sábado, 16 de julho de 2011

Carpe Diem


Talvez alguns, muitos, se lembrem do filme O Clube dos Poetas Mortos. E do poema com que o professor John Keating começou a primeira aula dirigida a um grupo de rapazes

Apanha os botões de rosa
Enquanto podes.
O tempo voa
E esta flor que hoje sorri
Amanhã estará moribunda.

E talvez se lembrem que depois lhes disse que havia uma expressão latina, já usada por Horácio, que continha em si esse sentimento: Carpe Diem.

Há quem traduza: aproveita o dia, o momento.
Ou: colhe o dia como se fosse um fruto maduro que amanhã estará podre.
A vida acontece hoje. Não amanhã.
Carpe Diem. Aproveita o dia, a hora, o minuto.
Quantas vezes não dizemos a outros e a nós próprios:  aproveita a escapadela! aproveita as férias! aproveita enquanto podes!
Normalmente o que queremos dizer é tão somente: diverte-te ao máximo!
Ah, mas a diversão só não chega para aproveitar o momento. Nem o outro tempo. Quantas vezes não serve de disfarce transitório a escondidas solidões, tristezas, frustrações?
E depois? Quando a diversão acaba, fica o quê?
Carpe Diem como e para quê?
Para nos sentirmos bem e felizes – diria eu. Cuidando de nós. Cuidando do eu no seu todo: do invólucro que lhe dá forma e da estrutura interna que o anima. Do físico que lhe dá o suporte e do espírito que o nutre.
 Dale Carnegie terá dito que "sucesso é conseguir o que se quer e felicidade é gostar do que se conseguiu."  Gostar, independentemente do conseguido, acrescento eu.
Contudo, confundimos com frequência o que é sermos felizes. Só porque não estamos a vivenciar momentos de êxtase, porque não estamos mergulhados numa paixão avassaladora, porque não temos o amor da pessoa X, porque em vez de estarmos a embriagar os olhos em paisagens deslumbrantes estamos no mesmo lugar de sempre, porque nunca mais nos calha ser o excêntrico sortudo milionário, pensamo-nos vulgares seres a viver vidas vulgares sem qualquer interesse.
 É então que nos esquecemos que temos mãos e dedos, braços e pernas, coração e cérebro  a funcionar independentemente da nossa vontade; que temos à nossa disposição uma sistémica reguladora que nos limpa e purifica da toxicidade nociva à nossa sobrevivência; que fomos agraciados com perfeitos olhos que, independentemente de serem pequenos ou rasgados, nos fazem deslumbrar com a beleza do sol, dos pássaros e dos jardins; que nos foi dada boca para beijar aqueles a quem amamos; que nos foram implantados ouvidos que nos permitem escutar o marulhar do mar, as notas do violão e um ´amo-te´sussurrado; que somos vestidos de pele para sentir o afago da brisa; que temos o poder e a força da nossa vontade.
É então que nos esquecemos da dádiva que é a vida e do valor da gratidão por ter acontecido a felicidade de, um dia, um espermatozóide mais rápido que milhões de congéneres seus, ter chegado ao local da fecundação e ter dado início à expressão da nossa individualidade.
E, nesse esquecimento, passamos a cultuar sentimentos de miséria e infelicidade por tudo aquilo que achamos que nos faz falta e de que carecemos e destruímo-nos deixando-nos dominar pelo desânimo. Enchemo-nos de ansiedade e povoamo-nos de medos. Como nos assusta essa vulnerabilidade, cobrimos tudo com máscaras e iludimo-nos, a nós e aos outros, num carnaval razoavelmente caricato e efémero.
Com a alma em tumulto, instalamo-nos no drama, incapazes de aceitar o que não pode ser mudado e, numa astenia confrangedora, ficamos imóveis perante o que é possível alterar.
Quando o que precisamos é de nos pacificar e de, a cada dia, afogar o nosso corpo nas simpáticas endorfinas, conhecidas como as hormonas da felicidade.
Sabe-se hoje que a felicidade depende mais da forma como vemos o mundo do que de circunstâncias exteriores. Como diz o sábio ´o mundo és tu´. Mas para isso há que fazer uma viagem ao interior de nós mesmos. Uma viagem para reconhecermos e acolhermos  tudo o que possa surgir em nós: o incómodo e a satisfação, a inquietação e a serenidade, a tristeza e a alegria, o prosaico e o poético, o belo e o horrível, o verdadeiro e o falso, o anjo e o demónio. Abraçando tudo em nós. O que amamos e o que detestamos. Aprendendo  a viver a nossa totalidade hoje e aqui, mesmo que num dia consigamos e noutro não, pondo em prática a velha máxima ´cai sete vezes e levanta-te oito´. Sentindo o respirar da vida. Redescobrindo a inocência com que as crianças se entregam a cada momento. Concedendo-nos os pequenos prazeres. Com consciência. Sem compulsão. Permitindo à vida que nos exponha ao que tiver de ser, a fluir, deixando partir o que já não necessitamos e abrindo as portas à novidade. Reconhecendo que somos, nós, os outros e tudo no universo, um imenso caldo energético que se interpenetra numa unidade indissociável.
E quando, de alma pacificada, nos permitimos essa comunhão com o todo, surgem  momentos de êxtase sereno como quando ontem, num concerto, de olhos fechados, deixei de sentir os limites sólidos da cadeira onde estava sentada e os do palco que me separava dos músicos e dos instrumentos, para só experienciar uma liquidez melódica e harmónica que vibrava como música e que repercutia no meu corpo como se nele nascesse e o habitasse.
E intuí no  corpo e na alma que estava no momento.
Porque a vida acontece hoje e não amanhã,
Carpe Diem!

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