Era um relâmpago contínuo, o Mustang vermelho, a riscar o quase anoitecer. Porém, o acender de um semáforo inesperado obrigou-o a uma travagem brusca, que aqueceu de cheiro negro o asfalto. Nessa altura, do meu tímido Fiat 600, pude observar com nitidez aquela impressionante e curvilínea máquina. Enchiam o seu habitáculo dois corpos: um deles, o do condutor, quase abafando o outro. Homem corpulento, adivinhava-se-lhe a altura desmesurada na cabeça lisa e nua que rasava o tejadilho numa ameaça de perfuração eminente. Aproveitou a paragem para fazer recuar o tejadilho. Fez isso com gestos exuberantes e falando sem parar. Sons de autoridade inquestionável desenhavam-se-lhe nos lábios grossos de lascívia. Droga de semáforo. Ainda me passou pela cabeça continuar, mas a lembrança da chatice da semana passada com a brigada de trânsito, fez-me logo mudar de ideia. Entretanto, já que aqui estamos parados, vamos lá aproveitar o empo, oh pequena. Olhando-o agora fixamente, pude apreciar melhor os seus olhos proeminentes num rosto largo e suado e o tronco anafado coroado por uma protuberante barriga que subia e descia ao ritmo da respiração descompassada. As mãos, rudes e grossas, estendiam-se autoritárias para o lado direito ocupado por uma presença feminina que, não fora a cara morena vincada por duas insistentes rugas, pareceria uma criança franzina a entrar na adolescência. Cabelos longos e rectilíneos emolduravam-lhe o mutismo na cara baça de esperança. Cruzava os braços e enterrava as mãos nas costelas que assomavam por debaixo da blusa justa. Os olhos, cor de cinza molhada, semicerrava-os numa linha estreita com que repelia a confusão de pensamentos desencontrados e com que chegava a uma decisão. Inabalável. Não vou aturar mais isto, pareciam eles querer dizer. Se ele pensa que me usa a seu belo prazer, engana-se. Ele que se atreva a aproximar-se de mim e eu mostro-lhe como se pode tornar feroz a fragilidade. Como se pode transfigurar a amorosa e gentil parceira na leoa selvagem que reivindica a sua pose radiante e verdadeira. Aí sim, ele irá aguar-se no vislumbre da totalidade que verá em mim. Eu, que sou filha do Amor. Lia-se-lhe uma quase alegria nos olhos rasgados de escuridão. Com um gesto certeiro e o ar triunfante de quem se desembaraça de pesado lastro, repeliu-lhe o avanço e deixou-o lá, agachado e gemente. Abriu a porta do carro e caminhou com a promessa das lezírias na primavera.
Que inacreditável visão, de força, magnetismo e poder a agigantar-se numa forma imensa que crescia na minha direcção. Uma voz firme mas serena, arranque antes do verde, roçou-me a pele e liquefez-me a vontade.

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