terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A mulher árvore


Eu não quis acreditar no que me diziam as vozes sábias das mulheres de cabelos grisalhos e dos homens de barbas brancas que, quando me viram alargar, inchar e ramificar, me preveniram da proximidade da minha expulsão daquele útero tão macio, quente e húmido. Também me avisaram de que iria ficar privada da sua companhia mas que, em contrapartida, iria poder vivenciar o que elas e eles já tinham vivido; iria ver a luz prateada das estrelas, ser abençoada pela maga lua, sentir o calor benfazejo do rei sol e, um dia, tocar o infinito azul.

Nessa altura, ri-me daquelas predições olhando para os caminhos e riachos do meu corpo que tão alegremente percorriam aquele habitat de amor subterrâneo, tentando ignorar a sua rápida transformação em estradas e rios que procuravam uma ascensão desconhecida. E, um dia, de tanto ascenderem, fizeram a terra estalar, abrir-se em sulcos e forçaram-me a espreitar. Foi um movimento involuntário, sem pensar, mas que me tornou impossível o regresso.

Perdida na paisagem desconhecida, ainda tentei debater-me mas todo o esforço redundou na mais vã inutilidade. Uma coisa apenas me servia de refrigério: eu não fora totalmente posta de lado pela minha genitora. Junto de si, conservava ainda uma parte de mim. Bem presa ao silêncio maternal da terra, abri bem os olhos e espantei-me com aquele jogo de luzes e sombras, espantei-me com os sons misteriosos que me tacteavam a pele ainda em pleno processo de formação e com o ar gelado a que não estava acostumada. Não via azul nem sentia calor.
Rodeada por gigantescas e sombrias formas, fazia agora parte de um vasto e espesso aglomerado que mais tarde soube chamar-se bosque. A semiobscuridade, os ruídos rasteiros e as danças bamboleantes das cabeleiras gigantes, longe de me confortarem, só me inspiravam temor.

O tempo cíclico fez o corpo avançar no caminho das alturas e adquirir formas em nada semelhantes às das companheiras que me cercavam. A parte que emergiu em primeiro lugar foi engrossando e adquirindo robustez até ter sustentabilidade para se dividir em duas longas avenidas de veios interiores lisos e bem musculados, que num dado ponto se uniram de novo para darem origem a um tronco de onde brotou uma abertura semelhante a um sexo feminino. Eu, sem saber se era árvore, menina ou donzela, vi dois nódulos escuros da minha pele intumescerem e parecerem-se a dois túrgidos seios. E, à medida que eu ia crescendo ia-se formando a mulher em mim.

Foi quando senti os meus cabelos, enrolados pelo suave sabor do vento, conquistarem a altura das estrelas, dobrarem-se e tocarem de novo a terra, que eu percebi quem era. De alguma maneira, ligava o mundo subterrâneo ao mundo dos homens e ao mundo dos céus estelares.
Eu era uma Hamadríade que revivia as lendas das antigas mitologias e vinha proteger as florestas.

E sabia que por mais distantes, no tempo e no espaço, que estivessem os humanos dos valores dessas antigas tradições, haveria quem, como eu, quisesse ser seu auxiliar no resgatar do respeito por toda a natureza. 

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