Para quase tudo era preciso fazer caminho. Caminhos que os pés dos seus anos pequenos demoravam a percorrer.
E a infância tinha pressas. Pressa de chegar à escola, pressa de acudir aos doces da mercearia, de descer à água fresca do rio, de espreitar o comboio que abria fronteiras. Nenhum a fascinava tanto como o Sud Expresso. Em dias de sorte, a uns bons metros da plataforma da estação, via-o correr célere, sem paragens, investido duma dignidade arrogante de quem transporta os senhores do mundo e, ao mesmo tempo levando com ele os sonhos que desertavam daquela estação de segunda, daquele lugar perdido no mapa, daquela garota à espera de sortilégios.
Socorria-se de atalhos a sua vontade de percorrer depressa os caminhos como aqueles que chegavam à escola saltando muros que se desmanchavam em soltas pedras a rolar o desejo de acompanhar os seus passos descuidados e saltitantes. Que a faziam atravessar campos cultivados de milho e a obrigavam a passar por debaixo de frondosos freixos de onde pendiam, de fios balouçantes, os futuros insectos ainda no seu estádio larvar de lagarta verde peluda e nojenta a forçarem-lhe malabarismos circenses para não lhes servir de trem de aterragem.
Havia porém um atalho que lhe mostrava toda a sua fraqueza. Aquele a que não se atrevia sozinha. O atalho da ribeira.
Quando a gulodice reclamava mimos e uns dinheiritos tiniam nos bolsos dos bibes, num pequeno grupo de três ou quatro, lá ia a corta-mato para a mercearia a uns dois quilómetros de proximidade. Tal como quando queria espreitar o comboio.
Dobrava um carreiro de paredes meias com a brancura do cemitério, sempre a correr e sem olhar para trás não fosse algum fantasma tomar como dele a sua vontade de existir e reduzi-la a uma mera aparição espectral. Perigos já para trás, mais à frente, esperava-a a ribeira, pequeno curso de água que lhe arrancava um fascínio tão grande só comparável ao que, mais tarde, viria a sentir quando pela vez primeira deu de olhos no oceano. Num convite a uma terapêutica massagem nas bolhas dos seus pés andarilhos, estendia-lhe um tapete de limos e seixos, por onde ela deslizava num aprumo a desafiar a verticalidade. A sombra dos amieiros, o alegre correr na água sempre fria, as brincadeiras de perseguição aos girinos e as tentativas baldadas de apanhar peixinhos distraíam-na e faziam o desejo das guloseimas ficar esquecido. Descalça, de vestido levantado e bem seguro nas mãos, não fosse ele molhar-se e revelar os sítios por onde tinha andado, chapinhava o sabor da liberdade. Perdida na tarde media as lonjuras pelas horas do sino da torre da igreja.
O regresso era sempre antes de o sol se pôr.
Cândida na sua dissimulação de quem não infringira as regras impostas pela mãe ou pela irmã mais velha, dava os primeiros passos na arte de fingir para agradar. Dentro dela uma voz desconhecida segredava-lhe: eu sou verdadeira e tu zangas-te; tu zangas-te e não me aceitas; tu não me aceitas e sinto-me só e desamparada. Eu invento tu acreditas; tu acreditas e aprovas-me; tu aprovas-me e gostas de mim; tu gostas de mim e isso faz-me feliz. Sem se aperceber mergulhava no desejo secular e subterrâneo que a humanidade tem de ser amada.
E os caminhos que já percorria para esconder dos outros o que eles não queriam ver, em breve se tornaram atalhos para esconder de si quem afinal era.
Um atalho, um esconderijo. Um esconderijo, um segredo. Um segredo, um engano propositado. Um engano propositado, uma falsidade. Uma falsidade, uma patranha. Uma patranha, uma ilusão. Uma ilusão, uma máscara. Uma máscara, uma persona. Múltiplas personas num labirinto de atalhos insondáveis.
Foi cedo, afinal, que começou a encenar os múltiplos actores que mais não eram que ela própria, fragmentada, sem o saber.

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