O universo, pelo menos na forma como o percepcionamos, é um universo de polaridades. Os opostos estão sempre presentes: branco e preto; calor e frio; húmido e seco; luminoso e escuro. Quando um está activo o outro encontra-se passivo. No entanto, não entendemos o branco se não conhecermos o preto, não sentimos o calor se não soubermos o que é o frio, só sabemos que está húmido porque também experienciamos o seco, só reconhecemos o luminoso por oposição ao escuro. Ou seja, uma coisa não existe sem a outra. Porque queremos então, neste universo dicotómico, olhar só para metade da laranja? Porque queremos ser só bonzinhos? Porque nos envergonhamos de partes de nós?
Vem isto a propósito da reflexão que o filme “Black Swan” me suscitou. Aquilo que nos envergonha, o que calcamos, escondemos e negamos um dia toma conta de nós.
Na simbologia da oposição cisne branco e cisne preto, curiosamente almas gémeas aprisionadas, desenvolve-se a trama do filme.
À dedicada e rigorosa bailarina, obediente filha e virginal donzela Nina, sobram os atributos que necessita para encarnar e expressar a fragilidade, a sensibilidade, a inocência, a graça, a delicadeza e a vulnerabilidade do cisne branco. Mas Nina, se quiser ser prima ballerina, terá que mostrar outros atributos pertences do cisne negro e que parecem ausentes da sua aparente perfeição.
Sob o medo de ser preterida, Nina começa a enfrentar-se, a ter vislumbres erráticos e fugazes de si transformada numa outra face fatal e dominadora, a perceber que dentro de si vive uma outra que mais não é que ela própria aprisionada nas qualidades violenta e ingenuamente reprimidas por uma mãe castradora e controladora.
E é na explosão vulcânica da sensualidade sufocada, na crueldade metaforicamente real, na aleivosia, no confronto arrojado com a sua face obscura, oculta no outro lado do espelho, que Nina resgatará o seu lado selvagem, sedutor, dominador e violento.
E é na junção dos dois opostos que acaba por ser perfeita. Como se tivesse alcançado a paz quando abraçou a sua totalidade.
1 comentário:
Mais uma reflexão deliciosa sobre a Vida :-)
A dualidade acaba quanto vemos a perfeição e projectamos a pessoa completa que somos...
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