quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma casa na escuridão



Para mim, e só para mim, distingo os escritores desta maneira: aqueles que escrevem de forma absoluta e tocante, a quem saboreio as palavras até me entrarem na pele e me fazerem desejar ter sido eu a escrever aquilo. Estes ficam sempre comigo. Depois há os outros, alguns mesmo excelentes e audazes construtores de narrativas, vozes instaladas ou promissoras, profundos no pensamento, mas que ao acabar de os ler acaba também tudo. Não chegam a fazer relação comigo. Nem lhes desejo o dom.
O José Luís Peixoto está na primeira categoria. Descobri-o há pouco tempo mas tenho lido dele tudo quanto apanho. A singularidade da sua escrita poética, a beleza simples e tocante das imagens, as palavras comuns que, com ele, ganham vida e sentido renovado, a sensibilidade na crueza e na ternura, o negrume e a claridade de mãos dadas ganharam-me por completo. 
O que me leva a dedicar-lhe hoje este texto é uma forte impressão de uma recém-acabada leitura sua: 'Uma casa na escuridão'. Impossível ler este livro e ficar na mesma. A história de um escritor narrador que traz o amor e a morte no peito. Belo, muito belo e tão terrível, tão desapiedado, tão cruel na desesperança que até tira a respiração.
 No entanto, a percepção que tive mesmo ao acabar de o ler, foi de que o fim de tudo talvez possa ser um começo. E li no fogo uma possível regeneração na destruição do putrefacto físico, psíquico, ético e moral: o que restara da devastação invasora. E vi no reencontro do eu narrador com 'ela' o reencontro com ele mesmo; 'ela' e 'ele'; o amor sempre lá e todas as possibilidades também; o amor na morte; o princípio no fim. E, tal como Shiva representa os opostos destruição/criação, este romance bem pode ser o mesmo. 

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