Quando olhas pelos vidros da tua
janela, as folhas das árvores, dançando na brisa, sussurram-te segredos. Antigos.
E outros de agora. Trazem-te memórias de um tempo que não sabes a que tempo se
refere. Talvez te lembrem uma dor, uma falta de coragem, um amor não vivido, uma
alegria esquecida, algum abandono ou uma desistência tua. Quando o teu olhar
pousa tranquilo nos frágeis pássaros imaginas a vida que foi a tua.
Não, o telefone não está a tocar.
Não, o correio não veio hoje. Olha, chegou uma carta para ti. E parece o eco da
voz da tua mãe.
A brisa lá fora agita-se e faz balouçar
as hastes dos pequenos bambus que decoram a tua parede. Os colibris,
assustados, levantam voo e beliscam a tua indolência. Levantas-te da cadeira, abres
o armário, procuras o teu caderno e relês coisas que há pouco escreveste sobre
outras que se passaram há muito tempo.
Ele gosta de ti, disse-te uma
amiga tua a meio de uma aula que já não recordas de quê. Como sabes? perguntaste tu fingindo
desinteresse. Porque ele até estremece quando ouve o teu nome, respondeu ela
num sorriso a exigir uma cumplicidade que não devolveste. Naquele momento uma
luz acendia-se dentro de ti, mas tu, querendo escondê-la a todo o custo, olhaste
para a tua amiga imitando uma segurança que não sentias e asseguraste que não
querias saber.
À noite, na solidão que só a cama
te permitia ter porque não tinhas um quarto só teu, acendeste de novo aquela
luz e deixaste que te inundasse de calor. E os teus dias passaram a ser de sol
mesmo quando não tinhas coragem de o olhar e continuavas a fingir indiferença.
Mesmo quando esperavas impaciente e já ias perdendo a esperança que os passos dele atravessassem a distância que vos separava.
Quando terminaram as aulas do primeiro período e
todos se iam apartar para as férias do Natal nas suas casas, nas suas vilas ou
aldeias, lá bem em baixo, ao fundo da escadaria do liceu, despediste-te dele.
Naquela altura não havia intimidades. Nas pequenas cidades de província os
rapazes e as raparigas só começaram a cumprimentar-se com um beijo mais tarde. E
tu ali, a querer senti-lo e sem saber como. Ocorreu-te tirar a luva e deixar a
mão nua e livre. Com o coração muito contraído, apertaste-lhe a mão num gesto
de despedida e, no frio gélido do dia, os teus dedos escaldaram-se perdidos no
lume aceso da palma dele.
O carteiro não trouxe a carta. O tempo passou.
Alguns meses depois viste. Ele de
mão dada com outra. Faltou-te literalmente o chão. Uma brecha enorme engoliu-te
a esperança. Com a respiração suspensa seguraste-te à tua superioridade fingida
e ao teu improvisado ar seguro. Olá disseste tu. E já não ouviste mais nada
porque camadas de desilusão te envolveram toda.
Tu sabes que o tempo passa. Que o
tempo passou muito depressa por ti. Já não há a voz da mãe. E olhas através da
janela a sondar os segredos do agora.

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