quarta-feira, 16 de novembro de 2022


 


Verão invencível

 

Hoje caem lágrimas do céu e longe vão já os dias secos e cálidos do verão. Talvez por ter nascido no verão, essa sempre foi a estação do ano da minha eleição. Os dias estendidos, o sol na pele, a areia e a relva nos pés, os passeios, a liberdade no vestir e no calçar,  ajudavam a sentir-me mais plena, expressiva, bonita, expansiva, criativa!

Era como se fosse o tempo de todas as possibilidades. Por tudo isso, era com melancolia que via cada verão partir.

Parecia que alguma parte de mim ficava esquecida quando o outono, de mansinho, se anunciava vestindo campos, jardins, parques e calçadas de tons de dourado velho, vermelho tinto e castanho desbotado. Então, dava por mim num misto de contemplação reflexiva e melancólica do cair das ideias velhas a morrerem porque inúteis, dos sonhos que tinham perdido o tempo, dos amores que findavam por descaso, desnutrição ou desadequação, à semelhança das  folhas que se soltavam à mais leve brisa.

Infinitas vezes, dava por mim a emocionar-me com Eric Clapton no seu sublime canto “Autumn leaves”.

No momento em que escrevo, o título é o mesmo mas a voz é a de Chet Baker.

O tempo (o atmosférico e o cronos) muda, nós mudamos, eu mudei. Com um olhar mais abrangente das estações na natureza e das estações da vida, percebo que os sorrisos se sobrepõem às lágrimas, que o sol sempre encontra um jeito de espreitar atrás das nuvens mais densas, que amores podem suceder aos desamores, que os sonhos não têm época e que o inverno é o necessário período gestante de todas as glórias estivais, seja na Natureza seja na natureza humana.

E é a consciência desse verão, que vive dentro do inverno, que nos torna mais livres, mais aceitantes de nós, mais despojad@s de preconceitos e podemos, se assim nos permitirmos, ficar mais radiantes do que nunca, porque a nossa luz interior brilha mais forte com o passar do tempo.

Este verão vem do âmago do nosso ser – da nossa essência.

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