas e sem sentido perante o seu olhar vítreo. Aos poucos, esse turbilhão de estímulos visuais foi-se fixando na imagem velada de uma casa vitoriana, convertida em hostel, numa rua londrina, vulgar. Nas escadas, algumas pessoas de contornos também indistintos. Do meio delas emergia, claramente definido, o Andries que acordava nas cordas da sua guitarra caprichosas melodias. No espanto de uma reviravolta repentina, viu-se a si e a ele aos pés da estátua de Eros, em Piccadilly Circus, e quase que sentia a acalmia inquieta no seu olhar aquático, a macieza encaracolada no seu cabelo de seara madura, e o calor da sua respiração no sussurrar de um queixume: “ne me quitte pas”. Sentiu-se tomada por uma aflição opressiva que lhe fez saltar o peito em desassossegos abafados e inquietos.
Enquanto os passos arrastados de Bernardo se faziam ouvir no soalho nu da pequena divisão, o telefone tocou. Ana sobressaltou-se mas não reconheceu a proveniência do ruído insistente. Só a voz rude de Bernardo a chamou à realidade:
- Não vais atender?
Bernardo sempre tivera a mania de não atender o telefone quando Ana estava em casa e, quantas vezes, isso não fora já motivo de discussões e zangas. Mas desta feita, Ana, sabe-se lá porquê, queria ser ela a receber a voz do outro lado da linha. Por momentos desejou que fosse o Andries. Afinal ele prometera vir a Lisboa. Mas não, que tolice, já tinha passado quase um ano e ele não viera. Devia ser a Joana ou o António, com quem tinham combinado sair naquela noite.
Hesitante, Ana balbuciou:
- Estou, és tu Joana?
Ao som da voz do outro lado, as pernas de Ana vacilaram mas, endireitando-se, dominou as garras que teimavam sufocar-lhe a garganta e respondeu num tom quase perceptível:
- Hello. Yes, it’s me. Of course I’ll meet you there.
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