sexta-feira, 6 de outubro de 2017


É TEMPO DE MUDAR

O Outono que este ano em mim, começou demasiado cedo, arrancando-me, rasgando-me, desfazendo-me, no calendário, só começou  há pouco mais de duas semanas. Se considerarmos a meteorologia, então direi que ainda não começou, antes prolonga-se o estio numa insistência de dias verdes, radiantes e espantosamente quentes. As árvores já começaram , ainda que timidamente, a deixar cair parte das suas folhas e notam-se umas pinceladas de castanho amarelado nas suas ramagens como se um pintor preguiçoso se tivesse limitado a dar uma sacudidela brusca no pincel.

É no entanto visível que, apesar do calor inusitado, apesar do azul e do verde,  a natureza se começa a preparar lentamente para uma despedida. Despedida do que foi: ramagens folhosas, frutos maduros, trinados matutinos, tempo comprido, gargalhares porque sim, rubores porque também. Pelo chão uma brisa morna vai espalhando folhas que ali hão-de ficar à espera de alguma humidade que as grude à terra.

Vai-se dando lugar à morte. A morte que antecede nova vida. Daqui a nada, algum tempo até ao Inverno, os ramos, ainda  folhosos, mais não serão que esculturas nuas e suplicantes. Nessa altura, já o putrefacto das folhas e dos galhos mais miúdos e menos resistentes às inclemências do tempo fortalecerá o solo e servirá de alimento a novas germinações.

No outono, a natureza ensina a despedida, o largar do que, tendo ou não cumprido propósitos, já não serve, não cabe, não encaixa. A natureza é mestra. As árvores são sábias. Gostava de ser uma, ou pelo menos aprender a ser consistente e paciente como elas.

É tempo de mudar.

Despedir. Largar. Soltar. Libertar.

Porém, supera-se um desafio, um obstáculo mas não o que passou. Simplesmente não se pode voltar atrás e remendar o roto, remediar estragos. O que passou está para além do nosso controlo.

Como soltar? Como libertar?

Quiçá aceitando em nós, tal como a natureza, os ciclos de vida-morte-vida.
Ir para além do que já não se quer, abrir o coração e aceitar, idealmente amar, aquelas coisas que desejaríamos não tivessem acontecido. E acreditar que elas podem ser o húmus para novas sementeiras e colheitas. E, por isso, abrir ainda mais o coração e preparar o corpo e a alma para novos quereres.

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