quarta-feira, 14 de março de 2012

A aflição da Primavera




As árvores enchem-se de brotos. Algumas cobrem-se de mantos de branco florido. Da minha janela vejo-a. A Primavera a chegar. A vida a viver-se. E é ainda Inverno nos dias do calendário.

Este ano a Primavera quase que não chegou. Tem estado por aí. Se não no calendário ou nos ramos das árvores, esteve-o no sol radioso que acendia de azul os dias curtos embrulhando-os num xaile dourado, contradizendo quem diz que nos raios do sol de inverno não há calor.
De tal maneira que este ano não houve porquê e os olhos não se me aguaram na espera dos risos dos pardais e não se me fez urgência dos dias claros.

Fez-se sim urgência, nos campos, nas florestas, nos rios, nas albufeiras, de nuvens carregadas que, de tão prenhes, não contivessem o rebentamento das suas águas. Mas as nuvens escassearam ou andaram tão altas que não ouviram o grito desesperado da Mãe que chamava por elas. Não viram a dança que alguns corações dançaram.

E a Terra está seca a abrir-se em rasgos, gretas e sulcos. E a Primavera a parecer Verão, num sol tão quente que saberia tão bem ao corpo, à alma, não fosse esse grito da Terra, da Mãe que nos alimenta.

Não fosse eu saber que a Terra seca sou eu.

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