O que o senhor teria feito em meu lugar?
É a pergunta que ela faz ao juiz que a acusa.
A resposta poderia ser leviana e fácil: eu teria feito diferente.
Mas nas respostas rápidas e descomprometedoras ninguém ousa ir dentro de si, esconjurar fantasmas e demónios para tentar descortinar como teria realmente sido se fosse consigo. Que coragem ou falta dela teria tido? Com que ética, com que moral teria agido? Com que valores, com que medos teria respondido?
Para a reflexão que quero fazer não interessa quem acusa, não interessa quem é acusada ou de quê (só na medida em que o que a origina são factos de um dos períodos mais negros da história da des -humanidade). Mas interessa colocar em perspectiva a crítica e o julgamento de forma abstracta e perguntar: o que faria eu naquela circunstância? O que faria eu naquele lugar? Interessa fazer um deslocamento do ponto seguro e inexpugnável onde se faz o julgamento para o ponto de todas as fragilidades. Interessa perceber que, com todas as consequências, a cada momento o ser humano faz o que pode e o que é capaz. Nem mais nem menos. O que acabo de escrever, nem sempre foi pacífico para mim. Houve tempo em que julguei que isso desresponsabilizava agressores, tiranos, assassinos. Na verdade não desresponsabiliza. As acções ficam com quem as pratica. E há instâncias para julgar e condenar. Muitas vezes as mesmas que antes ilibaram, é certo. Como no caso da Alemanha que carrega a culpa legislativa de aceitar o genocídio nas suas leis durante a guerra. Culpa moral ou culpa legislativa, problematiza o professor de Direito?
Estou a falar do filme ‘The reader’, que dividiu opiniões e gostos no ano da sua estreia no cinema e que em mim deixou forte impressão. E que ontem revi. E que novamente me impactou.
Quando acaba o filme, para além das possíveis comoções, para além de uma história que inevitavelmente vai ser esquecida, ficam perguntas, ficam reflexões.
Dá que pensar a que fins trágicos os caminhos da vergonha podem conduzir. Que sombras os segredos podem convocar. O que pequenos gestos, acções, ou a ausência deles podem mudar.
Dá para especular que, não fora a vergonha suprema de ser analfabeta e Hannah Schmitz poderia não ter sido envolvida nas malhas obscuras do dever, para ela inquestionável, de escolher a quem caberia, num ciclo repetível e interminável, a câmara de gás. Não fora ainda esse pudor viscoso e não teria fugido anos mais tarde à sua confrontação. E é ainda com a determinação fria e férrea de esconder esse segredo que aceita uma culpa, que essa não é dela, e a sujeita a uma condenação extrema. São duas as prisões que a enclausuram, desfeiam e envelhecem: a convencional, onde, julgada e condenada, vai parar e outra feita de grades de interdições, de fraquezas, de segredos e sufocos. Das duas liberta-se um pouco com uma vontade que lhe consegue o quase impossível: penetrar sozinha no mundo das palavras e das ideias. O que não chegará.
Antes os seus gestos e acções cegaram vidas devastaram almas. De forma irrecuperável. Até talvez a sua.
E fica no ar a pergunta dela:
O que teria feito em meu lugar?

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