Demoro em Sema o meu olhar.
Os sulcos suaves que lhe riscam o cetim moreno da pele madura e o olhar terno, resignado e doce falam de aceitação e de sonhos serenos. Os lábios grossos estendem sorrisos tímidos, prometedores como os da adolescente que, silenciosamente, os entrega à mãe da vida e lhe confia o seu caminho.
Como se não tivesse cinquenta e cinco anos. Como se não
tivesse na alma as marcas do destrato. Como se o seu corpo nunca tivesse sentido
o peso de uma mão desapiedada. Como se os cinco filhos que criou fossem só
fonte de alegrias.
Sentada num banco de uma escola ao ar livre, pousa o olhar em
frente sem o fixar em nada concreto. O som das palavras da professora europeia
que lhes ensina, a ela e a outras mulheres, a perceber o mundo para lá das
paliçadas das suas aldeias, vai-se afastando devagarinho e esmorece nas
memórias do esquecimento.
Pensa no seu pai, o conselheiro da aldeia. Na sua autoridade
inquestionável de intermediário entre mundos. Na sua sabedoria de intérprete dos
sinais divinos. Pensa na sua mãe que durante toda a sua vida o serviu. Que lhe
colheu as ervas, que lhe cozinhou as mezinhas. E vem-lhe uma memória que não
sabe se é dela. A memória de um tempo de igualdade entre os sexos em que as
mulheres, proporcionadoras da vida e guardadoras de mistérios sagrados, eram
respeitadas e ouvidas.
A memória de um tempo em que Deus era mulher.
Por momentos parece-lhe ouvir o som do princípio de tudo: o
rumorejar cintilante de partículas de fogo, o silencioso nascer das estrelas, o
troar das galáxias, o descolar dos planetas duma massa informe e gigantesca a
deslizarem sob chuva de luz e som e a ocuparem o seu lugar no espaço.
Pareceu-lhe ouvir um embate e, com o choque, o som líquido da
TERRA. Um som que cheirava.
Um cheiro de alfazema a correr desertos, montanhas, lagos e
planícies.
Foi de alfazema o ramo com que se perfumou no dia em que se
prometeu a Kitur, o jovem caçador que dizia querer com ela juntar a alma. E todos
os segundos dos dias doravante foram de perfumes trazidos por ele, para ela, no
final de cada caçada até ao dia em que dele só chegou o cheiro de sangue amargo
da sua morte. Tão menina e sem tempo para ter tido filhos, sentiu-se viúva dele
e de si.
Ali sentada no banco da escola ao ar livre, entre memórias de
um passado que já foi e de sonhos de um futuro que ainda não é, Sema sente-se liberta
para resgatar a sua totalidade.
E, olhando-a, consigo ver nela sementes de uma nova história,
de um novo percurso.

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