sexta-feira, 4 de abril de 2014

A PRIMAVERA CHEGOU

A Primavera chegou. Ela sempre chega. Chega para nos lembrar a ciclicidade da vida: na natureza e em nós. Chega para nos lembrar o incómodo, a dor e a paciência que à semente se fez necessária lá no fundo, bem no âmago da terra. A semente que para poder germinar, para poder libertar o seu real poder, aguentou firme a escuridão e o peso da terra num abraço silencioso e húmido até sentir a sua casca dura estalar e o embrião, guardado dentro, irromper e começar a subir até emergir do solo em busca de luz e oxigénio para viver. Lembra-nos também o nosso tempo de espera inquieta na escuridão a cada dia mais longa das noites da nossa psique. Num treino de paciência, entrega e confiança. E de esperança. Nós que nos atrevemos a descer ao submundo, a mexer o caldeirão, onde colocámos o que precisava ser abandonado para ser transformado. Nós que acompanhámos a morte da natureza, que respeitámos o seu silêncio com o nosso, nós que buscámos a regeneração do corpo e da alma. A Primavera chegou. Não tinha porque ser diferente. Nos parques e nas ruas as árvores parecem jovens púberes a tapar a sua nudez invernal com vestidos ainda de rendas transparentes e esburacadas. E é linda a inocência com que desfilam essa vontade de se porem belas, de florirem e frutificarem de novo. Sabendo que o Outono lhes roubará a realeza da sua cor dourada, que as flores e os frutos as abandonarão, que as suas folhas cairão e que irão servir de húmus num eterno ciclo de morte e renascimento. Espanto-me com a sabedoria das árvores. Com a sua presença testemunhal de ciclos, estações, vidas. Assim, simplesmente sendo. No dia, hora, minuto e segundo. Sem passado nem futuro. Apenas o presente. Sem expectativas. Hoje sentei-me no parque a olhá-las e a contemplá-las. E lá estavam elas. Olhos que as viram na primavera passada, uns antecipando, outros não, a sua data de validade, já não as vêem nesta glória recuperada. Mas ali estavam altivas e soberanas. Sábias, amorosas. E uma vez mais pensei que é a vida que se experiencia em nós e não o contrário.

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