quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O sótão e a cave em mim

Se me perguntarem, respondo que não gosto de caves. Que gosto mais de sótãos, porque são lugares de claridade, de luz e sortilégios. E de mistério também, porque abrigam histórias veladas, cartas de amores secretos, confissões, objectos inúteis, livros antigos, frascos com tisanas desconhecidas, brinquedos partidos. Pode ser-se rei ou rainha num sótão e é por isso que as crianças gostam de se refugiar lá. Eu vivi muitas horas da minha infância no sótão da casa da minha avó. Sentia-me lá no limiar da fantasia, onde a qualquer momento podia aparecer uma fada, um duende, um gnomo ou um elfo. Como se, de repente, qualquer mistério me pudesse ser revelado. Paradoxalmente, sentia-me a andar em bicos de pés no fio de uma navalha, com  a sensação de estar prestes a entrar onde não devia e de poder vir a ser castigada por isso. E o coração punha-se em sobressaltos sempre que ouvia o ranger das escadas. Atabalhoadamente escondia os meus achados antes que um censor adulto os  apanhasse.
Em miúda nunca brinquei em caves. Talvez por adivinhar que lá se esconde toda a parte submersa do meu iceberg. Tal como as cavernas, são escuras, húmidas e bafientas. Jazidas de segredos obscuros, de respirações suspensas. Lunares.
Quando desço encontro sombras. Sombras muito antigas de segredos ingénuos e pueris que a moral puritana, de forma vil e funesta, manchou com a cor do indizível, do proibido, da culpa, do pecado. Tropeço em vergonhas, dissimulações e precoces insatisfações.
Desço um pouco mais, cambaleio e estou quase tentada a procurar o caminho do regresso, quando esbarro na entrada de um túnel enganosamente salpicado de pontos luminosos. Onde outras sombras menos antigas e mais escuras me fitam em desassossego. Carregadas de medos, de pressões, de opressão, de violências, de repúdios, de subversões, de muitos sins e poucos nãos. De esvaziamento. De estilhaços do eu. De fragmentação. De frieza e desamor.
Fujo e subo ao sótão.
Quando subo, penso-me inteira. Mas é só uma ilusão. Porque tenho a outra metade enterrada lá em baixo. E a luz radiante fica menos luminosa.
Na ilusão do sótão guardo o amor. É no sótão que o  ser incompleto quer SER.
Mas sei que para chegar lá vou ter que descer todos os degraus da cave e que me aventurar na escuridão onde moram os meus demónios, acobertados na sombra, à espera que  com eles faça as pazes .

2 comentários:

Joana Bastos disse...

Lindo...

Fernanda Ribeiro disse...

Tão belo e profundo!
Fiquei arrepiada ao ler este texto.
Retrata de uma forma poética um SER que procura a sua íntegridade e felicidade com uma lucidez brilhante ...