Depois haveria de conhecer outras: mais vastas, mais quentes e mansas, noutras costas, noutros lugares. Mas guardo da praia da infância, misto de real e imaginário, uma recordação desmesurada.
O mar surgiu-me, a primeira vez que o vi, em todo o seu esplendor majestático, qual rio imenso, onde cavalgavam tumultuosas águas a espumar raiva em volteios e redemoinhos. A intervalos breves, aquietavam-se em sossegos temporários de liquidez tranquila e translúcida. E, por momentos, assemelhava-se a um lago gigante, inofensivo e maternal.
A caminhar para ele, uma espécie de temor enterrava-me na macieza convidativa de um tapete enorme, branco e quente, de minúsculas pedras a luzirem ao sol como diamantes em noites de luares sem mácula.
Uma força magnética, na linha do horizonte, demarcava o cinzento anilado das águas do azul metálico do firmamento e atraía os meus passos para um encontro inexorável.
O fascínio, redobrado pelas revoadas de água derramadas por um Adamastor irado, logo serenadas por delicado orixá, fez-me esquecer o medo, puxou-me e cumpriu-se no meu corpo inseguro e enregelado, ali, à mercê da investida da boca das ondas. E foi a primeira vez que me senti renascer. Como se a força da água pudesse também lavar as nódoas da alma.
E depois o sol, atrevido, a espraiar-se-me na pele e a obrigar a um prazer novo e supremo, embalado pela melodia dos embates na estrada molhada da minha rua.
A sensualidade da praia da minha infância plasmou-se em mim. O mar, o marulhar das águas, o prateado iridescente do areal, o calor preguiçoso do sol recriam-na e reenergizam-me a cada estio, a cada mergulho, a cada sesta de imaculado abandono. E sou capaz de a sentir também na ousadia da parede da minha sala, pintada de vermelho, que evoca os mesmos sentires contraditos de temor e fascínio, impetuosidade e frio, de amor e medo. A praia da minha infância e a parede da minha sala lembram-me o rubor eufórico da primeira menarca: misto da alegria intrépida de quem sente que saiu do reino da infância e do temor mesclado de veneração e receio com que, na nossa cabeça menina, nos ensinaram a separar o sagrado e o profano, a confundir o prazer e a vergonha, a igualar o natural e o pecado.
às vezes gosto de me sentir água
água tinta onde os taumaturgos se reinventam
gosto de me sentir fogo
no ímpeto que aconchega e atrai que periga e repele
gosto de me sentir terra
telúrica e rubra a recolher o suor de quem a trabalha
escarlate como o ar
pintado por míriades de efémeras pétalas de papoila arrancadas por um vento audaz
Nas imensas línguas de areia, descalço os sapatos sem cor e deixo-me subir puxada por um papagaio de todas as cores e fujo com o ar quente, leve, leve, cada vez mais leve.
a parede
a praia
e eu:
fogo água terra e ar.
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