É TEMPO DE MUDAR
O Outono que este ano em mim, começou demasiado cedo, arrancando-me,
rasgando-me, desfazendo-me, no calendário, só começou há pouco mais de duas semanas. Se
considerarmos a meteorologia, então direi que ainda não começou, antes prolonga-se
o estio numa insistência de dias verdes, radiantes e espantosamente quentes. As
árvores já começaram , ainda que timidamente, a deixar cair parte das suas folhas
e notam-se umas pinceladas de castanho amarelado nas suas ramagens como se um
pintor preguiçoso se tivesse limitado a dar uma sacudidela brusca no pincel.
É no entanto visível que, apesar do calor inusitado, apesar do
azul e do verde, a natureza se começa a
preparar lentamente para uma despedida. Despedida do que foi: ramagens
folhosas, frutos maduros, trinados matutinos, tempo comprido, gargalhares
porque sim, rubores porque também. Pelo chão uma brisa morna vai espalhando folhas
que ali hão-de ficar à espera de alguma humidade que as grude à terra.
Vai-se dando lugar à morte. A morte que antecede nova vida. Daqui
a nada, algum tempo até ao Inverno, os ramos, ainda folhosos, mais não serão que esculturas nuas e
suplicantes. Nessa altura, já o putrefacto das folhas e dos galhos mais miúdos
e menos resistentes às inclemências do tempo fortalecerá o solo e servirá de
alimento a novas germinações.
No outono, a natureza ensina a despedida, o largar do que, tendo ou não cumprido propósitos, já não serve, não cabe, não encaixa. A
natureza é mestra. As árvores são sábias. Gostava de ser uma, ou pelo menos
aprender a ser consistente e paciente como elas.
É tempo de mudar.
Despedir. Largar. Soltar. Libertar.
Porém, supera-se um desafio, um obstáculo mas não o que passou.
Simplesmente não se pode voltar atrás e remendar o roto, remediar estragos. O
que passou está para além do nosso controlo.
Como soltar?
Como libertar?
Quiçá aceitando em nós, tal como a natureza, os ciclos de
vida-morte-vida.
Ir para além do que já não se quer, abrir o coração e aceitar,
idealmente amar, aquelas coisas que desejaríamos não tivessem acontecido. E acreditar
que elas podem ser o húmus para novas sementeiras e colheitas. E, por isso, abrir
ainda mais o coração e preparar o corpo e a alma para novos quereres.

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