sexta-feira, 16 de março de 2012

Tenho o que dei







Ouvi esta frase há dias: “Tenho o que dei”- citação de um escritor na boca de um outro escritor.
E ressoou forte, forte em mim porque já a sabia verdade. E, embora fosse facto que a sabia verdade, deu-me que pensar.

Aparente contradição ter-se o que se deu.
Na realidade quando se dá, por exemplo um qualquer objecto, deixa-se de o ter. Não se dá temporariamente. Dá-se. Entrega-se. Deixa de nos pertencer. O acto de dar encerra em si um desapego.
Sei que há os falsos ‘dar’: aqueles em que se troca o que se dá pelo que se pensa poder vir a receber. Aqueles em que se cobra o que se deu, requerendo afectos e favores, agradecimentos ou, no mínimo, validação.

Algum dia na nossa vida ouvimos algo como: olhem só que ingratidão! É assim que me paga, depois de tudo o que fiz por ele/ela.
Também há o ‘dar’ que mais parece um empréstimo: “a minha blusa fica-te mesmo bem” , a confirmar o adágio ‘Quem o alheio veste, na praça o despe’.

Não se refere com certeza, a estes ‘dar’ o escritor citado quando diz ter o que deu.
Quererá, com maior probabilidade, referir-se às trocas dinâmicas que ocorrem no universo, em que dar e receber são dois aspectos da mesma energia. Em que a abundância é um fluxo de energia que não pode, não deve, ser interrompido.
Nessa óptica quanto mais se dá mais se recebe. Entenda-se amor, afecto, carinho alegria, apreço. Ou também bens materiais.

“Dai e ser-vos-á dado”, consta que afirmava Jesus.

E contava a minha avó, velhinha, que as únicas coisas importantes que recordava da sua vida eram os sorrisos que dera e recebera.

A alegria e o amor com que damos, é então o que nos fica.
Qualquer coisa pode desaparecer de um momento para o outro de nossas vidas: um cataclismo, uma falência, podem levar-nos todos os bens materiais. Morte, separação podem apartar os entes queridos.

E um dia podemos confrontar-nos com a tal verdade:

Tenho o que dei

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