Eu não quis acreditar no que me diziam as vozes sábias das mulheres de
cabelos grisalhos e dos homens de barbas brancas que, quando me viram alargar,
inchar e ramificar, me preveniram da proximidade da minha expulsão daquele
útero tão macio, quente e húmido. Também me avisaram de que iria ficar privada
da sua companhia mas que, em contrapartida, iria poder vivenciar o que elas e eles
já tinham vivido; iria ver a luz prateada das estrelas, ser abençoada pela maga
lua, sentir o calor benfazejo do rei sol e, um dia, tocar o infinito azul.
Nessa altura, ri-me daquelas predições olhando para os caminhos e riachos
do meu corpo que tão alegremente percorriam aquele habitat de amor subterrâneo,
tentando ignorar a sua rápida transformação em estradas e rios que procuravam
uma ascensão desconhecida. E, um dia, de tanto ascenderem, fizeram a terra estalar,
abrir-se em sulcos e forçaram-me a espreitar. Foi um movimento involuntário, sem
pensar, mas que me tornou impossível o regresso.
Perdida na paisagem desconhecida, ainda tentei debater-me mas todo o
esforço redundou na mais vã inutilidade. Uma coisa apenas me servia de
refrigério: eu não fora totalmente posta de lado pela minha genitora. Junto de
si, conservava ainda uma parte de mim. Bem presa ao silêncio maternal da terra,
abri bem os olhos e espantei-me com aquele jogo de luzes e sombras, espantei-me
com os sons misteriosos que me tacteavam a pele ainda em pleno processo de
formação e com o ar gelado a que não estava acostumada. Não via azul nem sentia
calor.
Rodeada por gigantescas e sombrias formas, fazia agora parte de um vasto e
espesso aglomerado que mais tarde soube chamar-se bosque. A semiobscuridade, os
ruídos rasteiros e as danças bamboleantes das cabeleiras gigantes, longe de me
confortarem, só me inspiravam temor.
O tempo cíclico fez o corpo avançar no caminho das alturas e adquirir formas
em nada semelhantes às das companheiras que me cercavam. A parte que emergiu em
primeiro lugar foi engrossando e adquirindo robustez até ter sustentabilidade
para se dividir em duas longas avenidas de veios interiores lisos e bem
musculados, que num dado ponto se uniram de novo para darem origem a um tronco
de onde brotou uma abertura semelhante a um sexo feminino. Eu, sem saber se era
árvore, menina ou donzela, vi dois nódulos escuros da minha pele intumescerem
e parecerem-se a dois túrgidos seios. E, à medida que eu ia crescendo ia-se
formando a mulher em mim.
Foi quando senti os meus cabelos,
enrolados pelo suave sabor do vento, conquistarem a altura das estrelas, dobrarem-se
e tocarem de novo a terra, que eu percebi quem era. De alguma maneira, ligava o
mundo subterrâneo ao mundo dos homens e ao mundo dos céus estelares.
Eu era uma Hamadríade que revivia
as lendas das antigas mitologias e vinha proteger as florestas.
E sabia que por mais
distantes, no tempo e no espaço, que estivessem os
humanos dos valores dessas antigas tradições, haveria quem, como eu, quisesse
ser seu auxiliar no resgatar do respeito por toda a natureza.

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