Hoje retirei e mudei a frase de
perfil deste blog. Nele se costumava ler:
É com melancolia que vejo cada
verão partir.
Retirei-a porque lhe perdi o
sentido, pelo que tenho vindo a intuir e a sentir.
Não porque tenha deixado de amar o
verão, o sol, o calor, as árvores soberbas e frondosas, ou a beleza extrema do
seu esplendor criativo e promissor nas mil florações, ou ainda as manifestações
de fecundidade e generosidade da Terra.
Não deserdei esse predominante
aspecto de mim, integrei-lhe, sim, outra compreensão.
O sentimento de melancolia
pressupõe uma dor vaga, indefinida, e eu desde longe, longe no reino das lembranças,
identifico esse sentir a que Victor Hugo chamou ‘a felicidade de ser triste’ …
Senti-me saída do aconchego do
vaso materno em pleno calor do estio, dois meses depois do solstício do verão,
um mês antes do equinócio do outono. Num equilíbrio instável, sobrepôs-se esse
lado solar tão marcado nos gostos e preferências que fui manifestando pela
soberania do sol, pelo reino da água, pelo perfume das flores, pela beleza da
promessa dos frutos.
Que abandono sentia eu a cada
partida do verão? Que falta se instalava na mesma medida e proporção em que o Sol,
a cada dia mais rápido, partia para outros mundos?
Na mitologia celta, a celebração
do equinócio do outono, ocorre no Sabbat do Mabon, antigo Deus celta que
simboliza os princípios masculinos da fertilidade.
Mabon, que marca o começo do
outono, é também a fase de ancião do Deus Sol que se prepara para morrer. Ele
está envelhecendo e fenecendo, lentamente, como as plantas colhidas da terra. As
sombras vão em breve começar a dominar a luz e a Deusa lamenta
a partida do seu consorte para Outro Mundo.
Inconscientemente, manifestava eu
esse arquétipo da Deusa, através da melancolia do final do estio.
No entanto, Ela sabe que o poder do
Deus retornará à Terra. É um período de morte e renovação. O renascimento está
contido em cada semente colhida. É a promessa do seu retorno. Tal como a vida
se sucede à noite, numa alternância de polaridades que visam o equilíbrio.
A Deusa prepara-se para dizer
adeus ao Deus velho, mas sabe que a semente do Deus novo já está dentro dela,
no seu ventre.
Cada coisa no seu tempo.

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