segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A fonte do oráculo

A meio da tarde, suando o calor do Alto Alentejo, oferece-se-me a inesperada sombra refrescante da Fonte do Oráculo. Densas silvas cobertas de amoras, já  secas no tardar da colheita, protegem-na, de frente, da indiscrição despreparada. Um tanque de água, que se renova a cada instante num correr contínuo  de água a surgir em fio de uma caleira, é guardado por uma deusa em pedra, despida, com uma leve folhagem a proteger-lhe a púbis. Uma densa ramaria de arbustos e altas árvores cobre-lhe a retaguarda e um pequeno relvado prolonga a vontade de desfrutar em pleno daquela dádiva primeva.
            Impõe-se-me o ritual. Refresco o corpo despido, escaldante nas águas frias que me rejuvenescem e purificam e intuo a razão de ser deste rito: despida de roupas e simbolicamente despida de conceitos, abro-me à inocência primeira e à verdade que  me conecta ao que pensava perdido.
            A este local de poder vem-se, dizem-me, em busca de insights , de respostas, de iluminação. E também para sacralizar o amor pelo sexo.
            Aprende-se, vive-se o natural da vida. O indomável, o impoluído, o que diz não às agressões constantes de um viver mal ensinado mostra-se e reclama o seu lugar com uma ingenuidade assustadora. Não faço perguntas ao oráculo, talvez por pensar que não sei ouvir as respostas mas, no silêncio do meu coração sossegado, construo  a catedral que me abriga.

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