quinta-feira, 26 de abril de 2012

E olhas através da janela


Quando olhas pelos vidros da tua janela, as folhas das árvores, dançando na brisa, sussurram-te segredos. Antigos. E outros de agora. Trazem-te memórias de um tempo que não sabes a que tempo se refere. Talvez te lembrem uma dor, uma falta de coragem, um amor não vivido, uma alegria esquecida, algum abandono ou uma desistência tua. Quando o teu olhar pousa tranquilo nos frágeis pássaros imaginas a vida que foi a tua.

Não, o telefone não está a tocar. Não, o correio não veio hoje. Olha, chegou uma carta para ti. E parece o eco da voz da tua mãe.

A brisa lá fora agita-se e faz balouçar as hastes dos pequenos bambus que decoram a tua parede. Os colibris, assustados, levantam voo e beliscam a tua indolência. Levantas-te da cadeira, abres o armário, procuras o teu caderno e relês coisas que há pouco escreveste sobre outras que se passaram há muito tempo.
Ele gosta de ti, disse-te uma amiga tua a meio de uma aula que já não recordas de quê. Como sabes? perguntaste tu fingindo desinteresse. Porque ele até estremece quando ouve o teu nome, respondeu ela num sorriso a exigir uma cumplicidade que não devolveste. Naquele momento uma luz acendia-se dentro de ti, mas tu, querendo escondê-la a todo o custo, olhaste para a tua amiga imitando uma segurança que não sentias e asseguraste que não querias saber.
À noite, na solidão que só a cama te permitia ter porque não tinhas um quarto só teu, acendeste de novo aquela luz e deixaste que te inundasse de calor. E os teus dias passaram a ser de sol mesmo quando não tinhas coragem de o olhar e continuavas a fingir indiferença. Mesmo quando esperavas impaciente e já ias perdendo a esperança que os passos dele atravessassem a distância que vos separava.
 Quando terminaram as aulas do primeiro período e todos se iam apartar para as férias do Natal nas suas casas, nas suas vilas ou aldeias, lá bem em baixo, ao fundo da escadaria do liceu, despediste-te dele. Naquela altura não havia intimidades. Nas pequenas cidades de província os rapazes e as raparigas só começaram a cumprimentar-se com um beijo mais tarde. E tu ali, a querer senti-lo e sem saber como. Ocorreu-te tirar a luva e deixar a mão nua e livre. Com o coração muito contraído, apertaste-lhe a mão num gesto de despedida e, no frio gélido do dia, os teus dedos escaldaram-se perdidos no lume aceso da palma dele.
O carteiro não trouxe a carta. O tempo passou.

Alguns meses depois viste. Ele de mão dada com outra. Faltou-te literalmente o chão. Uma brecha enorme engoliu-te a esperança. Com a respiração suspensa seguraste-te à tua superioridade fingida e ao teu improvisado ar seguro. Olá disseste tu. E já não ouviste mais nada porque camadas de desilusão te envolveram toda.

Tu sabes que o tempo passa. Que o tempo passou muito depressa por ti. Já não há a voz da mãe. E olhas através da janela a sondar os segredos do agora.

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