Um som autoritário dita-lhe a urgência da manhã do primeiro dia de trabalho do novo ano. Estica as pernas ainda quentes como se empurrasse as paredes invisíveis do ano findo e, com três passos rápidos e decididos, entra na casa de banho da suite que ocupa sozinho. Depois de um duche rápido, neurónios invisíveis dão ordens aos braços que, como tenazes, seguram artefactos e tratam de branquear os dentes, os naturais e os implantes, barbeiam o rosto com estrita impecabilidade, fazem o risco na cabeleira com o rigor milimétrico do gel e perfumam a pele ainda húmida com a colónia comprada na perfumaria mais chique e mais cara da cidade. Um homem na sua posição não pode deixar nada ao acaso. Sobretudo depois de ter percebido, numa passagem fátua pelo ‘open space’ do escritório, um comentário quase inaudível sobre um cheiro a toranja podre. Ainda se virou para ver de onde vinha o atrevimento, mas já todos estavam de cabeça baixa e pretensamente ocupados nos afazeres próprios. Agora, ali sozinho, esse comentário insinua-se e força-o a uma dose suplementar de perfume. Corrói-o uma fragilidade e por momentos sente-se insignificante. Mas isso é questão de segundos e logo recupera a sua pose altiva. Depois do pequeno-almoço faz três telefonemas: à secretária manda cancelar a agenda do dia; ao motorista ordena que venha imediatamente pois precisa que o leve à R. das Flores. O terceiro, numa voz melosa e simulada, termina num pedido que não dá margem para escusa. Diz-lhe que precisa de a ver e pronto. Os débeis protestos dela de tenho uma reunião vencidos pela subtil manipulação dele então eu já não sou importante, olha que ficas sem me ver durante semanas.
Após uma passagem rápida pela R. das Flores, recompõe o risco do penteado, entra de novo no BM prateado e vai até ao Clube finalizar um assunto em suspenso desde a semana passada. Irrita-o o facto de saber que se não for ele a marcar o passo, o marasmo toma conta da direcção e o convite ao ministro fica na gaveta por falta de ousadia. Ao almoço, num restaurante fino e caro telefona ao filho, então como vai a escola e, já gritando, tu não brincas comigo, ameaça: olha que te corto a mesada.
Vai até ao escritório. Toma decisões arbitrárias contrariando as opiniões dos sócios na última reunião plenária. À noite depois do jantar, telefona à ex-mulher para lhe dizer que com o dinheiro que lhe dá ela tem obrigação de educar melhor o filho. Que a torneira se fechou e que no verão não vai haver férias para ninguém.
Se calhar para ti também não, é o que faz supor um silencioso olhar de ferro na direcção do lugar da mesa oposto ao seu. Estala-lhe na boca o último trago do conhaque aquecido e com um seco até amanhã caia de desesperança gélida o corpo que todo o dia se preparara para o receber.
O silêncio dos lençóis de linho ainda quer segredar-lhe a sua pequenez moral mas os tampões que coloca nos ouvidos protegem-no de semelhante aleivosia e garantem-lhe mais um ano de glória.
Sem comentários:
Enviar um comentário