Não há quem goste de se sentir culpado, acusado, responsabilizado. Culpa-se, de forma genérica, a vida. E, de forma mais concreta, as condições físicas e psicológicas, as circunstâncias sociais, políticas e económicas.
Não sou culpado, é o primeiro grito de protesto de quem se sente acossado e que, genuinamente, se acredita fora do raio de responsabilidade pelas suas falências, actos e enganos. E apressa-se nas justificações que lhe parecem reais:
E, invariavelmente, a culpa recai na educação que os pais deram ou não deram; na infância infeliz; no pai tirano; na mãe permissiva; nas excessivas facilidades; nas condições precárias; no abuso autoritário dos superiores (pais, professores, patrões); numa qualquer incontrolável paixão; nos costumes estabelecidos; nas circunstâncias...
...a culpa .... a culpa... a culpa...
Subsiste uma eterna necessidade de deslocar a responsabilidade para alguém ou alguma circunstância. Transferimos de bom grado para outrem a causa das nossas carências, inseguranças, desconfortos, mágoas, irritações.
Se não fossem os outros (o governante, o patrão, o cônjuge, o vizinho, o colega, o irmão...) talvez eu tivesse paz. Se eles se comportassem de outra forma a minha vida poderia ser o céu!
Na verdade, o “outro” somos sempre nós. O problema que projectamos no outro mora já dentro de nós.
Como na simbologia daquela mulher que olhava através do vidro da janela da sua sala e via as roupas mal lavadas da vizinha da frente. Criticava com comentários maldosos o seu pouco asseio. Até ao dia em que lavou a sua própria janela e, com espanto, percebeu que as roupas da vizinha estavam impecavelmente lavadas.
É com enorme facilidade que transferimos para o outro o nosso inferno pessoal e não admitimos que os nossos infortúnios são de responsabilidade nossa. É mais cómodo colocar a solução no outro ou num milagre que nos dispense de ser parte actuante na resolução de problemas. Dessa forma criamos mecanismos de defesa como a negação e a projecção, que nos ajudam a sobreviver, mas que estão longe de nos fazer pessoas felizes.
Como podemos secar este terreno pantanoso onde se atolam as nossas acusações, culpas e medos? Como podemos sair deste ciclo vicioso, tão fortemente instalado no inconsciente individual e colectivo?
Podemos talvez começar por assumir o 100% de responsabilidade da nossa vida. Ser responsável não significa ser culpado de nada, significa responder por algo, em última instância por nós mesmos e as nossas escolhas.
Assumir 100% de responsabilidade não é simplesmente inverter a equação e virar a culpa sobre nós, mas sim entender que aquilo que vemos acontecer fora de nós é a projecção de uma realidade que está dentro. Que a forma como julgamos os outros e o mundo é um reflexo exacto do nosso interior. Como podemos, por exemplo, ver a limpeza através de uma janela suja? Como podemos sentir a harmonia e a beleza quando na nossa vida tudo nos parece feio e fora do lugar? Como podemos viver a abundância se em nós tudo ressoa a carência? Como podemos perceber a paz lá fora quando há uma guerra surda no nosso interior que nos grita sentimentos de frustração e ira pela falta disto e daqueloutro, pela falência do amor, pelas nossas incapacidades e pouco merecimento?
Assumir 100% de responsabilidade não significa, de todo, vitimizar-se. Significa conhecer-se e transformar-se. Sair do consolo fictício do conhecido. Arriscar e sair da zona de conforto. Começar a agir a nosso favor fazendo coisas de que gostamos. Abandonar aquilo que nunca nos fez ou já deixou de nos fazer sentido. Dizer não quando queremos dizer não. Deixar de dizer não quando queremos dizer sim.
Tivemos a nossa primeira experiência de saída da zona de conforto aquando do nosso nascimento. E continuamos a ter a liberdade para o fazer de novo. Ainda que isso nos assuste. O mundo está cá para nós como quando resolvemos sair da protecção do útero materno. Ainda temos a capacidade de ser corajosos. De começar por fazer a nossa revolução interior. O importante não é o que fizeram de nós, mas o que fazemos com o que fizeram de nós.
Porque de repente a vida passou. Hoje temos 20, amanhã 30, 40, 50, 60, 70 anos.
2 comentários:
"Como podemos secar este terreno pantanoso onde se atolam as nossas acusações, culpas e medos?"
Não podemos encontrar soluções enquanto não nos assumirmos como parte do problema e soubermos encontrar dentro de nós o "milagre" que andamos à procura.
:)
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