Dia 4 de Outubro 2015
Fui votar. Quis ir de manhã. Quis
certificar-me que nenhum percalço se interporia entre a minha vontade e o acto
de cumprir este meu, em primeiro lugar, direito e o dever de quem não quer
depositar o futuro em mãos alheias. Todas as assembleias de voto por onde
passei tinham fila. E a minha também. Alegrei-me por isso e desejei que assim
permanecesse ao longo do dia e por todo o país. Desejei que este sinal tivesse
o poder de contrariar os vaticínios de profunda abstenção e as “sondagens” que mais
não fizeram que bombardear e confundir cabeças.
Fiz o regresso a casa dando um
passeio pelo parque. Não, não era o da imagem que ilustra este texto. Mas podia
ser. A Natureza, em revolução silenciosa, a preparar-se para novos cenários. Árvores
a amarelecerem a roupagem, folhas que se desprendiam em descidas bamboleantes e a formarem camadas fofas de um castanho
acobreado que me atapetavam o caminho. Sentei-me um pouco a desfrutar da beleza
inteligente e sensível de mais um ciclo a cumprir-se na eterna Roda do Ano.
Quanta sabedoria guardada na Natureza!
Quando chega o momento, as
árvores começam a despir-se, a desnudar-se, a libertar-se do que já não lhes
serve. Sabem que para dar as boas-vindas ao renascer, para voltar a florir e a frutificar
é preciso dar novo húmus à terra e deixar que novas sementes germinem.
A cada ciclo inteiro há uma morte
e um renascimento. É assim a nossa vida também. Feita de começos, meios e fins.
E, às vezes, não queremos dar fim ao que já está estiolado e seco. Mas, para
que haja novos começos, é preciso largar rastros, é preciso saber deixar ir
embora as cascas velhas e sem vida.
Desejei, desejo que a metáfora do
parque se aplique hoje neste país que é o nosso, feito de tantas pessoas a
precisarem de esperança. De segurança. De dignidade.
Desejo essa revolução silenciosa,
feita nas urnas, que faça cair as folhas sem préstimo. Desejo que novas sementes
germinem um potencial de esperança. E de respeito.

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