Há-de um dia alguém, num tempo que ainda não existe, dizer que todas as cartas de amor são ridículas. Mas logo a seguir retratar-se-á afirmando que afinal só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas.
Não quererei eu, por certo, ficar no rol dos ridículos que nunca escreveram cartas de amor. Eu, que violei decretos imperiais e que, em sigilo, celebrei a união de tantos apaixonados. Eu, que pago com a vida essa desobediência civil, escrevo-te esta carta de amor, a única que alguma vez escrevi.
Fevereiro chegou há treze dias e com ele a Primavera, o tempo da purificação. Não deixa de ser irónica a data escolhida para a minha decapitação: 14 de Fevereiro, dia da deusa Juno, a deusa do casamento. Seria o dia que nós teríamos escolhido para nos unirmos e assim consagrarmos a alegria suprema deste imenso amor que, mesmo sem intenção dirigida e em circunstâncias tão nefastas, germinou e se fez indestrutível.
Esmaga-me o peso da saudade que toma já conta de mim. Amanhã, logo após o sol nascer e antes de o algoz me vendar o olhar, procurarei a tua cabeça, que me prometeste enfeitar com uma grinalda branca, fixarei os teus olhos e a luz reflectida na densidade das lágrimas que neles verei guiar-me-á no caminho da eternidade.
Nesta noite que não tem fim, dou passos ininterruptos na solidão escura deste catre na esperança vã de com eles anular a distância que nos separa, mas cada passada regressa triste e desconsolada como a de um amante rejeitado. Porém, sei que quem me rejeita não és tu, meu amor desolado, mas este destino cruel que não me deu escolha. Tenho esperança que Claudius um dia compreenda o alcance da minha desobediência, nem que seja na noite mais obscura da sua consciência e que o entendimento, de tão claro, lhe cegue a vontade de prosseguir guerras e conquistas à custa da proibição do sentimento mais sublime.
Encontro o meu consolo na leitura dos teus bilhetes apaixonados e na certeza do teu afecto. Tu já não és só a mulher a quem dei o meu coração. És a amante do meu corpo e da minha alma e, num grito de exultação suprema, consagro-te a minha fidelidade eterna.
Despeço-me da vida e de ti.
O teu, sempre teu
Valentim
Roma, XIV Februarius CCVXIX

1 comentário:
Bem imaginado e bem escrito. Tenho a certeza que S. Valentim subscreveria o texto.
Jorge Couto
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